Marina

(Pintura de Francis Danby)

Talvez um dia a encontre,
Entre as Plêiades ou Nereidas,
Nos esquecidos contos arcaicos,
Tão proximamente estrangeiros,
Onde as saudades esfumam como suspiram as ânsias,
Incessantes ondas sob as estrelas dessa constelação,
Ou chafurdar a crista das coisas,
Ao acontecer de sorrir,
Desde ti retecendo a trama de antigos laços,
Qual seja, perfaz o redemoinho apraz,
De detalhes lançados ao sortilégio místico,
Com uma besteira assim, de dizer,
Abrindo a vela da alma,
Para um caminho ou direção sem rota,
De um sentido a emergir das profundezas desconhecidas,
Alcançar as índias nas fronteiras do mundo,
Talvez seja, deveras, ao asserenar-se o tempo,
E da espuma, espraiar na areia,
A simples beleza no estouro de tons de cores impossíveis,
O beijo de teu Sol a resplandecer,
Nas escamas do hipocampo,
Ei-lo ao estarmos nus, deveras,
Vestindo primaveras e outonos,
Dias e noites,
E então, mergulhar,
Talvez trespassar-nos-ia o Narval,
Rasgando esse corte,
Para intimidade que nos despe,
E cantar com qual música o encantamento,
E tu, filha desses mares revoltos,
Tão breves e finitos sejam,
O sal de tua seiva, o sargaço de teus pelos,
Tua pele de água-marinha,
Também o é, o mar em meu olhar,
Amainando o marulho desses versos,
Conquanto, ainda sonhemos,
Elevamo-nos a contemplar o infinito distante.

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O insolúvel

Ainda arde o fogo sagrado emanando do coração, Espumando como na crista das ondas, Ou como labaredas coroando a flâmula alegre? Vento descortinando a relva, À comoção do raio solar, Lançado através do fulgor dos céus, E silenciosamente desperta já a caminhar, Estando só, entrementes, Pois não podem todos, Beijar a alma ao ver, Com ante a esplendorosa beleza na natureza, Ao por do sol. Tão … Continuar lendo O insolúvel

Videiras

Foi calado sob um céu estranho, que me reencontrei vagando através da longa rua dos desencontros, carregadas nuvens fechando-se sobre o mundo, ameaçando obscurecer qualquer vestígio de coisa particularmente familiar na opacidade de tudo. E nesta cidade cinzenta de meus pensamentos envoltos em uma gravidade mais densa, tudo o mais ascende como fogos-de-artificio ou uma salva de tiros contra a resistência infalível do ar. Tão … Continuar lendo Videiras

Quando tudo se realizar

E quando imersos, Na sutileza vívida e despropositada em tudo, Preenchendo e transbordando, Com a vida mesma Repleta da mais tácita simplicidade, Como se cada segundo bastasse, Como se cada coisa ou lugar estivesse Intimamente envolvido pelo mais caloroso sentimento Reverenciado pela luminosidade que se derrama Como um Sol ungindo a cumplicidade de nossas presenças, E então, de repente nos entreolharmos perdidos e tão Profundamente … Continuar lendo Quando tudo se realizar