Vida, vento, vela…

(Imagem: Pintura de Martin Johnson Heade)

Leva-me,
Para antes de as sombras,
Cobrirem os quintais,
Despertando uma velha assombração,
Leva-me,
Para quando viver era o mesmo sonhar,
E ainda temeroso e valente,
Verde, como o que ondeia nos campos,
Também eu era alegre como um rio,
Como tocava no radinho sobre o tapete persa,
Leva-me,
Enquanto acordes se mesclavam ao som do chuveiro,
E pela primeira vez ouvi aquela música,
Refletindo a imagem atroz na água doce e cristalina do sentimento,
Despindo-a em todo misterioso curso de um destino,
Para o céu e o inferno que fosse,
E a tive nua em meus braços. Continuar lendo “Vida, vento, vela…”

Alma em partículas de poeira (Versão 2)

Enfim comecei a realizar o meu maior projeto para este ano, selecionar, revisar e editar todas as publicações já realizadas no blog. Confesso, foi uma alegria especial sentir o peso nas mãos meus poemas impressos. Acho que a gente nesse meio virtual perde um pouco da noção daquilo que faz, até ter diante de tantos sentimentos e pensamentos diversos postos diante de si…
Começando daqui pretendo publicar as novas versões daqueles textos e poemas que sofrerem uma grande mudança. O primeiro trabalho, talvez seja um dos mais difíceis que devo enfrentar, devido a transição de tonalidades na mistura de sentimentos: Honestamente apesar de ter sido uma experiência enriquecedora tive de me dar tempo algum tempo e juntar forças para revisitar esse leito de prazer e sofrimento.

 

PRIMAVERA NO QUARTO ABAFADO

I

No alto da tarde do despertar de um dia,
Respingavam no quarto os restos infames dos últimos raios de luz solar,
Com a vida, toda despreocupada, exibindo-se na infância tardia destes eventos,
Já tão longínquos ao alcance do olho,
Todas, todas as cores queimavam em brasa, lentas e brandas,
E tínhamos prazer em jogar os jogos nas cinzas ao vento,
Seguindo o retorno ébrio do deus em partículas de poeira,
Na cama morna daquele derradeiro facho de luz.

II

Olhos,
Impávidas janelas fechadas,
À plena luz de um dia,
Assistindo as sombras dançarem,
Através da translucidez,
De vermelhas cortinas,

Lábios,
Promessas cerradas,
Mordendo todas as formas,
Com dentes trincando de orgasmo,
Jorrando aos céus de um bolero lilás,
Semeando estrelas, nos úmidos mistérios,
Duma língua obscura,

Os deuses movem-se todos,
Espargindo nas paredes as luzes desarvoradas,
Um mar de esporos luminescentes,
Fingindo todas as mentiras imóveis,
Coladas a retina,

Frágil e irresistível dogma dessas crenças,
A luz esconde um limbo,
De alma nossas almas despedaçadas,
Arrancadas pelas frestas e lançadas ao ar,
Pairando como partículas de poeira,

Dia após dia,
Mastigando as pétalas de cada sentimento,
Com a mudeza de um assombro,
Destilando um caldo escuro,
Vísceras expostas,
Tão nus e apodrecidos,
No leito de azaleias, calêndulas e bétulas,
Despetaladas e secas entre o zunido de moscas,

Oferecendo nossos restos a fermentação de um deus,
Em troca de alguma benção,
E os laços remanescentes,
Na fumaça do oloroso incenso:
Dores, perfídia, cinismo, e, sobretudo –,
Cheiro de primavera no quarto abafado.

Original: Alma em partículas de poeira

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Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

Continuar lendo “Equinócios”

Pérola

(Imagem: Pintura de Eric Roux)

Era
Ainda tão cedo,
E suave,
O sentimento
Soprava como um vento veloz,
E com asas nos pés, acho, corríamos
Ou voávamos?
Tentando alcançar
As sementes de dente de leão,
 
No rastro de luz de tua lembrança,
Ficou a indelével impressão,
De existir, algo de sério e delicado,
Para se colher no vento, com cuidado,
 
Mas correndo e tropeçando,
Na penugem dos encalços,
Desconhecendo o maduro ofício,
De dar nó em cadarços,
 
Foi embora tristemente,
Quando tua mãe te abandonou,
Mas antes me fez prometer,
Por meu próprio bem, esquecê-la,
E como que vindo de tua voz rouca e serena,
O vento soprou impetuoso como nunca antes,
 
E hoje já não sei
Em qual claridade
Tão alva e doce,
Ofuscou-se a ternura,
De teu colo morno,
 
Cumpri, e quase tudo se desfez,
E tudo o que endureci, fechou-se sobre isso,
Mas na concha das mãos
Segurei firme algo além dessa promessa,
Não deixei ir, não pude,
E como a semente de dente de leão,
Caiu no esquecimento,
Mas brotou-se, florescendo,
Pétalas de pura madrepérola,
No raio de luz dos dias. Continuar lendo “Pérola”

Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

(Imagem: Pintura de Louis Jambor)

Ah, viajante noturno de minha ventura,
Tão longo e tortuoso é a jornada desta década,
Trazei consigo ainda talvez o derradeiro sopro de vida,
A última flama de fogo divino roubada dos antigos deuses de outrora,
Sob o uivo perene das quimeras ecoando distâncias intransponíveis,
E todos os áridos caminhos desde as fontes secas,
Rasgando aos poucos feridas no rosto e no peito,
Rachaduras na velha carne de barro seco,
Pleiteai para sempre um leito,
Uma hospedaria na deriva dos dias vãos,
Pleiteai para sempre um gole,
De mel e veneno nos braços do mesmo,
Neste mundo de semideuses,
E todos os amanhãs dormem um sono irreparável,
Mas ainda orai no segredo da língua mortal,
Por todos os dias santos,
Das fontes jorrando,
Do peito sangrando e o coração desmesurado,
Mas comedidamente, não saciai toda a sede,
Para não cair para trás,
E afogar-se nas águas escuras do passado,
Salvai-me do brilho cego de todas as laminas,
Que cantam suicídios,
Através das frestas do que foi quebrado. Continuar lendo “Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado”