Sobre pássaros e silêncios

(Imagem: retirada do clipe de encerramento do anime Zankyou no Terror)

Cuidadosamente oblíquo,
O olhar se abre
Sobre a aguda-seriedade,
Estuando certo ter ouvido algo,
Dessas questões de maior importância,
 
Vai de perto a deriva do atento-ver em busca,
Alheio ao vento,
Enveredar nesse âmago,
Displicentemente,
Parece expor ao perigo,
Algo maior do que um destino reservado,
A fumaça e as flores dos desencontros,
 
Se nós que um dia aceitamos esse destino como dádiva,
E ainda ditosamente o seguimos com ledo desvario,
De vivenciar tudo de todos os jeitos possíveis,
Não nos encontramos se não ainda úmidos,
Como que recém-erguidos,
Do lodo fundo de cada miserável desfecho,
 
Conquanto dirão, o quão inútil e vão desperdício seja,
Muito antes diremos primeiro a nós próprios,
Como crianças-reencarnadas saídas mais uma vez do útero angustiado,
De olhos límpidos e infinitamente mais sensíveis aos cantos e silêncios,
Ninguém adivinharia quantas mães e pais, e mortes e vidas atrás,
 
Exatamente por isso, mais vastas solidões,
Que sabem os outros, do que vem a ser um limite,
Ante a nós que epifanicamente paramos antes as portas e as pontes,
Sentindo-as sempre mais uma vez e sentindo-as excessivamente,
Como grãos caídos à ampulheta de nosso ser finito movendo-se frementemente,
Junto aos felpos eletroestáticos do possível,
Pairamos em frente totalidade desse ocaso como ante a fronte de um deus,
Exigindo com preces em todas as línguas forjadas no cerne dessa tarefa,
Que algo, enfim, se manifeste,
 
Como poderia fazer diferente,
Se um dia me entregares uma tua metade,
Do que gentilmente a devolver,
Se não pertence a ti, também não a mim,
Ainda que contente nossos pedaços,
É livre no mundo,
 
Tal entrega ofender-nos-ia a ambos,
Tão lisonjeira a cura amainasse a dor,
Porque ainda que prostrados ante aos desesperos do exílio,
Em que nos apartamos de nós mesmos,
É inegável a essência de pássaro, soberanos de nossos próprios céus,
E seria preciso uma festa dos deuses,
E um cortejo de asas,
Para deixar vir a comunhão de nossos astros,
Sob um mesmo infinito celestial,
 
É quando inteiros que podemos dignamente,
Olhar um para o outro e simplesmente amar,
Pois o amor é o que dois inteiros juntam no caminho,
Para construir uma poética morada.

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Bilhete reencontrado no bolso

  Revendo as notas, E o grave ruído atravessando a sala, Escritos do subsolo, dantes perdidos no  avassalado tremor, Redescobertos na rachadura de um riso, Esboço perfeito do caloroso afeto daquele Sol maior, Mas há coisas que um homem paga por inteiro, Por isso há de haver para toda gestação de preciosidades íntimo da terra, Amigos, antes que homens e mulheres, E claro, perpetrávamos ali … Continuar lendo Bilhete reencontrado no bolso

Amanhecer por entre as arvores

I.   Posso imaginar uma música assim, Como no curso alegre de um amanhecer por entre as árvores, Suavemente mórbida em algum lugar distante, dentro dela, Como o ritmo lento de um coração em que há depositado muito arcaico que corre em seu sangue, Algo deliciosamente calmo e decomposto, A respiração subterrânea de um rio que sopra do sul, Despudorado nos cabelos embaraçados, Ainda por … Continuar lendo Amanhecer por entre as arvores

Tu, que hoje com os olhos me veste de um brilho cadente, Confundiu-me ao pássaro acinzentado que no auge da ponta, desfalece, Crivando-me a opacidade do temor, que queima em febre o fio da alma, Más lá, ao contrário, há o fulgor em revoada das asas em chamas, Ondulante no horizonte, em dança baixa pelas relvas silvestres, Se pairavam depressa eram dantes refugos de fumaça, … Continuar lendo