PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO (Revisão)

Mais um texto desse projeto de revisar/editar tudo o que foi postado aqui no blog, dessa vez só fiz alguns cortes e reescrevi algumas coisas. Não é uma grande obra, mas tem algumas coisas interessantes, além disso me recorda bastante da época em que comecei a escrever algo com o pensamento voltado para o blog, talvez reaproveite melhor mais tarde.

Texto original: Pelo campo aberto, indefeso da chuva

 

PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO

Faz algum tempo,
Tenho me pego indefeso nesse sentimento,
De tê-la aqui por perto,
Não apartado da coragem,
De ir, por exemplo, ao seu encontro,
Mas há esse trôpego afastamento,
Essa hesitação em conciliar,
Pairado fronte ao acorde indecifrável de sua esfinge,
Esse olhar que isola e não defende os seus,
 
E é assim, indefeso, solitário, confuso,
Mas tão livre quanto possível,
Que me deixo estar para certos sentimentos,
Que de outro modo pareceriam sem cabimento,
Quando, cabimento,
É uma exigência mui forte,
Ao rearranjo das coisas desapegadas do todo,
Todo totalitarismo de tempos confusos,
Com isso, se aprende a cultivar ingenuidades escondidas,
Em porões úmidos,
Como, com tudo e apesar de tudo,
Estar apaixonado,
Quem sabe futurando uma revolução:
O amor,
 
E quase sempre,
Com essa voz poética,
De silêncios e madrugadas,
Minhas olheiras, minha barba torta,
E a ternura perene deste tom,
Acinzentado, sofrido, solitário,
E, com tudo, ainda muito criança,
Já a vejo dizer, que me amou por isso,
Numa estranho dialeto, diferente do meu,
Mas presente na mesma linguagem,
Sei que vou sorrir,
Ainda mais do que estou sorrindo agora,
E ela terá paciência de me ensinar aquele riso perdido,
Ensolarado?
 
Desviei o olho para um canto,
Imaginando seus medos, suas fúrias,
Suas tristezas, o que é difícil de dobrar,
Esquivando do tanto que é bela,
E há em mim este esteta egoísta que se prende as aparências,
Mas me solto disso,
Para ver a beleza além da beleza,
Na delicadeza dos detalhes,
Navegar nisso, quantas vidas seria preciso para ir além?
E na dureza com que as suas próprias mãos tolhem as palavras,
Percorrendo até a honestidade do sentido,
Até o sem pudor do desejo,
Outro algo em mim ama essa coragem,
E há coragem por aí, mesmo que chegue furiosa,
Pois sinto por ela a mais profunda amizade,
Eu que desde cedo tive de arrumar um jeito,
De conviver com minhas próprias estribeiras,
Contra toda vontade de liberdade,
 
Ver o sempre-verde daquelas loucuras que você mais ama em si mesma,
E eu que quero tanto dar razão aos loucos,
Imagino remédios assim, e de nenhum outro tipo,
Além do que não somos mais donos,
De que obedientes de nossas paixões,
Caindo por todo canto como se chovesse,
Um tanto do atrevimento, e o viso dessa flor vermelha,
E tento delinear os contornos destas boas vindas,
Para tudo que for seu,
Na obrigação de uma luta porvir,
Mas, talvez seja melhor calar agora,
E não deixar que essa ânsia corra sua pressa,
Pela vida toda que se estende adiante,
 
Ademais, indefeso nisso,
Mais profeta e sonhador que tudo,
Muito embora, agora, já esteja mais próximo ao todo,
Vou devagar,
Cobro a mim essa lentidão no espírito,
Amanhã, quando amanhecer,
O campo vai estar encharcado,
E muito do que foi arrastado pela correnteza,
Estará a mostra,
Marcas do tanto que foi,
E mais vida vai brotar disso,
E temos de ir além,
Impiedosamente rumo a outros dias,
Outras manhãs ainda mais belas,
E noites ainda mais terríveis,
Do que essas.

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“Das coisas que não se realizam por excesso, para as coisas que não são por não terem cabimento” Neste bar, em que nos sentamos eu-tu, Os braços do encontro se estendem, Quando nossos dedos se esbarram, Ao costume da intimidade, o luar, Para servimo-nos de música, E arrojado é o frio da garrafa, Enquanto quente a dose destilada, Transversalizando mais que dois copos para dois, … Continuar lendo Naquele bar

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O Sátiro

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