Sobre a escrita #1: Os primeiros papéis

Há pouco tempo, estive idealizando um projeto sobre o processo de edição e revisão que faz parte essencial da minha escrita. E, além disso, foi algo que sempre gostei de fazer quando me pedem ajuda na hora de escrever. Mas depois de me dar conta que com meu próprio trabalho é algo que faço muito mais intuitivamente e ter tido muita dificuldade sem que obtivesse um resultado que valesse a pena ser mostrado. Resolvi escrever um pouco sobre algumas reflexões acerca de como a escrita surgiu na minha vida, desengavetando e ampliando um projeto mais antigo e devo publicar em uma série de 4 ou 5 capítulos.

Enquanto criança não fui realmente “estimulado” a escrever ou ler, além do seja habitualmente obrigatório por conta dos assuntos escolares, livros paradidáticos e coisas afins, não recordo de ter tido alguma experiência significativa com a literatura durante a infância. Mesmo em toda a adolescência nunca passei muito tempo diante de um livro, o primeiro grande livro que li foi Cem anos de solidão, numa circunstância completamente casual e já depois dos quinze. Próximo aos dezoito folheei pela primeira vez por conta própria um filosofando, mas pela enorme dificuldade de concentração, o que essa influência me trouxe foi mais de  impulsionar a dar os primeiros passos em filosofar sozinho.

Nesta época comecei a rabiscar meus primeiros poemas, e cheguei a criar um blog chamado de “Rios que voam”, embora não tenha muito que dizer sobre a qualidade, no geral eram de péssima qualidade apesar de todo o esforço, alguns deles foram escritos palavra por palavra durante muitos dias.

Obviamente muito do que a Filosofia me trouxe, e que marcou tão profundamente a minha vida, mas essencialmente essa reaproximação da linguagem, em todos os sentidos mais intimamente, foi o principal reagente, e já na época de curso surgiram alguns poemas bem interessantes e sinto muito carinho por eles, inclusive Os trabalhos do menino mateiro.

Já faz quase 7 anos que esse blog existe, mas apenas há 4 comecei a investir nele de fato. Esse tempo coincide mais ou menos com a época em que escrever deixou de ser algo esporádico e prescindido por aquele ímpeto de ter que tudo de uma vez ou caso contrário não ficaria bom, geralmente por conta da dificuldade de pôr os pensamentos no papel. Aconteceu que certo dia, cercado de muito sofrimento, acordei uma necessidade imensa de dizer algo a alguém, e ninguém estava lá, de fato ninguém, então comecei a pôr um pouco no papel, e logo em seguida voltava a dormir, constantemente vindo a pegar no sono em cima do papel e da caneta, e no mesmo dia ou seguinte sonhava com algo relacionado ao que havia escrito, ou apenas sonhava com outra coisa interessante, quando acordava, escrevia tudo o que podia e, o quão desordenadamente fossem os pensamentos não iam embora, cada vez com mais intensidade, rapidamente tornou-se um vício e um delírio absurdo, não havia mais nada além de sonhar e escrever, quando não restava mais nenhum canto em branco, jogava o papel no chão sem amassar e recomeçava em outro, ao ponto de cobri-lo e assim um dia comecei a caminhar sobre meus textos e poemas. Todos os tipos de sentimentos e sensações me invadiam, e pareciam falar por si, do ódio ao carinho, do tesão ao nojo. Entrei num surto criativo, por assim dizer. Ainda tenho os papéis dessa época, e neles ficou marcada toda a sujeira deste tempo, marca de pés, manchas de álcool, de comida, cabelo, insetos, cinzas, sêmen… E foi dessa mistura, que surgiu meu primeiro texto em prosa Da aranha e das águas da lembrança e o poema Flores negras. O delirante ímpeto de misturar e misturar-me a tudo isso foi, além da força motriz de meus primeiros escritos, o que me ajudou a distorcer tudo o que estava diante de mim, tudo o que não podia mais suportar, como só percebi mais tarde, mas de algum modo já intuía que estava também me salvando de ser destruído por toda aquela dor: ainda existe muito dessa experiência até hoje em meu estilo, mas na prosa poética de Excertos da noite mais do que escura, certamente deixei meu acerto de contas com esse “salto” até a escrita.

Apesar de não escrever, meus pensamentos sempre tiveram uma vida ativa e rica, assim como a imaginação fértil, não creio que positivamente, entretanto, para mim foi uma questão de sobrevivência, não havia quem me escutasse e assim aprendi a escutar a mim mesmo, o que me tornou frequentemente clarividente sobre o que estava sentindo, o que de algum modo manteve, talvez colateralmente também conteve, acabei por me tornar muito reto, com toda sinceridade e justiça de minha palavras e ações. Assim, não explodi quando mesmo talvez devesse, mas não podia. A escrita veio com todas as explosões que um dia contive, e mesmo trazendo a tona derradeiramente a capacidade de me reinventar. Mas ainda ocultou de mim, e manteve algo preso as profundezas desse tempestuoso mar. Mas ainda, nunca deixei de estar sozinho entre papéis.

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Densidade

(Da série, confissões, malogros e outras penitências). A primeira cumplicidade que sinto com qualquer pessoa com quem por acaso venha a travar um bom diálogo, um diálogo franco e aberto, no estilo grego, diga-se assim: um confronto. É quando, mesmo que já o tenha dito antes, aquela pessoa chegue a concluir: “meu caro, você é denso”. Uma daquelas brincadeiras, com fundo de verdade tão amargo, que … Continuar lendo Densidade

Sobre o gênio fraco às amizades

    Tive sempre esse gênio fraco às amizades, Talvez seja porque perdi desde cedo o caminho para casa, Sonhava já menino encontrá-la nas ruas incompreensíveis De vizinhanças cada vez mais distantes, Ficando sempre mais tarde nas ruas vazias da hora de jantar, E não encontrei se não o desencontrado, Inventei, inconsciente disso, Magoas imperdoáveis, e sofri lentamente este fardo, Por isso, inventei ainda um … Continuar lendo Sobre o gênio fraco às amizades

Solidificação

Precisamos do amigo, do amor, do outro, mas não dá para precisar ao ponto de sacrificar em si mesmo o amigo, o amor, o outro. Aqui talvez esteja a grande diferença entre empatia e compaixão, e o limite que tem de ser frequentemente confrontado, muito além das provas cobradas a si, e não mais que a si mesmo, é a partir destes riscos corridos para quase perder-se que … Continuar lendo Solidificação