Refazenda

Último da série de revisões, finalzinho do antigo Solidão

 
De vero,
Nada a dizer,
Tudo, ainda por fazer,
Tudo, neste esforço,
Re-(qualquer coisa),
De eclodir fora da casca,
Redesenhar,
Redescobrir,
Ressinigficar,
Poetizar no gesto,
De simbolizar a vida,
 
De vero, nada a dizer,
Como todo homem justo,
Mendigar sentido as coisas,
Vivenciar os punhais,
Sangrar o alvo da carne,
Cunhar a moeda de ser,
Sem escapatória,
E nada mais,
 
Perder-se na solidão,
De erguer-se mais uma vez,
De longe, afiado,
Cegamente, aproximo,
Meu jeito sem jeito,
De dar boas-vindas,
 
Além das escadarias,
Castanhas de seus cabelos,
Um beijo cai,
Suicidado de desejo,
Sem cair no seco,
Ficar molhado,
Um mergulho,
Sem medo,
De gozar dentro,
Do espirito,
De criar em comunhão,
 
Mais que isso não sei,
A própria vida é uma bagunça silenciosa,
Arrumo-me por aí, sozinho,
Abrindo caminho à escrita,
Me acho e me perco,
Canso, reluto em desistir,
Reluto em confiar.
Reluto em relutar.
E algo se faz, enfim.

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William Turner, Shade and Darkness - The Evening of the Deluge

Temporais

 (Pintura de Willian Turner)
Da série: Meu amigo, dia desses começou a chover.

Meu velho amigo, como não lamentar? Se aos irreversíveis apenas conjuga-se dolorosamente em meio aos temporais.
 
Ainda quando entre nós pairam as cinzas das coisas desprovidas de vibração, como um vento fugaz que atiça as faíscas, adentra a morada e revira tudo que estava solto, desvela a solidão das coisas imóveis.
 
O inverno ainda estendia a bainha de suas longas vestes de chuva além do salão onde dançara por muitas semanas, como se fizesse questão de receber e mostrar a morada do mundo à estação recém-chegada, ainda sutilmente o calor do sol tocava as coisas, misturando-se e dissipando o calor dos corpos.
 
Foi durante uma tempestade de primavera, a primeira da estação, que despertei desse longo sono de abandono. Transbordando de ânsias, como os brotos da primeira leva de florescências primaveris, fragilmente desguarnecido na estranheza desse lugar estrangeiro, onde parecia haver chegado como um tronco que arrancado ao solo pela força da enchente das chuvas excessivas, segue carregado pela correnteza, e acaba por ser encontrado muito longe de onde dera por principio sua jornada através de sua queda, em outro lugar, em outra estação.
 
E mais do que tudo longo foi o tempo em que busquei a segurança das coisas que me enraizavam no solo confiável de uma distância intocada.
 
Todavia então, revirado e confuso até o âmago de meu ser, as flores intempestivas brotaram belas ainda que frágeis, e o vento forte e ameaçador também nutria os coriscos de um fogo redentor. E, tendo sido convidado a apresentar um trabalho, lembro claramente como naquela noite, entre diversas injustiças tão palpáveis, chegou até mim o ocaso, e enquanto se iniciava minha fala sobre a tradição e criação, a tempestade se impôs em toda sua plenitude.
 
Enquanto discursava, sem notar minha voz afinara-se ao trovejar, e seguramente quando levantei os olhos, juntamente meu espírito se elevou para vislumbrar o céu desse instante, e como se intimamente contemplasse no relampejar a respiração de uma potencia tão oculta quanto os deuses naquela noite, pressenti no estrondo o ruído de minha queda, assistindo o esgotamento transparecer nas nuvens o raios como as veias e nervos disto que por dentro insuflava-me as vísceras até esse insustentável limite: e um longo e profundo incomodo me atravessou. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti em um longo deslocamento o próprio do dizer desencaminhado da vida.
 
Mas como naquele instante reencontrasse a mim mesmo, hesitante, procurei como sempre algo de familiar entre os rostos desconhecidos. Ficando a espreita nas beiradas de formular uma decisão: Sob a pele desse instante vasculhei além, buscando nos arredores da estreiteza em todos os caminhos por onde andei nesses últimos anos, no entanto, sem espanto, tudo parecia o mesmo. E então, a encontrei. E possesso dessas forças excessivas continuei a discursar e apenas aos poucos transpareceu a contradição. Nesse enleio percebendo que ela também me notou, fiquei ali parado diante da branca hesitação em seus olhos, revirando-se para o fundo seguro com que se estabelecera ao redor dos meses, mostrando que aprendera a largar o antigo apego conquistando o alheamento de agora, me comunicando que a história fora forçosamente apagada pois assim era possível, e me pareceu triste mais do que justo que também eu por muito tempo o fizera, e na imposição desta força estava circunscrito uma história ainda mais antiga e hedionda, e da qual apenas lutamos longamente pelos espólios de sua miserável herança, e bem antes de nós e de outros companheiros que tivemos, distantes antepassados já nutriam o mesmo fastidioso orgulho. No entanto, o único fato que para mim naquele instante apareceu pesado e claro, foi o seguinte: éramos amigos…
 
Quando tudo acabou, apenas recuei atônito. E para ainda mais longe deslizei no tempo em que permaneci alheio a tudo e todos, conquanto ainda falasse e ouvisse eloquentemente sobre as coisas: e essencialmente quando alguém me reconhecia, o efeito sobre a minha calma era devastador: exasperado fugia, escondendo-me na segurança daqueles dias alegres da juventude; em um longo suspiro formulando a mentira verdadeira, com que, fantasiadas de si mesmas, as palavras ditas não sustentavam o sentido em devir dos acontecimentos.
 
E ao me aproximar do novo, apanhava-me, pelo largo distanciamento dessa curva invisível e acentuada, falando sobre coisas impossíveis de partilhar entre iguais. Foi assim que, negado e desmentido, fui atravessado por uma enxurrada de recordações e espantado abrir os olhos, enquanto os céus trovejavam todas as injúrias lançadas ao redemoinho das lembranças, aquela tristeza irrompeu como o relâmpago iluminando essa hora, e inundando meu ser de angustia.
 
Meu amigo, assim derradeiramente o céu estremeceu e desabou sobre mim, e o que o estrondo desfez e num alto clarão desnudou, pronunciando impiedosamente o que não podia até então escutar, mas ainda que a voz recuasse temerosa de tudo o que estava ao alcance das mãos, tudo ainda ruindo, partindo, quebrando entre os dedos, deixando-me mudo. Nenhum orgulho poderia ocultar as covardias despidas, todas as feridas nuas, restando apenas esperar.

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Solidão (Revisão)

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.

Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,

Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.

Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.

II
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Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

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Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera

(Excertos do texto inédito, Dia desses começou a chover)
 
Mas calma, é lentamente que a bruma áurea se dissipa ao entardecer de todas as coisas. E enquanto de seus esporos luminescentes de lembranças nascem as estrelas nuas de tristeza, e interrogam onde ainda bate verdadeiramente o coração. Meu irmão, se nesse silêncio ouço escoarem para longe as vozes serenas que acima de tudo se cativam do brilho das estrelas.  Adentro ao silêncio dos ermos, vento frio a levar-me a presença de mim embora, e na clareira dessa ânsia, atravessa-me o espinho, como se cultivasse em segredo, um jardim a beira do abismo. E lá, alheio ao conflito entre ideias e emoções, e a ameaça de cair no vão sem fundo, inesperadamente o coração sonha como se brincasse e tocasse o próprio sonho, mas como é possível? Como perdeu-se essa linguagem tão íntima? Se era tão claro ainda agora? E tão estreita a cerca entre esses vizinhos? Amigos? Irmãos? Traduzir-se é, dessa longa e ininterrupta conversa entre sentir e pensar, espantosamente dizer a verdade.
 
Aqui, neste lugar, onde livre de obrigações e contentas, abandonar-se ao acaso, é de súbito dar-se conta do cansaço. E como a bagagem que se lança em algum canto, em casa, após uma longa viagem, e vai desfazendo-se ao longo dos dias, a alma transcorre turbulenta como um rio, liberando as tensões através das pedras e coisas imóveis no caminho. E o coração como um animal selvagem, aproxima-se para beber das fontes e farejar os rastros do estranho. E não havendo nenhuma outra travessia, nenhuma queda, as luzes, os ruídos, do mundo e das cidades, perturbam a tarefa do artificie curioso da nova invenção. E as dores dos caminhos, estendem-se nuas sob o céu, e interrogam os infinitos de além, ao apagar das luzes.
 
O quão cedo acendei-as novamente, o quão cedo tocai todos os sons, perfumai teu cheiro, fascinais do novo, e alimentai do pão das presenças, ocupando a demora, tão brevemente surge a fome cheia de ausências, os pés maltratados e as costas queimadas não deixam dormir, não deixam se encontrar em meio a bagunça.
 
Quando os ecos aproximam-se do silencio aberto, e magoam as feridas com o sal das estradas, a velha linha do destino aperta o nó e vibra, entoando a lira da tristeza. Quantas ausências, quanta solidão, e o espírito vela solta, farrapos e fiapos, flamula no ancoradouro.
 
Despertamos para a noite, longe do escuro alegre do trabalho, em que sumimos em meio a tecedura, e apanhar-se só com a rede desses pensamentos ressoando sentimentos febris, quando por fim estendeu-se o tapete desse deserto? Ou sempre esteve? E o ouvido afinado, apreendeu a descortina-lo? Através miragens esperançosas e consoladoras? Mas o que é, então, insuportável? Por onde esse espinho penetra ainda mais fundo a carne?
 
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