Vida, vento, vela…

(Imagem: Pintura de Martin Johnson Heade)

Leva-me,
Para antes de as sombras,
Cobrirem os quintais,
Despertando uma velha assombração,
Leva-me,
Para quando viver era o mesmo sonhar,
E ainda temeroso e valente,
Verde, como o que ondeia nos campos,
Também eu era alegre como um rio,
Como tocava no radinho sobre o tapete persa,
Leva-me,
Enquanto acordes se mesclavam ao som do chuveiro,
E pela primeira vez ouvi aquela música,
Refletindo a imagem atroz na água doce e cristalina do sentimento,
Despindo-a em todo misterioso curso de um destino,
Para o céu e o inferno que fosse,
E a tive nua em meus braços. Continuar lendo “Vida, vento, vela…”

O guarda chuva

Da série: Meu velho amigo, dia desses começou a chover…

Quando de repente, a chuva recomeçou,
Já aquietado no recanto sereno do azul,
Tecendo a trama despropositada das nuvens passageiras,
Encontrei-me perdido em meio às pequenas e inefáveis coisas,
Tarde para esquecer, cedo para lembrar,
Tão descabidamente largo,
A reencontrar tudo inesperadamente mais estreito,
Nada poderia dizer,
Com olhos que, saídos da escuridão,
Ofendem-se com a menor claridade,
Descrente e cuidadoso,
Sofrendo as intempéries dos prados de tão curta visão,
Desde então, estive a questionar:
Quais desses espelhos esconde o sumidouro de ir adiante?
 
E ainda que persistisse, caminhando por aí distraído,
Tropeçando na hesitação, vacilante de uma medida,
Toda a vez que abro o guarda-chuva,
Saindo do abrigo provisório e angustiado,
Me interrogo: o que esqueci para sobreviver?
A cada vez ao abrir esse luto, resguardando-me às incertezas do céu desabando,
Me pergunto, tristemente, o que deixei ou nunca reparei,
 
Sigo fugindo, por onde esses deuses ocultos me impelem,
Delirando em febre, e quão longo foi o tempo,
O corpo ardendo é lançado através do regresso,
Tateia algum sentido tremulo de toda desmesura,
De uma grandeza ínfima e descabida, recolhe-se,
E todas as distâncias parecem ter textura de um arrepio,
Mas há algo, sim, farejo o céu solvido na chuva que sinto mais do que vejo,
O tempo escorre nas margens que não ouso transpor,
Contudo, insinua-se incessantemente, ao ressoar a música pluvial,
 
E tal como sob o guarda-chuva,
Fechado para a intempestividade,
Agarrei-me a haste,
Como quem segura firmemente a flor da despedida,
Apegado a terra conhecida,
Recolhido sob o tecido impermeável e breve,
De um estreito véu estendido contra o infinito,
Desesperadamente tentando reconhecer aos traços fugidios,
Todavia, tudo se refaz com a estação chuvosa,
Como um rio morto que renasce do subterrâneo,
 
E em dias assim, ouvindo o alegre murmúrio da chuva,
E o silêncio apático da estiagem,
Parece que esse incômodo ruído ao fundo denuncia:
Caímos sempre na indigência do mundo,
Lançando-nos no em suspenso de um caminho,
De saltos e pontes, assegurados por onde andar,
Evitando os espelhos das poças e gotas estancadas de chuva,
E enquanto navego exausto através das ondas transbordantes,
Suponho o coração dorme em algum lugar, no segredo na vastidão,
Seu sono controverso e profundo vibrando com alegria e tristeza,
Talvez sob a esteira de uma relva úmida,
Mas ainda resguardando calorosamente o brilho das estrelas. Continuar lendo “O guarda chuva”

Alma em partículas de poeira (Versão 2)

Enfim comecei a realizar o meu maior projeto para este ano, selecionar, revisar e editar todas as publicações já realizadas no blog. Confesso, foi uma alegria especial sentir o peso nas mãos meus poemas impressos. Acho que a gente nesse meio virtual perde um pouco da noção daquilo que faz, até ter diante de tantos sentimentos e pensamentos diversos postos diante de si…
Começando daqui pretendo publicar as novas versões daqueles textos e poemas que sofrerem uma grande mudança. O primeiro trabalho, talvez seja um dos mais difíceis que devo enfrentar, devido a transição de tonalidades na mistura de sentimentos: Honestamente apesar de ter sido uma experiência enriquecedora tive de me dar tempo algum tempo e juntar forças para revisitar esse leito de prazer e sofrimento.

 

PRIMAVERA NO QUARTO ABAFADO

I

No alto da tarde do despertar de um dia,
Respingavam no quarto os restos infames dos últimos raios de luz solar,
Com a vida, toda despreocupada, exibindo-se na infância tardia destes eventos,
Já tão longínquos ao alcance do olho,
Todas, todas as cores queimavam em brasa, lentas e brandas,
E tínhamos prazer em jogar os jogos nas cinzas ao vento,
Seguindo o retorno ébrio do deus em partículas de poeira,
Na cama morna daquele derradeiro facho de luz.

II

Olhos,
Impávidas janelas fechadas,
À plena luz de um dia,
Assistindo as sombras dançarem,
Através da translucidez,
De vermelhas cortinas,

Lábios,
Promessas cerradas,
Mordendo todas as formas,
Com dentes trincando de orgasmo,
Jorrando aos céus de um bolero lilás,
Semeando estrelas, nos úmidos mistérios,
Duma língua obscura,

Os deuses movem-se todos,
Espargindo nas paredes as luzes desarvoradas,
Um mar de esporos luminescentes,
Fingindo todas as mentiras imóveis,
Coladas a retina,

Frágil e irresistível dogma dessas crenças,
A luz esconde um limbo,
De alma nossas almas despedaçadas,
Arrancadas pelas frestas e lançadas ao ar,
Pairando como partículas de poeira,

Dia após dia,
Mastigando as pétalas de cada sentimento,
Com a mudeza de um assombro,
Destilando um caldo escuro,
Vísceras expostas,
Tão nus e apodrecidos,
No leito de azaleias, calêndulas e bétulas,
Despetaladas e secas entre o zunido de moscas,

Oferecendo nossos restos a fermentação de um deus,
Em troca de alguma benção,
E os laços remanescentes,
Na fumaça do oloroso incenso:
Dores, perfídia, cinismo, e, sobretudo –,
Cheiro de primavera no quarto abafado.

Original: Alma em partículas de poeira

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Marina

(Pintura de Francis Danby)

Talvez um dia a encontre,
Entre as Plêiades ou Nereidas,
Nos esquecidos contos arcaicos,
Tão proximamente estrangeiros,
Onde as saudades esfumam como suspiram as ânsias,
Incessantes ondas sob as estrelas dessa constelação,
Ou chafurdar a crista das coisas,
Ao acontecer de sorrir,
Desde ti retecendo a trama de antigos laços,
Qual seja, perfaz o redemoinho apraz,
De detalhes lançados ao sortilégio místico,
Com uma besteira assim, de dizer,
Abrindo a vela da alma,
Para um caminho ou direção sem rota,
De um sentido a emergir das profundezas desconhecidas,
Alcançar as índias nas fronteiras do mundo,
Talvez seja, deveras, ao asserenar-se o tempo,
E da espuma, espraiar na areia,
A simples beleza no estouro de tons de cores impossíveis,
O beijo de teu Sol a resplandecer,
Nas escamas do hipocampo,
Ei-lo ao estarmos nus, deveras,
Vestindo primaveras e outonos,
Dias e noites,
E então, mergulhar,
Talvez trespassar-nos-ia o Narval,
Rasgando esse corte,
Para intimidade que nos despe,
E cantar com qual música o encantamento,
E tu, filha desses mares revoltos,
Tão breves e finitos sejam,
O sal de tua seiva, o sargaço de teus pelos,
Tua pele de água-marinha,
Também o é, o mar em meu olhar,
Amainando o marulho desses versos,
Conquanto, ainda sonhemos,
Elevamo-nos a contemplar o infinito distante.

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Como a caminho de Ítaca

(Pintura de Peter Ilsted)

Minha amiga,
Que olhos, cheios de ilusão,
Suportariam ver, ao adentrar e encontrar-se, reles ossos,
Ao devastado silêncio dessas ruínas,
Que vento terrível, sopra o ar,
De todas as mortes insepultas,
E também as flores,
Que sozinhas, brotam em áridas e pedregosas paisagens,
Também tampouco recordamos,
Como um dia, adentramos ao mundo como da pequeninos deuses,
Na infância,
A partir do que, não atravessam ilesos os ramos,
e os esporos luminescentes de esperança,
Vagando entre sombras de estrangeira distância,
Ainda que como nós, continuemos sonhando tristemente,
Se a noite é um arrebol escuro e vazio,
Onde todas as coisas apenas retiram-se o silêncio,
Do impossível “quase”,
 
Ainda que como nós, e…
Como silenciamos, ínfimos, quando a claridade,
Derrama o sereno ruído de todo o sentimento,
Espargindo na alma, o canto agudo como a natureza de lá fora,
Se o vento arvora-se, farfalhando, e assim conversa com as folhas,
E os pensamentos mais altos e sábios em nós parecem sentir mais uma vez o frescor e assanhamento da primeira descoberta,
Ou se a chuva cai, e misturando o cheiro do céu e da terra,
As alegrias e tristezas interpenetram nossos pensamentos, como o turbulento rio, que ressurgisse dos subterrâneos, encharcando além das margens,
E, ao entardecer, com qual deslumbrante policromia vibram nos céus,
Levasse-nos ao êxtase do embate as luzes e as sombras da vida diante do que ficam em suspenso nas incertezas o que um dia se soube tão bem,
Naturalmente, parecem, os deuses de antes ainda se movem,
Ainda tão incrédulos, timidamente desprende-se a fé,
Como se em nós a criança de lá fora, ainda distraidamente crédulas,
Nessas horas amenas, e em que a serenidade convida-nos ao silêncio de uma oração,
Dirigimos-nos ao santuário de tudo o quanto pode haver de sagrado,
Qual lira toca o impossível regresso,
Ao coração selvagem de tudo,
E ser demora uma estação,
E então, e tudo de lá fora até mesmo em nós, sem cerimonia adentram a morada,
 
Deveras esse sonho em que tua presença aproxima-se,
E volto a acreditar na violenta força das tempestades,
Acredite no poder na possibilidade de mudança,
Onde se vê nesse devir do ser do humano um dever para com o ser em si,
E isso já me basta para sentir invadir-me a tua proximidade,
Tal como é o amor por tua amizade,
Talvez apenas pelo momento em que, nalgum tempo,
Consumou-se em nossos espíritos,
 
Bem sei, todavia, que o delírio desse horizonte não queima toda a febre da fantasia,
Mas se o menos por um instante me perco,
Deixo-me transcorrer da esperançosa revoada,
E sinto que entre nós confundem-se o bater das asas,
Voam aos céus as promessas que me rogo ao coração meu,
E deve ser o mesmo no coração teu, até quando se distinguem,
De ser um eu a sós, e por vezes o que sustenta,
Também me falha como o peso a voz,
Em uma tristeza da qual ainda vi amanhecer o brilho de um olhar cativado,
Anoitece,
 
Às vezes, ao contrário, não sentes que as palavras te enganam?
E por mais sentido tenham no enredo de uma prosa,
Ou na lógica de um ideal,
Destaca-se ao fundo, o vazio de algo que se esquece ao se sair apressado,
Parece que o sentido que verdadeiramente nos alcança se perdeu,
Na plumagem dos dias, e voando alto,
Plainamos, intangíveis, sem pouso,
Que o céu infinito em que o delírio poético se lança,
Almeja mais uma vez, a queda,
Mais uma vez, esfregar os pés na terra,
E sentir na pele o sentido áspero e fértil,
Da vida tão perto da morte,
E assim, traímos-nos, inventando o possível chão,
 
Assim bem sei, ainda que o sonho,
De acolher a flor perfumada de ânsia,
De teu coração,
E isso me escapa entre os dedos de toda a vida,
Que em nenhum sulco inscreve-se teu nome,
Da palma de meu destino,
Mas como se por um fugidio instante ousasse,
Soprando a brasa com todas as forças escassas do peito,
Tocasse os fios de teu cabelo negro,
Quando a noite ainda tece sua trama na penumbra,
Do que não se vê e também não desaparece,
E depois a boca tua diz,
Deixando no ar,
Apenas a palavra,
Deixando o largo estreito desguarnecido,
De que as estações vindouras,
Extraviam-se do caminho,
Disfarçando-se de sonhos,
Tão distante de tocar o possível,
Como o amor fantasia-se de paixões,
Nos bailes da vida,
E se perde sob a máscara,
Assim o futuro desvanece,
Como os deuses na obscuridade,
 
E o fumo do embaraço de ser eu a solidão tacitamente,
A cada trago,
Sufoca na bagunça do sentimento descabido,
Vigoro-me ante ao espelho das coisas tão crédulas de mim,
Junto ao sagrado findar,
Presos a opacidade de tua ausência,
 
Odeio caudalosamente,
À tarde triunfal da alma,
Que calorosamente abençoa-me a solidão,
Tão clara de tua ausência,
 
Deixe-me sê-lo sorrateiramente,
O impossível resguardado pelos mistérios de não saber,
Através bruma perfumada que sinto sem ver…
Sempre tão tarde, justo quando se perde,
Fere a luz de um farol…
E se esfuma todo remorso,
 
Mas imensa é a falta que você faz na minha vida,
Minha cara amiga… Continuar lendo “Como a caminho de Ítaca”