Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

(Imagem: Pintura de Louis Jambor)

Ah, viajante noturno de minha ventura,
Tão longo e tortuoso é a jornada desta década,
Trazei consigo ainda talvez o derradeiro sopro de vida,
A última flama de fogo divino roubada dos antigos deuses de outrora,
Sob o uivo perene das quimeras ecoando distâncias intransponíveis,
E todos os áridos caminhos desde as fontes secas,
Rasgando aos poucos feridas no rosto e no peito,
Rachaduras na velha carne de barro seco,
Pleiteai para sempre um leito,
Uma hospedaria na deriva dos dias vãos,
Pleiteai para sempre um gole,
De mel e veneno nos braços do mesmo,
Neste mundo de semideuses,
E todos os amanhãs dormem um sono irreparável,
Mas ainda orai no segredo da língua mortal,
Por todos os dias santos,
Das fontes jorrando,
Do peito sangrando e o coração desmesurado,
Mas comedidamente, não saciai toda a sede,
Para não cair para trás,
E afogar-se nas águas escuras do passado,
Salvai-me do brilho cego de todas as laminas,
Que cantam suicídios,
Através das frestas do que foi quebrado. Continuar lendo “Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado”

Densidade

(Da série, confissões, malogros e outras penitências). A primeira cumplicidade que sinto com qualquer pessoa com quem por acaso venha a travar um bom diálogo, um diálogo franco e aberto, no estilo grego, diga-se assim: um confronto. É quando, mesmo que já o tenha dito antes, aquela pessoa chegue a concluir: “meu caro, você é denso”. Uma daquelas brincadeiras, com fundo de verdade tão amargo, que … Continuar lendo Densidade