Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

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Na orla das luzes

 

A hora chegou,
E o que esteve lá, escapou com os últimos raios de Sol,
E estivemos observando atentamente na saída,
Num tempo subitamente mudado,
Conjugando todas as marcas expostas que o dia deixou,
Reluzindo no escuro em que tateávamos: “e agora?”,
Tentando cobrir sem encobrir o calor remanescente dos sentimentos,
Ao frio desalentador de estar mais uma vez no mundo vulgar,
Quantas luzes em seu olhar, bem mais do que a anoitecida cidade,
Ameaçando se apagarem pelos cantos inabitados de toda essa gente,
E meus dedos amarelados, sujos de brincar com a areia e o vento,
Aventuraram-se através da neblina delicada e frágil da penumbra,
Envolvendo-a no aperto dum abraço,
Tão feridos de luz e verão infinitos,
Com a pálpebra macia daquele sonho evanescente,
Conjurando todos os deuses do vento,
Descobrindo a nudez do silencio em vastos campos verdejantes,
Através do revoltoso e enluarado mar,
O beijo.

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Videiras

Foi calado sob um céu estranho, que me reencontrei vagando através da longa rua dos desencontros, carregadas nuvens fechando-se sobre o mundo, ameaçando obscurecer qualquer vestígio de coisa particularmente familiar na opacidade de tudo. E nesta cidade cinzenta de meus pensamentos envoltos em uma gravidade mais densa, tudo o mais ascende como fogos-de-artificio ou uma salva de tiros contra a resistência infalível do ar. Tão … Continuar lendo Videiras

Sempre tarde demais

Nostalgia da tristeza, Nostalgia da juventude, Tempo de ouro, Dum coração sem sorte, Casa vazia, Teias florescendo, Da aranha dos sonhos, Poeira, Punhado, Pá, Cal, Grão a grão, às vezes, Punhado a punhado, às vezes, E às vezes a ultima pá, Segundo a segundo, Ano após ano, Soterrando, Grãos, punhados, sacos, Tudo que é tempo, Da volta eterna dos ponteiros, E como nos sonhos, Tudo … Continuar lendo Sempre tarde demais