Tornado

(Imagem: Pintura de Joseph Lorusso)

Nada a se inventar para apenas navegar,
Ir e vir e ir, ao balanço de um ritmo sem letra,
Comedidos pela própria desmesura da dança,
Segue a melodiosa alfange fundo no sangue,
Até os confins das coisas belas e íntimas,
Nas entranhas do mundo,
Compartilhando suspiros ao espumar das ondas,
Vagando para longe, bem longe,
Num tornado, tornando,
E ver desse vento, vir o vir-a-ser,
Pequenos e indivisíveis,
Entre fúrias e calmarias,
Findos e nus,
Como nós dois.

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Coração ressonante

 

Todos os sons,
Dos lírios secretos das ondas,
Espumando gritos submersos,
Como conchas florescendo,
O brilho de suas pérolas,
 
Ululantes solfejos
Soprando tão cálida brisa primaveril,
A degelar o invernal sono de esquecimento,
 
Todo o som, da tua presença,
Toda a música,
Que vibra quente em tua voz,
Quebrando antes do fim,
E tornando a começar mais uma vez,
Ao ritmo do coração ressonante,
Como chuva na lagoa,
E a alma transbordante,
Do sorriso sublime,
 
Gemidos deslizando na ponta dos dedos,
Harpejo-cafuné nos harmônicos de teus cacheados,
Luz e sombra teus olhos e todas as bocas,
Sons,
Todos os sons,
Todos todos todos,
Irremediavelmente…
O infinito da criação,
Nas curvas dos nossos acasos,
Todos, todos os quilômetros,
Dos meus sonhos até ti!

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Marina

(Pintura de Francis Danby)

Talvez um dia a encontre,
Entre as Plêiades ou Nereidas,
Nos esquecidos contos arcaicos,
Tão proximamente estrangeiros,
Onde as saudades esfumam como suspiram as ânsias,
Incessantes ondas sob as estrelas dessa constelação,
Ou chafurdar a crista das coisas,
Ao acontecer de sorrir,
Desde ti retecendo a trama de antigos laços,
Qual seja, perfaz o redemoinho apraz,
De detalhes lançados ao sortilégio místico,
Com uma besteira assim, de dizer,
Abrindo a vela da alma,
Para um caminho ou direção sem rota,
De um sentido a emergir das profundezas desconhecidas,
Alcançar as índias nas fronteiras do mundo,
Talvez seja, deveras, ao asserenar-se o tempo,
E da espuma, espraiar na areia,
A simples beleza no estouro de tons de cores impossíveis,
O beijo de teu Sol a resplandecer,
Nas escamas do hipocampo,
Ei-lo ao estarmos nus, deveras,
Vestindo primaveras e outonos,
Dias e noites,
E então, mergulhar,
Talvez trespassar-nos-ia o Narval,
Rasgando esse corte,
Para intimidade que nos despe,
E cantar com qual música o encantamento,
E tu, filha desses mares revoltos,
Tão breves e finitos sejam,
O sal de tua seiva, o sargaço de teus pelos,
Tua pele de água-marinha,
Também o é, o mar em meu olhar,
Amainando o marulho desses versos,
Conquanto, ainda sonhemos,
Elevamo-nos a contemplar o infinito distante.

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Esse estrangeirismo pagão

 

Já tão estrangeiro dessas terras cristãs,
Já tão pagão, desses ritos de salvação e condenação,
Que sei de toda a arte de forjar contentas,
Em frágeis esculturas de santos e demônios,
À métrica dos dramas da vontade de suas almas imortais,
E fórmulas do querer,
As orquídeas de suas estufas,
As aves de seus viveiros,
Infernos e paraísos de além-mundo,
E depois, o tanto quanto louvam,
Ao transgredir as pequenas normas e tradições do viver,
A liberação para desejar, o seu livre-arbítrio,
Que sei eu do deus e do diabo dessas conversas,
O quão bárbaro e jovial soa toda pequenina fome de poderes,
Já tão apostrofo para consumir a carne desse deus,
Sob concretude de seus templos, as vergas de aço de um indivisível sujeito,
Se a bussola de toda ânsia aponta para o devir,
Todo sonho é uma nascente, e estuário, jorra do ventre firme da terra,
Através do diverso, navegar ao ritmo de todas as ondas e mares,
E nada de extraordinário há nisso,
Além da própria grandeza ínfima de cada coisa,
Dançar atroz ou calmo a lira da ordinária alma mortal,
E recaio sobre mim todas as dores e prazeres que me ousam,
Me transformam, quase dilacerando as fibras da permanência,
Como a dança típica da terra natal,
E como flama incandescente do sentido,
Se heroicos, os feitos ficam postos nesta mesa,
Na poética linguagem do mais íntimo,
E comem e bebem desta narrativa os amigos, a seu bel-prazer,
Como uma hospedaria em lugares distantes,
Como uma estrela-guia nos oceanos de além,
Entregamos-nos nus aos braços do acaso,
Grandiosas todas as dádivas com que os deuses nos devoram.

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