Chuva no rosto

(Imagem: Pintura de Saeed Tavakkol)
último texto da série Meu amigo, dia desses começou a chover…

 
Como se explicam essas vezes em que se acorda já cansado? Nu e estirado no acaso. Pelo caminho, sempre atrasado, ocultar-se ao relento de nenhum olhar que o abrigue, além de quem possa reconhecê-lo como caminho, ainda que sob a luz consoladora e mórbida de outros astros. E parece ser essa a única ocupação garantida. Meus amigos, onde estão vocês que algum dia me fizeram questionar corajosamente se podíamos alcançar o possível de um sonho? Sim, o cansaço, pois ainda tento encontrar um lugar para o que seja digno e importante. Mas deitado nessas ruínas via estrelas novamente, e isso é tudo.
 
Dias depois, ainda sujo do tempestuoso ocaso, ferido intimamente da condição de ser finito. Ainda que pareça ofender profundamente ao cotidiano normativo das coisas, expor-se a luz do dia comum carregando consigo as marcas e os sulcos cavados no espírito, da dor e da alegria de ter reencontrado a chama viva da contenda da alma. E então, me escondo de todos no labirinto dessas erosões.
 
Tão de repente quanto vivenciei tudo o que descrevi impreciso: passei frequentemente a sonhar como a muito não acontecia, e revisitando as antigas ruínas. Sem deliberar ou perguntar, me dirigia aos bares e praças em que nos reuníamos. Passava horas meditando em silêncio, algumas vezes sob o abrigo de árvores frutíferas, mangueiras, sapotizeiros, castanheiras, e permanecendo ali, sob a goteira pesada da chuva que se acumulava nas folhas e galhos, embriagando do perfume doce e enjoado dessa mistura de terra úmida, frutos apodrecidos e de umas poucas flores remexidas, lembrava ter visto antigos amores em longas conversas em parques e madrugadas, de amar, e de ver tudo se desfazendo quase sempre por um egoísmo idiota, em outras caminhava sem direção perdido em pensamentos distantes. Ia a praia, estranhamente vazia nesta época do ano, e caminhava na areia molhada, serenamente assistindo a ressaca feroz  das ondas esfumando entre si, para enfim debulharem-se na areia, e quando chegavam a molhar os pés,  recebia-o como um desafio, pulava socando as ondas, esbravejando, caindo pra trás, atracado com o fantasma de uma grande peixe, armando a linha para anzóis cada vez mais afiados e sedutores: cada lugar me comovia com um sabor diferente e incompleto, enquanto o espanto me acompanhava por todo o caminho, com o único acesso em comum de ir sempre em direção ao Sol. Mesmo quando por vezes apenas encostava o rosto numa janela e frio gélido despertava do sonho enquanto via através da chuva batendo contra o vidro, as coisas sumindo e esmaecendo. Nessas horas uma súbita fraqueza me dominava, e era difícil segurar todo sentimento que enchia meu coração e transbordava: penso que é mesmo confuso esse mundo espelhado, onde as tristezas e as esperanças brincam com as imagens refletidas, de onde brotam fantasias de vibrações e possibilidades, e fantasmas através de distorções e ecos, esses deuses da chuva, que exigem da vida que o calor se mostre, dos distantes a proximidade, e dos estranhos a intimidade.
 
Através desse vento que às vezes me arrebata como uma brincadeira, desfolhando e embaralhando as coisas,  ventando sonhos para lembranças, como se reinventasse o passado, e lembranças para futuro, como se pudesse ver as coisas tornarem a ser mais um vez, e de quando venta um momento fechando os olhos e assanhando os cabelos, alisando meu rosto, tocando-a com dedos de chuvisco, levando a dormência embora, trazendo de volta o barro cru da vida, como se quisesse ver esse rosto de perto, do que fez, faz e fará, como se não o reconhecesse de longe, como se não estivesse de óculos
 
– É você mesmo! – ouvi-lo dizer.
 
E pode parecer ridículo, mas me sentia feliz e respondia em silêncio: sim sou eu mesmo!
 
Em verdade, de algum modo em meio a esses devaneios juvenis ia refazendo a costura de ser com os farrapos de ter sido, raspando as cores do esquecido para recomeçar a pintura em um novo quadro,
 
Tenho de ir devagar, para não me perder. De verdade, se me recordo bem parecia estarmos todos fugindo de algo com tanta pressa, que esquecíamos muito e reparávamos quase nada. Porque se parássemos, teríamos de conta de um imenso absurdo. Éramos jovens demais para saber, que mesmo agora ainda continuamos a ser. Tenho de ir devagar, diz-me a alma e o coração, e me deixar reparar o tempo…
 
Inesperadamente, me apanhei dia desses fitando minhas mãos, e as reli, como se faz com as linhas de um velho diário ou carta reencontrada de seu canto esquecido, e sim sou eu!
 
Eu mesmo, enquanto estia e ainda bebo da chuva, embebedando de misturas possíveis de sentimento, deixando a arritmia solta, o descompasso como guia, dos restos de infinito, tilintando em toda a parte, como um oráculo estilhaçado: gotas e poças, improvisando espelhos, e todas as luzes refletem em algo, e fazem delas brilhantes cristais; e interpenetram-se nesta ar-ritmia constante, de outra imagem, de outra claridade, com a indiscrição das coisas vertidas através dos cantos que não se vê, expondo a intimidade, me vejo de frente ao virar as costas para rir, ou de costas no choro no riso que dei para alguém sem poder, ou nos suspiros que sustentam esperanças mas aliviam fúrias, de amores que ainda sinto na ferida seca do laço cortado, tudo que finjo, calo ou minto, no desamparo do reflexo vivo, e todas as tristezas revelando seu canto de alegria.

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Solidão (Revisão)

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.

Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,

Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.

Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.

II
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Alma em partículas de poeira (Versão 2)

Enfim comecei a realizar o meu maior projeto para este ano, selecionar, revisar e editar todas as publicações já realizadas no blog. Confesso, foi uma alegria especial sentir o peso nas mãos meus poemas impressos. Acho que a gente nesse meio virtual perde um pouco da noção daquilo que faz, até ter diante de tantos sentimentos e pensamentos diversos postos diante de si…
Começando daqui pretendo publicar as novas versões daqueles textos e poemas que sofrerem uma grande mudança. O primeiro trabalho, talvez seja um dos mais difíceis que devo enfrentar, devido a transição de tonalidades na mistura de sentimentos: Honestamente apesar de ter sido uma experiência enriquecedora tive de me dar tempo algum tempo e juntar forças para revisitar esse leito de prazer e sofrimento.

 

PRIMAVERA NO QUARTO ABAFADO

I

No alto da tarde do despertar de um dia,
Respingavam no quarto os restos infames dos últimos raios de luz solar,
Com a vida, toda despreocupada, exibindo-se na infância tardia destes eventos,
Já tão longínquos ao alcance do olho,
Todas, todas as cores queimavam em brasa, lentas e brandas,
E tínhamos prazer em jogar os jogos nas cinzas ao vento,
Seguindo o retorno ébrio do deus em partículas de poeira,
Na cama morna daquele derradeiro facho de luz.

II

Olhos,
Impávidas janelas fechadas,
À plena luz de um dia,
Assistindo as sombras dançarem,
Através da translucidez,
De vermelhas cortinas,

Lábios,
Promessas cerradas,
Mordendo todas as formas,
Com dentes trincando de orgasmo,
Jorrando aos céus de um bolero lilás,
Semeando estrelas, nos úmidos mistérios,
Duma língua obscura,

Os deuses movem-se todos,
Espargindo nas paredes as luzes desarvoradas,
Um mar de esporos luminescentes,
Fingindo todas as mentiras imóveis,
Coladas a retina,

Frágil e irresistível dogma dessas crenças,
A luz esconde um limbo,
De alma nossas almas despedaçadas,
Arrancadas pelas frestas e lançadas ao ar,
Pairando como partículas de poeira,

Dia após dia,
Mastigando as pétalas de cada sentimento,
Com a mudeza de um assombro,
Destilando um caldo escuro,
Vísceras expostas,
Tão nus e apodrecidos,
No leito de azaleias, calêndulas e bétulas,
Despetaladas e secas entre o zunido de moscas,

Oferecendo nossos restos a fermentação de um deus,
Em troca de alguma benção,
E os laços remanescentes,
Na fumaça do oloroso incenso:
Dores, perfídia, cinismo, e, sobretudo –,
Cheiro de primavera no quarto abafado.

Original: Alma em partículas de poeira

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Pérola

(Imagem: Pintura de Eric Roux)

Era
Ainda tão cedo,
E suave,
O sentimento
Soprava como um vento veloz,
E com asas nos pés, acho, corríamos
Ou voávamos?
Tentando alcançar
As sementes de dente de leão,
 
No rastro de luz de tua lembrança,
Ficou a indelével impressão,
De existir, algo de sério e delicado,
Para se colher no vento, com cuidado,
 
Mas correndo e tropeçando,
Na penugem dos encalços,
Desconhecendo o maduro ofício,
De dar nó em cadarços,
 
Foi embora tristemente,
Quando tua mãe te abandonou,
Mas antes me fez prometer,
Por meu próprio bem, esquecê-la,
E como que vindo de tua voz rouca e serena,
O vento soprou impetuoso como nunca antes,
 
E hoje já não sei
Em qual claridade
Tão alva e doce,
Ofuscou-se a ternura,
De teu colo morno,
 
Cumpri, e quase tudo se desfez,
E tudo o que endureci, fechou-se sobre isso,
Mas na concha das mãos
Segurei firme algo além dessa promessa,
Não deixei ir, não pude,
E como a semente de dente de leão,
Caiu no esquecimento,
Mas brotou-se, florescendo,
Pétalas de pura madrepérola,
No raio de luz dos dias. Continuar lendo “Pérola”

Fitzcarraldo - Eric Roux

Todos os dias santos

(Imagem: Pintura Fitzcarraldo de Eric Roux)

Sentar sem tempo de ir embora, e quais são os enigmas sutis que não se quer desvendar mas fica como em suspenso tocando, enquanto vai se chegando de mansinho, e aos poucos se despojando de toda pretensão, parece que a alma vai se esquecendo de suas capas e casacos e surge das nuvens como um luar, acomodando-se aos braços, na verdade dói como a luz que fere os olhos, e não deixa de ser comovente ainda na lembrança, enquanto longamente o fardo cotidiano permanece, e não obstante, havendo de estar ali na plena simplicidade do que é assim e não tem nome, e mesmo assim deixa-se ser com tudo o que se pode e estar habitando o mundo como se não houvesse para onde ir ou voltar, talvez como se flutuasse mais alto de que o habitual tal como vibram esses acordes de arrepios inconstantes até a afinação, é um mergulho rasante, um voo rasteiro aplainando as asas, um êxtase saltando quase louco o desprendimento, sendo o lugar onde se quer estar mais do que qualquer outro, lá mesmo, cotidianamente a salvo de cair no esquecimento. Sem negar que há uma noite a despontar, mas segue tão suave com todos os astros de sonhos que vigiam do alto em segredo em geral tão anônimos, e os excessos de vida e liberdade e amizade fazem parecer com o ar fresco e abundante ainda que o frio do sereno da noite se faça presente como no campo onde a vida brota mais incessantemente, e é uma alegria festeira enquanto tudo quanto é dito toca e encandeia, faiscando da flama de corações amorosos que corajosamente se abrem ao infinito, se derramam e se beijam do encontro. Entre todas as nuances desta tarde ficou aqui essa trilha sonora ecoando perdida “nas coisas de um olhar”.

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