Sobre pássaros e silêncios

(Imagem: retirada do clipe de encerramento do anime Zankyou no Terror)

Cuidadosamente oblíquo,
O olhar se abre
Sobre a aguda-seriedade,
Estuando certo ter ouvido algo,
Dessas questões de maior importância,
 
Vai de perto a deriva do atento-ver em busca,
Alheio ao vento,
Enveredar nesse âmago,
Displicentemente,
Parece expor ao perigo,
Algo maior do que um destino reservado,
A fumaça e as flores dos desencontros,
 
Se nós que um dia aceitamos esse destino como dádiva,
E ainda ditosamente o seguimos com ledo desvario,
De vivenciar tudo de todos os jeitos possíveis,
Não nos encontramos se não ainda úmidos,
Como que recém-erguidos,
Do lodo fundo de cada miserável desfecho,
 
Conquanto dirão, o quão inútil e vão desperdício seja,
Muito antes diremos primeiro a nós próprios,
Como crianças-reencarnadas saídas mais uma vez do útero angustiado,
De olhos límpidos e infinitamente mais sensíveis aos cantos e silêncios,
Ninguém adivinharia quantas mães e pais, e mortes e vidas atrás,
 
Exatamente por isso, mais vastas solidões,
Que sabem os outros, do que vem a ser um limite,
Ante a nós que epifanicamente paramos antes as portas e as pontes,
Sentindo-as sempre mais uma vez e sentindo-as excessivamente,
Como grãos caídos à ampulheta de nosso ser finito movendo-se frementemente,
Junto aos felpos eletroestáticos do possível,
Pairamos em frente totalidade desse ocaso como ante a fronte de um deus,
Exigindo com preces em todas as línguas forjadas no cerne dessa tarefa,
Que algo, enfim, se manifeste,
 
Como poderia fazer diferente,
Se um dia me entregares uma tua metade,
Do que gentilmente a devolver,
Se não pertence a ti, também não a mim,
Ainda que contente nossos pedaços,
É livre no mundo,
 
Tal entrega ofender-nos-ia a ambos,
Tão lisonjeira a cura amainasse a dor,
Porque ainda que prostrados ante aos desesperos do exílio,
Em que nos apartamos de nós mesmos,
É inegável a essência de pássaro, soberanos de nossos próprios céus,
E seria preciso uma festa dos deuses,
E um cortejo de asas,
Para deixar vir a comunhão de nossos astros,
Sob um mesmo infinito celestial,
 
É quando inteiros que podemos dignamente,
Olhar um para o outro e simplesmente amar,
Pois o amor é o que dois inteiros juntam no caminho,
Para construir uma poética morada.

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Joseph Lorusso

Em um quadro de cores febris

(Imagem: Pintura de Joseph Lorusso)

De perto a vida te quer,
Já no alto a tarde te pinta em um quadro de cores febris,
O calor te festeja,
Suspirando doce como vinho suave,
E bêbada de suspiros atrasa-te por uma alameda,
Teus intangíveis tocam as coisas do mundo,
O caminho que te alcança se fecha e se abre numa espiral,
Paternal, o vento te acaricia os cabelos,
A brisa amiga te instiga a rodar a saia do vestido,
E inspiram a beijar tua prole,
Tuas pequeninas paixões e sonhos,
Presas como frutas no pé na ventania de tua história,
Corações amarelas vermelhas queimadas,
De verões viajantes,
Apertando-te o peito.

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O guarda chuva

Da série: Meu velho amigo, dia desses começou a chover…

Quando de repente, a chuva recomeçou,
Já aquietado no recanto sereno do azul,
Tecendo a trama despropositada das nuvens passageiras,
Encontrei-me perdido em meio às pequenas e inefáveis coisas,
Tarde para esquecer, cedo para lembrar,
Tão descabidamente largo,
A reencontrar tudo inesperadamente mais estreito,
Nada poderia dizer,
Com olhos que, saídos da escuridão,
Ofendem-se com a menor claridade,
Descrente e cuidadoso,
Sofrendo as intempéries dos prados de tão curta visão,
Desde então, estive a questionar:
Quais desses espelhos esconde o sumidouro de ir adiante?
 
E ainda que persistisse, caminhando por aí distraído,
Tropeçando na hesitação, vacilante de uma medida,
Toda a vez que abro o guarda-chuva,
Saindo do abrigo provisório e angustiado,
Me interrogo: o que esqueci para sobreviver?
A cada vez ao abrir esse luto, resguardando-me às incertezas do céu desabando,
Me pergunto, tristemente, o que deixei ou nunca reparei,
 
Sigo fugindo, por onde esses deuses ocultos me impelem,
Delirando em febre, e quão longo foi o tempo,
O corpo ardendo é lançado através do regresso,
Tateia algum sentido tremulo de toda desmesura,
De uma grandeza ínfima e descabida, recolhe-se,
E todas as distâncias parecem ter textura de um arrepio,
Mas há algo, sim, farejo o céu solvido na chuva que sinto mais do que vejo,
O tempo escorre nas margens que não ouso transpor,
Contudo, insinua-se incessantemente, ao ressoar a música pluvial,
 
E tal como sob o guarda-chuva,
Fechado para a intempestividade,
Agarrei-me a haste,
Como quem segura firmemente a flor da despedida,
Apegado a terra conhecida,
Recolhido sob o tecido impermeável e breve,
De um estreito véu estendido contra o infinito,
Desesperadamente tentando reconhecer aos traços fugidios,
Todavia, tudo se refaz com a estação chuvosa,
Como um rio morto que renasce do subterrâneo,
 
E em dias assim, ouvindo o alegre murmúrio da chuva,
E o silêncio apático da estiagem,
Parece que esse incômodo ruído ao fundo denuncia:
Caímos sempre na indigência do mundo,
Lançando-nos no em suspenso de um caminho,
De saltos e pontes, assegurados por onde andar,
Evitando os espelhos das poças e gotas estancadas de chuva,
E enquanto navego exausto através das ondas transbordantes,
Suponho o coração dorme em algum lugar, no segredo na vastidão,
Seu sono controverso e profundo vibrando com alegria e tristeza,
Talvez sob a esteira de uma relva úmida,
Mas ainda resguardando calorosamente o brilho das estrelas. Continuar lendo “O guarda chuva”

Esse estrangeirismo pagão

 

Já tão estrangeiro dessas terras cristãs,
Já tão pagão, desses ritos de salvação e condenação,
Que sei de toda a arte de forjar contentas,
Em frágeis esculturas de santos e demônios,
À métrica dos dramas da vontade de suas almas imortais,
E fórmulas do querer,
As orquídeas de suas estufas,
As aves de seus viveiros,
Infernos e paraísos de além-mundo,
E depois, o tanto quanto louvam,
Ao transgredir as pequenas normas e tradições do viver,
A liberação para desejar, o seu livre-arbítrio,
Que sei eu do deus e do diabo dessas conversas,
O quão bárbaro e jovial soa toda pequenina fome de poderes,
Já tão apostrofo para consumir a carne desse deus,
Sob concretude de seus templos, as vergas de aço de um indivisível sujeito,
Se a bussola de toda ânsia aponta para o devir,
Todo sonho é uma nascente, e estuário, jorra do ventre firme da terra,
Através do diverso, navegar ao ritmo de todas as ondas e mares,
E nada de extraordinário há nisso,
Além da própria grandeza ínfima de cada coisa,
Dançar atroz ou calmo a lira da ordinária alma mortal,
E recaio sobre mim todas as dores e prazeres que me ousam,
Me transformam, quase dilacerando as fibras da permanência,
Como a dança típica da terra natal,
E como flama incandescente do sentido,
Se heroicos, os feitos ficam postos nesta mesa,
Na poética linguagem do mais íntimo,
E comem e bebem desta narrativa os amigos, a seu bel-prazer,
Como uma hospedaria em lugares distantes,
Como uma estrela-guia nos oceanos de além,
Entregamos-nos nus aos braços do acaso,
Grandiosas todas as dádivas com que os deuses nos devoram.

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Sobre a escrita #2: Entre os dias e as noites de qualquer coisa, menos uma ficção.

(Obs: Estou construindo uma trabalho de revisão e edição de progressão gradativa a cada novo texto dessa série, quer dizer, no primeiro tópico fiz apenas uma revisão gramatical leve, e neste outro já introduzi alguns elementos de edição, a ideia é que ao final seja possível notar a diferença e a relevância de um trabalho de edição, e particularmente no modo como trabalho)

Foi apenas aos 20 anos de idade que a nevoa daquele limbo começou a se dissipar, e poucos foram os dias ensolarados antes disso, e poucos foram os amigos que estiveram lá, em meio a escuridão das noites intermináveis: aos 20, dei meu primeiro beijo, dormi com uma garota pela primeira vez, comecei a encontrar algumas respostas para o sentido da vida, comecei a gostar de algo em mim.

A mais de 10 anos ouvi o chamado e me entreguei a filosófica via de tentar compreender minha existência no mundo, e foi assim entremeando dentro e fora, que nunca impus grandes impasses entre teorias e práticas, desde os pré-socráticos que buscavam a essência das coisas que como Heráclito pareciam filosofar diante dos templos onde os deuses ainda viviam, até Nietzsche e a derrocada do homem sobre os ideais acerca de um deus univoco, desde o início tentei viver a filosofia que estudava como se fosse a coisa mais importante que fizesse na vida até então e por minha própria conta, independência e liberdade de pensamento encontraram um terreno fértil onde, alguns anos mais tarde, viria a florescer a escrita, e certamente assim foi, dado o limbo de onde vim em que algo perto de uma vida timidamente acontecia até então. Seria tão estranho se eu dissesse que o fato a depressão que me afundava num constante paranoia, tenha me seduzido a Filosofia e ajudado  de alguma forma a compreender os sistemas filosóficos, ao mesmo passo que a Filosofia me ensinou a não cair em suas “armadilhas”, também como me apaixonar pelas diferenças e através disso encontrar um meio de escapar dos labirintos da paranoia? Pode ser apenas o enredo bonito de uma história que gosto de contar para mim mesmo, mas de certo não está longe da verdade daquela época.

Mas talvez a mais importante contribuição em relação a escrita foi nessa época ter começado a acreditar e desenvolver a voz ativa de minhas ideias, e guiado por uma incansável curiosidade não ter vergonha de por em questão a verdade das coisas a minha volta e no interior. Deste modo, as andanças pelos rumos da existência que a vida me levou, foram e continuam a ser arrastados, embora de modo diverso, a compreensão de que tinha sim que experimentar as coisas e acontecimentos, mas igualmente debruçar-me sobre como havia acontecido. Essas eram as aventuras que esperava contar aos amigos.

Tentando não utilizar de termos técnicos para tentar traduzir, resumindo, as noites difíceis e toda a melancolia que desde que me conheço por gente esteve presente aqui, mas basta dizer, por ocasião, que foi ao seguir a correnteza desses ímpetos ao invés de impor ou aceitar algum limite que comecei amadurecer e assim cultivar, por assim dizer, algo para além de mim. Muito embora seja difícil traçar uma linha causal entre lá e aqui, essencialmente quando tento quase sempre pensar além da dialética e da mera causalidade. Não deduzir, por princípio, mas deixar ecoar em livre transito toda a multiplicidade de sentires nos lugares e tempos que todas as relações ofertam, através do que nos descobrimos e encobrimos no mundo. E diga-se de passagem, embora todo esse processo seja diferente de escritor para escritor, contar uma história, prescinde de uma boa diferenciação entre proximidades e distâncias, no sentido de verdade e mentira, contar uma mentira  é imensamente mais difícil que contar uma verdade, embora por isso mesmo requeira mais inventividade para sustentar essa mentira, mas como contar bem uma mentira , isto é como se fosse verdade, sem conhecer bem como é a verdade? Quase sempre quando me perguntam que tipo de história seria boa para começar a escrever, supondo que não exista nenhuma experiência anterior, respondo o seguinte: qualquer coisa menos uma ficção.

Perceber as distâncias e proximidades, assim o primeiro grande divisor de águas que tive de aprender a compreender para me aproximar mais de mim mesmo, sendo decisivo na formação da minha estética, foi a diferença na dualidade entre o estado de vigília e a sonolência. Hoje eu sei, embora tampouco importe, que sofro de uma grave de apneia do sono, mas essa designação nada quer dizer diante do cansaço, do ânimo arrastado, de tudo o que queria fazer, mas só tive a cada dia apenas umas 4 horas em pleno estado de vigília. Raros foram os dias diferentes disso. Não importa realmente se aqui havia uma nomenclatura para o sofrimento ou o motivo, a gente simplesmente lida com isso de algum modo antes sequer de haver uma ciência, e quando aquele estalo delirante para a criatividade na escrita chegou onde a via Filosófica havia apenas preparado o terreno, passei a escrever de um modo quando estava sonolento e de outro quando plenamente desperto.  Ao poucos seguindo a inspiração de a cada  vez em que me situava para ver, sentir, pensar, e escutando mais distintamente os ímpetos diferentes. Com o tempo a gente se habitua e deixa de ser estranhamento ou o próprio estranho abriga-se hospitaleiramente em nosso habitar, mas assim como deixou de ser uma questão aberta continuei a ir além.

Com toda a influência de escritores e filósofos que de fato trouxeram para a estética de seus estilos o dia e a noite, a criação e aprofundamento das imagens do dia e da noite surgiu de forma íntima na composição na estética do meu próprio estilo. Em verdade, hoje estão mais imagens-fontes ou imagens- fundamentos a partir dos quais começo a descrever uma relação com o mundo: assim como morte e vida, ou sonhar e lembrar. Deste modo essas imagens surgem em diversos sentidos, e não possuem a mesma fixidez que luz e sombra, assim como luz e sombra não possuem a mesma fixidez de carne e ossos.

Aos poucos a gente vai costurando nas entrelinhas das diferenças, e mesmo, porque não, descosturando, afinal, por mais colcha de retalhos que seja, existem os vazios deixados pelas coisas que se perdem e pelas coisas que ficam intocadas. Para ser bem sincero, por fim, não sei onde termina a descoberta de um estilo, e onde começa a descoberta existencial de um homem.

Continuar lendo “Sobre a escrita #2: Entre os dias e as noites de qualquer coisa, menos uma ficção.”