Vida, vento, vela…

(Imagem: Pintura de Martin Johnson Heade)

Leva-me,
Para antes de as sombras,
Cobrirem os quintais,
Despertando uma velha assombração,
Leva-me,
Para quando viver era o mesmo sonhar,
E ainda temeroso e valente,
Verde, como o que ondeia nos campos,
Também eu era alegre como um rio,
Como tocava no radinho sobre o tapete persa,
Leva-me,
Enquanto acordes se mesclavam ao som do chuveiro,
E pela primeira vez ouvi aquela música,
Refletindo a imagem atroz na água doce e cristalina do sentimento,
Despindo-a em todo misterioso curso de um destino,
Para o céu e o inferno que fosse,
E a tive nua em meus braços. Continuar lendo “Vida, vento, vela…”

Cantos noturnos (sobre os rios das almas)

(Imagem: Pintura de Émile Breton, intitulada Marais au clair de lune)
Penúltimo texto da série: Meu amigo, dia desses começou a chover

 
I
 
Caminhei por todas as partes, buscando nos bares e ares noturnos, algo como internar-me no hospício dos vícios abafando o movimento perpétuo, da maquinaria das culpas e responsabilidades. E pouco presenciei mais do que misérias; Ouvi pacientemente da rotina, sobre suas ocupações cotidianas. Como se vestisse eu mesmo o traje das ocupações, almejando escapar a métrica de seus labirintos. Estive na moleira dos gritos de guerra, no peito fechado de suas iras, confortando ou instigando, nos canteiros de todos os ideais, assistindo-os lavarem suas magoas interna contra as sujeiras e erosões do tempo, perdendo o fio do devir, e a beleza de amadurecer.
 
Também a encontrei tentando alcançar sua própria imagem, e hoje não sei dizer se algum dia a amei, se existiu liberdade para isso e, para além, parece que sempre foi tarde demais…
 
Talvez tudo isso apenas estivesse entre as coisas sem cabimento da vida, mas entristeceu… imensamente. De repente, larguei tudo e a tristeza funda e cortante fez rasgar todos os planos e direções, sopraram fortemente as saudades, movendo tudo, morrendo tudo, debrucei-me nos umbrais de tudo o que não pude, descortinando a espessura de tudo o que podia, e a esperança jorrou e escorreu nas paredes dessa casa dos ventos, como pássaros perdidos, se espatifam contra a janela, alheios a transparência.
 
Depois a espera caiu como a chuva fina e longa riscando timidamente a escuridão, num longo lamento como brilho alvo de laminas ofertando o languido corte de uma velha honestidade mesmo diante da ríspida obscuridade; e se, entretanto, retas e agudas, parecendo o choro da tristeza cantando a longínqua lira do coração, confesso dignamente em silêncio onde fala a dor com mais sinceridade. Nos confins de tudo o que resta, desvelando a ausência nos rastros luminescentes da presença, encontrando o refúgio de uma ternura antiga entrevada na decadência. Eis uma vida inteira… e talvez na maior dela parte viajei como um vulto entre sombras, e quando o cansaço finalmente derramou a tinta da melancolia pintou as flores negras de dor e abandono. Abri a mala senti um aperto estrangular, as coisas estavam cheias de lembranças vazias.
 
E então o temor não mais obscureceu a ausência de quem e quando eu mesmo estivesse lá, liberando a dor das obrigações de sustentar um sentido. Esse delírio desceu como um vendaval de distâncias intocadas, escancarando todas as portas, varrendo para longe todas as proximidades, arrancando de mim as lágrimas e os risos, devastando folha a folha toda secura, rachadura a rachadura toda ruína. Toda vida se esvaziou, deixando a solidão estar na ventania da noite angustiada. Mudas estrelas sonhando o frio abismo das ondas, afogando o som num ruído vazio. Sob o cansaço infinito, o naufrágio.
 
Se existe algo além de corvos nas sombras da noite, devorando todas as proximidades. Diz, meu velho amigo, como era o desenho do mundo antes da distância? Do pouco que tenho a dizer sobre o passado, havia algo, havia música como só há quando se sente a melodia quase nos partir, e depois o silêncio vasto, o esquecido, apenas fragmentos de lembranças sem sentido, desde então tudo pareceu se mover rápido demais, decaindo na escuridão de um afastamento; já outono, ouvi o suspiro da terra, a folha seca dança, senti algo morrer, quase sem ser notado. Algo inominável é triste e inalcançável. Talvez entre rascunhos, se perdeu a palavra e o tempo a dizer.
 
Amigo, também o profundo cansaço tem seu ocaso, assim nesta hora tão tarde, larguei as resistências, deixando as ultimas flamas apagarem e escuro entrar, e vaguei pela treva seguindo a luz condutora da ausência estuando pelos flancos desconhecidos do horizonte adiante, não obstante sempre tão desiguais o fogo das paixões clareando apenas o mais próximo, no interior do jogo de sedução como pétalas no exílio da flor, que importa se vontades ou anseios, erguem o esforço como um filho pródigo. Cegas de que tudo quanto chega, arranca e deixa um pedaço quando vai. Mas também o medo é uma curiosidade, ainda corajosa em sua busca hesitante, de outro modo apenas permaneceria em silêncio. E quando desesperado busquei reaver as antigas proximidades, acordei para o fato de que o sentido havia se perdido, e então a busca cessou deixando nos braços da ausência, deixando que cansaço me arrebatasse.
 
II
 
Cai, como quem vira as costas para o mar violento, e embola num turbilhão de ímpetos atrozes não mais contidos na forma de um sentido. Mas certa noite, a taça cheia de escuro líquido, oferece a luz de um estranho brilho, lá fora se arvoram as ânsias, frio o vento, a arrefecer a pele da alma, como oscilantes lençóis nos quintais. Tendo da noite, os alvoroços que por dentro a angustia emudece, algo persiste, indo e voltando incessante e lentamente seduz ao regresso. Já estive nesse lugar, posso vê-lo em sutis pressentimentos, as calmas e as fúrias, girando em torno e adentrando aos pensamentos. Encontrando e desafiando por um longo tempo, os limites do que um dia pensei ser, olhando, cheirando, medindo, se lançando ao céu infinito, como uma prece desejante de algo mais, aos desconhecidos deuses, amando exasperadamente a mudança como uma criança se sente ínfima desequilibrando ao descobrir a imensidão da noite estrelada, e subitamente apega-se a terra sob seus pés sem deixar de olhar para o alto.
 
E desses pedaços conjuga-se o novo sentido de um antigo, com o vento a ferir de folhas os lagos imóveis, como o oloroso incenso da presença, perfuma de tudo o que um dia feriu a alma. Devagar pedaços e rasgos, tocam a face do silêncio, asserenando os medos, avarandando a noite, invadindo o quarto, entrando em meu coração, com uma alegria desconhecida.
 
Vejo-me em outras noites como essa, mirando abismos, chorando em segredo, gozando a alegria solitária do pertencimento, incendiando fantasias, medrando jamais ser outra vez reconhecido, cansado, e cansando do próprio cansaço…
 
Sentindo o peito expandir e quase estourar enquanto aquietado de ternura pisava macio nesse chão, ouvindo a respiração da amada adormecida no abraço, ou mergulhando no suor por horas a fio galgando o prazer de gozar adentro o calor devasso misturando nossas seivas…
 
E da tessitura desses ventos silentes, desde a palma aberta, vasculhando incertezas.
 
Sigo as vibrações até o coração pulsante arrebentar o peito de íntimas alegrias e tristezas, por súbitos deslocamentos, navegar as nuances até o estupor, erguer se para ouvir a música. A melodia noturna.
 
Tudo esteve longe e perdido, assim também eu deixei me ser um longe e perdido. Bebi a noite, tornando noite, deixando que o vento frio fosse o meu sussurro, o luar minha dor, e a escuridão o meu grito,
E ainda fermentando na boca, a saliva de todo sentimento compartilhado no amor,
E com mais afinco nas conversas de entre lábios roçando e o hálito túmido de ardor,
Ouço escoar a melíflua seiva, desposando o antigo romance de uma harmônia,
Ocultas sob o véu de uma dor gritante demais para não afugentar aos quebrantos o que delicado nas coisas da alma,
Fundida à noite densa, compõe a trama, desvelando se à nuance de sombras e ecos,
Enquanto o feixe de violetas recém-florescidas,
Embotam no mergulho azul profundo,
A noite em seus segredos,
Esse silêncio escoa através de veredas antigas,
Como linhas trançadas longamente na descoberta do efêmero,
Mas o fogo é da mesma fibra que a carne,
E arde queimando, a ferida da intimidade –,
Clareia, ainda provisoriamente, a fonte dos anseios;
Isso é apenas um momento a cada vez:
Em que o sangue flui na luz,
E o coração fala sua linguagem própria, o amor,
Como um novo destino.

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Sobre a escrita #2: Entre os dias e as noites de qualquer coisa, menos uma ficção.

(Obs: Estou construindo uma trabalho de revisão e edição de progressão gradativa a cada novo texto dessa série, quer dizer, no primeiro tópico fiz apenas uma revisão gramatical leve, e neste outro já introduzi alguns elementos de edição, a ideia é que ao final seja possível notar a diferença e a relevância de um trabalho de edição, e particularmente no modo como trabalho)

Foi apenas aos 20 anos de idade que a nevoa daquele limbo começou a se dissipar, e poucos foram os dias ensolarados antes disso, e poucos foram os amigos que estiveram lá, em meio a escuridão das noites intermináveis: aos 20, dei meu primeiro beijo, dormi com uma garota pela primeira vez, comecei a encontrar algumas respostas para o sentido da vida, comecei a gostar de algo em mim.

A mais de 10 anos ouvi o chamado e me entreguei a filosófica via de tentar compreender minha existência no mundo, e foi assim entremeando dentro e fora, que nunca impus grandes impasses entre teorias e práticas, desde os pré-socráticos que buscavam a essência das coisas que como Heráclito pareciam filosofar diante dos templos onde os deuses ainda viviam, até Nietzsche e a derrocada do homem sobre os ideais acerca de um deus univoco, desde o início tentei viver a filosofia que estudava como se fosse a coisa mais importante que fizesse na vida até então e por minha própria conta, independência e liberdade de pensamento encontraram um terreno fértil onde, alguns anos mais tarde, viria a florescer a escrita, e certamente assim foi, dado o limbo de onde vim em que algo perto de uma vida timidamente acontecia até então. Seria tão estranho se eu dissesse que o fato a depressão que me afundava num constante paranoia, tenha me seduzido a Filosofia e ajudado  de alguma forma a compreender os sistemas filosóficos, ao mesmo passo que a Filosofia me ensinou a não cair em suas “armadilhas”, também como me apaixonar pelas diferenças e através disso encontrar um meio de escapar dos labirintos da paranoia? Pode ser apenas o enredo bonito de uma história que gosto de contar para mim mesmo, mas de certo não está longe da verdade daquela época.

Mas talvez a mais importante contribuição em relação a escrita foi nessa época ter começado a acreditar e desenvolver a voz ativa de minhas ideias, e guiado por uma incansável curiosidade não ter vergonha de por em questão a verdade das coisas a minha volta e no interior. Deste modo, as andanças pelos rumos da existência que a vida me levou, foram e continuam a ser arrastados, embora de modo diverso, a compreensão de que tinha sim que experimentar as coisas e acontecimentos, mas igualmente debruçar-me sobre como havia acontecido. Essas eram as aventuras que esperava contar aos amigos.

Tentando não utilizar de termos técnicos para tentar traduzir, resumindo, as noites difíceis e toda a melancolia que desde que me conheço por gente esteve presente aqui, mas basta dizer, por ocasião, que foi ao seguir a correnteza desses ímpetos ao invés de impor ou aceitar algum limite que comecei amadurecer e assim cultivar, por assim dizer, algo para além de mim. Muito embora seja difícil traçar uma linha causal entre lá e aqui, essencialmente quando tento quase sempre pensar além da dialética e da mera causalidade. Não deduzir, por princípio, mas deixar ecoar em livre transito toda a multiplicidade de sentires nos lugares e tempos que todas as relações ofertam, através do que nos descobrimos e encobrimos no mundo. E diga-se de passagem, embora todo esse processo seja diferente de escritor para escritor, contar uma história, prescinde de uma boa diferenciação entre proximidades e distâncias, no sentido de verdade e mentira, contar uma mentira  é imensamente mais difícil que contar uma verdade, embora por isso mesmo requeira mais inventividade para sustentar essa mentira, mas como contar bem uma mentira , isto é como se fosse verdade, sem conhecer bem como é a verdade? Quase sempre quando me perguntam que tipo de história seria boa para começar a escrever, supondo que não exista nenhuma experiência anterior, respondo o seguinte: qualquer coisa menos uma ficção.

Perceber as distâncias e proximidades, assim o primeiro grande divisor de águas que tive de aprender a compreender para me aproximar mais de mim mesmo, sendo decisivo na formação da minha estética, foi a diferença na dualidade entre o estado de vigília e a sonolência. Hoje eu sei, embora tampouco importe, que sofro de uma grave de apneia do sono, mas essa designação nada quer dizer diante do cansaço, do ânimo arrastado, de tudo o que queria fazer, mas só tive a cada dia apenas umas 4 horas em pleno estado de vigília. Raros foram os dias diferentes disso. Não importa realmente se aqui havia uma nomenclatura para o sofrimento ou o motivo, a gente simplesmente lida com isso de algum modo antes sequer de haver uma ciência, e quando aquele estalo delirante para a criatividade na escrita chegou onde a via Filosófica havia apenas preparado o terreno, passei a escrever de um modo quando estava sonolento e de outro quando plenamente desperto.  Ao poucos seguindo a inspiração de a cada  vez em que me situava para ver, sentir, pensar, e escutando mais distintamente os ímpetos diferentes. Com o tempo a gente se habitua e deixa de ser estranhamento ou o próprio estranho abriga-se hospitaleiramente em nosso habitar, mas assim como deixou de ser uma questão aberta continuei a ir além.

Com toda a influência de escritores e filósofos que de fato trouxeram para a estética de seus estilos o dia e a noite, a criação e aprofundamento das imagens do dia e da noite surgiu de forma íntima na composição na estética do meu próprio estilo. Em verdade, hoje estão mais imagens-fontes ou imagens- fundamentos a partir dos quais começo a descrever uma relação com o mundo: assim como morte e vida, ou sonhar e lembrar. Deste modo essas imagens surgem em diversos sentidos, e não possuem a mesma fixidez que luz e sombra, assim como luz e sombra não possuem a mesma fixidez de carne e ossos.

Aos poucos a gente vai costurando nas entrelinhas das diferenças, e mesmo, porque não, descosturando, afinal, por mais colcha de retalhos que seja, existem os vazios deixados pelas coisas que se perdem e pelas coisas que ficam intocadas. Para ser bem sincero, por fim, não sei onde termina a descoberta de um estilo, e onde começa a descoberta existencial de um homem.

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Sobre a escrita #1: Os primeiros papéis

Há pouco tempo, estive idealizando um projeto sobre o processo de edição e revisão que faz parte essencial da minha escrita. E, além disso, foi algo que sempre gostei de fazer quando me pedem ajuda na hora de escrever. Mas depois de me dar conta que com meu próprio trabalho é algo que faço muito mais intuitivamente e ter tido muita dificuldade sem que obtivesse um resultado que valesse a pena ser mostrado. Resolvi escrever um pouco sobre algumas reflexões acerca de como a escrita surgiu na minha vida, desengavetando e ampliando um projeto mais antigo e devo publicar em uma série de 4 ou 5 capítulos.

Enquanto criança não fui realmente “estimulado” a escrever ou ler, além do seja habitualmente obrigatório por conta dos assuntos escolares, livros paradidáticos e coisas afins, não recordo de ter tido alguma experiência significativa com a literatura durante a infância. Mesmo em toda a adolescência nunca passei muito tempo diante de um livro, o primeiro grande livro que li foi Cem anos de solidão, numa circunstância completamente casual e já depois dos quinze. Próximo aos dezoito folheei pela primeira vez por conta própria um filosofando, mas pela enorme dificuldade de concentração, o que essa influência me trouxe foi mais de  impulsionar a dar os primeiros passos em filosofar sozinho.

Nesta época comecei a rabiscar meus primeiros poemas, e cheguei a criar um blog chamado de “Rios que voam”, embora não tenha muito que dizer sobre a qualidade, no geral eram de péssima qualidade apesar de todo o esforço, alguns deles foram escritos palavra por palavra durante muitos dias.

Obviamente muito do que a Filosofia me trouxe, e que marcou tão profundamente a minha vida, mas essencialmente essa reaproximação da linguagem, em todos os sentidos mais intimamente, foi o principal reagente, e já na época de curso surgiram alguns poemas bem interessantes e sinto muito carinho por eles, inclusive Os trabalhos do menino mateiro.

Já faz quase 7 anos que esse blog existe, mas apenas há 4 comecei a investir nele de fato. Esse tempo coincide mais ou menos com a época em que escrever deixou de ser algo esporádico e prescindido por aquele ímpeto de ter que tudo de uma vez ou caso contrário não ficaria bom, geralmente por conta da dificuldade de pôr os pensamentos no papel. Aconteceu que certo dia, cercado de muito sofrimento, acordei uma necessidade imensa de dizer algo a alguém, e ninguém estava lá, de fato ninguém, então comecei a pôr um pouco no papel, e logo em seguida voltava a dormir, constantemente vindo a pegar no sono em cima do papel e da caneta, e no mesmo dia ou seguinte sonhava com algo relacionado ao que havia escrito, ou apenas sonhava com outra coisa interessante, quando acordava, escrevia tudo o que podia e, o quão desordenadamente fossem os pensamentos não iam embora, cada vez com mais intensidade, rapidamente tornou-se um vício e um delírio absurdo, não havia mais nada além de sonhar e escrever, quando não restava mais nenhum canto em branco, jogava o papel no chão sem amassar e recomeçava em outro, ao ponto de cobri-lo e assim um dia comecei a caminhar sobre meus textos e poemas. Todos os tipos de sentimentos e sensações me invadiam, e pareciam falar por si, do ódio ao carinho, do tesão ao nojo. Entrei num surto criativo, por assim dizer. Ainda tenho os papéis dessa época, e neles ficou marcada toda a sujeira deste tempo, marca de pés, manchas de álcool, de comida, cabelo, insetos, cinzas, sêmen… E foi dessa mistura, que surgiu meu primeiro texto em prosa Da aranha e das águas da lembrança e o poema Flores negras. O delirante ímpeto de misturar e misturar-me a tudo isso foi, além da força motriz de meus primeiros escritos, o que me ajudou a distorcer tudo o que estava diante de mim, tudo o que não podia mais suportar, como só percebi mais tarde, mas de algum modo já intuía que estava também me salvando de ser destruído por toda aquela dor: ainda existe muito dessa experiência até hoje em meu estilo, mas na prosa poética de Excertos da noite mais do que escura, certamente deixei meu acerto de contas com esse “salto” até a escrita.

Apesar de não escrever, meus pensamentos sempre tiveram uma vida ativa e rica, assim como a imaginação fértil, não creio que positivamente, entretanto, para mim foi uma questão de sobrevivência, não havia quem me escutasse e assim aprendi a escutar a mim mesmo, o que me tornou frequentemente clarividente sobre o que estava sentindo, o que de algum modo manteve, talvez colateralmente também conteve, acabei por me tornar muito reto, com toda sinceridade e justiça de minha palavras e ações. Assim, não explodi quando mesmo talvez devesse, mas não podia. A escrita veio com todas as explosões que um dia contive, e mesmo trazendo a tona derradeiramente a capacidade de me reinventar. Mas ainda ocultou de mim, e manteve algo preso as profundezas desse tempestuoso mar. Mas ainda, nunca deixei de estar sozinho entre papéis.

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Palavras que voam

 

Núbia,
Quantas coisas perdidas no ar?
Que tristezas indigentes,
E alegrias sem endereço,
Diz se existe mesmo um caminho,
Como ilumina o brilho do teu olhar,
Ensina, ou mostra,
Se surgirá mais uma vez,
Em acontecer, ou encontrar,
O tempo, a mudança?
E nos convidará a retornar ao mais íntimo,
E do verbo transitório, ser e estar,
Por um vento arrancado a permanência,
Esperando na calçada das esquinas de sonhar,
De pés nus na areia do cimento poroso,
Já arde o que há em atravessar e fugir,
E no azul vai como um Tordo louco e atroz,
E no fulgor dos laços que apertam,
E findam no céu do poente,
Se, talvez, então, que à deriva desse voo sem plano,
Possa ver surgir, o que de ti tanto recorda,
Já esquecer em mim,
Das alegrias e tristezas de um coração,
E algo como vida, desde o oriente vibrante,
Levanta-se no suspenso para alçar voo,
Qual Balão de São João ou
Pipas no ar,
Mas ainda ceifai as linhas, ó luminosidades,
Antes da noite,
Saltai sobre os muros de amanhã,
Que guardam estranhos quintais,
E trazei para tão perto e junto,
Sentir o suco escorrer estourando as fibras,
Como ao morder o fruto saboroso,
Que não se saiba adivinhar,
Se boca ou fruta. Continuar lendo “Palavras que voam”