Solidão (Revisão)

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.

Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,

Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.

Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.

II
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Marina

(Pintura de Francis Danby)

Talvez um dia a encontre,
Entre as Plêiades ou Nereidas,
Nos esquecidos contos arcaicos,
Tão proximamente estrangeiros,
Onde as saudades esfumam como suspiram as ânsias,
Incessantes ondas sob as estrelas dessa constelação,
Ou chafurdar a crista das coisas,
Ao acontecer de sorrir,
Desde ti retecendo a trama de antigos laços,
Qual seja, perfaz o redemoinho apraz,
De detalhes lançados ao sortilégio místico,
Com uma besteira assim, de dizer,
Abrindo a vela da alma,
Para um caminho ou direção sem rota,
De um sentido a emergir das profundezas desconhecidas,
Alcançar as índias nas fronteiras do mundo,
Talvez seja, deveras, ao asserenar-se o tempo,
E da espuma, espraiar na areia,
A simples beleza no estouro de tons de cores impossíveis,
O beijo de teu Sol a resplandecer,
Nas escamas do hipocampo,
Ei-lo ao estarmos nus, deveras,
Vestindo primaveras e outonos,
Dias e noites,
E então, mergulhar,
Talvez trespassar-nos-ia o Narval,
Rasgando esse corte,
Para intimidade que nos despe,
E cantar com qual música o encantamento,
E tu, filha desses mares revoltos,
Tão breves e finitos sejam,
O sal de tua seiva, o sargaço de teus pelos,
Tua pele de água-marinha,
Também o é, o mar em meu olhar,
Amainando o marulho desses versos,
Conquanto, ainda sonhemos,
Elevamo-nos a contemplar o infinito distante.

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O pequeno e o grande mundo (Santa Simplicidade?)

Mundo, pequeno mundo, que agora cintilas em verdes esperanças, Que é a santa simplicidade? É a pele? O sentir-se vestido e habitado como que confortável sobre ela? É algo consigo mesmo? De sentir-se bem? É tão indivisível como se fosse menor dos átomos? Ou seria integrador como contemplação estética, de intuir o único de um todo? É cafuné de vó? Sorrir entre amigos? É sentir … Continuar lendo O pequeno e o grande mundo (Santa Simplicidade?)