Vida, vento, vela…

(Imagem: Pintura de Martin Johnson Heade)

Leva-me,
Para antes de as sombras,
Cobrirem os quintais,
Despertando uma velha assombração,
Leva-me,
Para quando viver era o mesmo sonhar,
E ainda temeroso e valente,
Verde, como o que ondeia nos campos,
Também eu era alegre como um rio,
Como tocava no radinho sobre o tapete persa,
Leva-me,
Enquanto acordes se mesclavam ao som do chuveiro,
E pela primeira vez ouvi aquela música,
Refletindo a imagem atroz na água doce e cristalina do sentimento,
Despindo-a em todo misterioso curso de um destino,
Para o céu e o inferno que fosse,
E a tive nua em meus braços. Continuar lendo “Vida, vento, vela…”

Chuva no rosto

(Imagem: Pintura de Saeed Tavakkol)
último texto da série Meu amigo, dia desses começou a chover…

 
Como se explicam essas vezes em que se acorda já cansado? Nu e estirado no acaso. Pelo caminho, sempre atrasado, ocultar-se ao relento de nenhum olhar que o abrigue, além de quem possa reconhecê-lo como caminho, ainda que sob a luz consoladora e mórbida de outros astros. E parece ser essa a única ocupação garantida. Meus amigos, onde estão vocês que algum dia me fizeram questionar corajosamente se podíamos alcançar o possível de um sonho? Sim, o cansaço, pois ainda tento encontrar um lugar para o que seja digno e importante. Mas deitado nessas ruínas via estrelas novamente, e isso é tudo.
 
Dias depois, ainda sujo do tempestuoso ocaso, ferido intimamente da condição de ser finito. Ainda que pareça ofender profundamente ao cotidiano normativo das coisas, expor-se a luz do dia comum carregando consigo as marcas e os sulcos cavados no espírito, da dor e da alegria de ter reencontrado a chama viva da contenda da alma. E então, me escondo de todos no labirinto dessas erosões.
 
Tão de repente quanto vivenciei tudo o que descrevi impreciso: passei frequentemente a sonhar como a muito não acontecia, e revisitando as antigas ruínas. Sem deliberar ou perguntar, me dirigia aos bares e praças em que nos reuníamos. Passava horas meditando em silêncio, algumas vezes sob o abrigo de árvores frutíferas, mangueiras, sapotizeiros, castanheiras, e permanecendo ali, sob a goteira pesada da chuva que se acumulava nas folhas e galhos, embriagando do perfume doce e enjoado dessa mistura de terra úmida, frutos apodrecidos e de umas poucas flores remexidas, lembrava ter visto antigos amores em longas conversas em parques e madrugadas, de amar, e de ver tudo se desfazendo quase sempre por um egoísmo idiota, em outras caminhava sem direção perdido em pensamentos distantes. Ia a praia, estranhamente vazia nesta época do ano, e caminhava na areia molhada, serenamente assistindo a ressaca feroz  das ondas esfumando entre si, para enfim debulharem-se na areia, e quando chegavam a molhar os pés,  recebia-o como um desafio, pulava socando as ondas, esbravejando, caindo pra trás, atracado com o fantasma de uma grande peixe, armando a linha para anzóis cada vez mais afiados e sedutores: cada lugar me comovia com um sabor diferente e incompleto, enquanto o espanto me acompanhava por todo o caminho, com o único acesso em comum de ir sempre em direção ao Sol. Mesmo quando por vezes apenas encostava o rosto numa janela e frio gélido despertava do sonho enquanto via através da chuva batendo contra o vidro, as coisas sumindo e esmaecendo. Nessas horas uma súbita fraqueza me dominava, e era difícil segurar todo sentimento que enchia meu coração e transbordava: penso que é mesmo confuso esse mundo espelhado, onde as tristezas e as esperanças brincam com as imagens refletidas, de onde brotam fantasias de vibrações e possibilidades, e fantasmas através de distorções e ecos, esses deuses da chuva, que exigem da vida que o calor se mostre, dos distantes a proximidade, e dos estranhos a intimidade.
 
Através desse vento que às vezes me arrebata como uma brincadeira, desfolhando e embaralhando as coisas,  ventando sonhos para lembranças, como se reinventasse o passado, e lembranças para futuro, como se pudesse ver as coisas tornarem a ser mais um vez, e de quando venta um momento fechando os olhos e assanhando os cabelos, alisando meu rosto, tocando-a com dedos de chuvisco, levando a dormência embora, trazendo de volta o barro cru da vida, como se quisesse ver esse rosto de perto, do que fez, faz e fará, como se não o reconhecesse de longe, como se não estivesse de óculos
 
– É você mesmo! – ouvi-lo dizer.
 
E pode parecer ridículo, mas me sentia feliz e respondia em silêncio: sim sou eu mesmo!
 
Em verdade, de algum modo em meio a esses devaneios juvenis ia refazendo a costura de ser com os farrapos de ter sido, raspando as cores do esquecido para recomeçar a pintura em um novo quadro,
 
Tenho de ir devagar, para não me perder. De verdade, se me recordo bem parecia estarmos todos fugindo de algo com tanta pressa, que esquecíamos muito e reparávamos quase nada. Porque se parássemos, teríamos de conta de um imenso absurdo. Éramos jovens demais para saber, que mesmo agora ainda continuamos a ser. Tenho de ir devagar, diz-me a alma e o coração, e me deixar reparar o tempo…
 
Inesperadamente, me apanhei dia desses fitando minhas mãos, e as reli, como se faz com as linhas de um velho diário ou carta reencontrada de seu canto esquecido, e sim sou eu!
 
Eu mesmo, enquanto estia e ainda bebo da chuva, embebedando de misturas possíveis de sentimento, deixando a arritmia solta, o descompasso como guia, dos restos de infinito, tilintando em toda a parte, como um oráculo estilhaçado: gotas e poças, improvisando espelhos, e todas as luzes refletem em algo, e fazem delas brilhantes cristais; e interpenetram-se nesta ar-ritmia constante, de outra imagem, de outra claridade, com a indiscrição das coisas vertidas através dos cantos que não se vê, expondo a intimidade, me vejo de frente ao virar as costas para rir, ou de costas no choro no riso que dei para alguém sem poder, ou nos suspiros que sustentam esperanças mas aliviam fúrias, de amores que ainda sinto na ferida seca do laço cortado, tudo que finjo, calo ou minto, no desamparo do reflexo vivo, e todas as tristezas revelando seu canto de alegria.

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Teu canto…

(Imagem: Pintura de Ron Hicks)

Quando a voz de teu canto tocou a minha alma,
Ela viu o Sol, morrendo no horizonte de uma longa noite,
E continuou a seguir,
Como o coro das antigas tragédias,
Escoou entre deuses e mortais,
Entre os atos heroicos e a plateia,
Em nada se conteve,
Brincou com as resistências, como um cata-vento,
Cheirando a rosa dos ventos das etéreas correntes do meu céu,
E soube como o tempo retorceu as arvores,
Debicando num mergulho corajoso em meus abismos,
E depois, apenas voou fundo e mais longe,
Da ultima cova ao primeiro berço,
Abrindo vasta e firmemente as asas,
Como um grito de liberdade,
Ama os grilhões antes de amar ao destino,
Avançando as cordilheiras de sonhos sumidas na noite,
Voando raso pelas calmas planícies,
Onde fogo e sangue incendiavam a tarde,
Desviando de pedras entre as veredas estreitas,
Por onde é árduo seguir,
Escutando os mais difíceis e espessos silêncios,
Viu feridas abertas brilharem como as estrelas dessa noite tão longa,
E alegrias e tristezas do enigma de meu coração,
Então saiu de meus olhos deixando o esquecido em minhas mãos,
E o infinito estuário da demora de teus lábios nos meus.

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Joseph Lorusso

Em um quadro de cores febris

(Imagem: Pintura de Joseph Lorusso)

De perto a vida te quer,
Já no alto a tarde te pinta em um quadro de cores febris,
O calor te festeja,
Suspirando doce como vinho suave,
E bêbada de suspiros atrasa-te por uma alameda,
Teus intangíveis tocam as coisas do mundo,
O caminho que te alcança se fecha e se abre numa espiral,
Paternal, o vento te acaricia os cabelos,
A brisa amiga te instiga a rodar a saia do vestido,
E inspiram a beijar tua prole,
Tuas pequeninas paixões e sonhos,
Presas como frutas no pé na ventania de tua história,
Corações amarelas vermelhas queimadas,
De verões viajantes,
Apertando-te o peito.

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