Teu canto…

(Imagem: Pintura de Ron Hicks)

Quando a voz de teu canto tocou a minha alma,
Ela viu o Sol, morrendo no horizonte de uma longa noite,
E continuou a seguir,
Como o coro das antigas tragédias,
Escoou entre deuses e mortais,
Entre os atos heroicos e a plateia,
Em nada se conteve,
Brincou com as resistências, como um cata-vento,
Cheirando a rosa dos ventos das etéreas correntes do meu céu,
E soube como o tempo retorceu as arvores,
Debicando num mergulho corajoso em meus abismos,
E depois, apenas voou fundo e mais longe,
Da ultima cova ao primeiro berço,
Abrindo vasta e firmemente as asas,
Como um grito de liberdade,
Ama os grilhões antes de amar ao destino,
Avançando as cordilheiras de sonhos sumidas na noite,
Voando raso pelas calmas planícies,
Onde fogo e sangue incendiavam a tarde,
Desviando de pedras entre as veredas estreitas,
Por onde é árduo seguir,
Escutando os mais difíceis e espessos silêncios,
Viu feridas abertas brilharem como as estrelas dessa noite tão longa,
E alegrias e tristezas do enigma de meu coração,
Então saiu de meus olhos deixando o esquecido em minhas mãos,
E o infinito estuário da demora de teus lábios nos meus.

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Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera

(Excertos do texto inédito, Dia desses começou a chover)
 
Mas calma, é lentamente que a bruma áurea se dissipa ao entardecer de todas as coisas. E enquanto de seus esporos luminescentes de lembranças nascem as estrelas nuas de tristeza, e interrogam onde ainda bate verdadeiramente o coração. Meu irmão, se nesse silêncio ouço escoarem para longe as vozes serenas que acima de tudo se cativam do brilho das estrelas.  Adentro ao silêncio dos ermos, vento frio a levar-me a presença de mim embora, e na clareira dessa ânsia, atravessa-me o espinho, como se cultivasse em segredo, um jardim a beira do abismo. E lá, alheio ao conflito entre ideias e emoções, e a ameaça de cair no vão sem fundo, inesperadamente o coração sonha como se brincasse e tocasse o próprio sonho, mas como é possível? Como perdeu-se essa linguagem tão íntima? Se era tão claro ainda agora? E tão estreita a cerca entre esses vizinhos? Amigos? Irmãos? Traduzir-se é, dessa longa e ininterrupta conversa entre sentir e pensar, espantosamente dizer a verdade.
 
Aqui, neste lugar, onde livre de obrigações e contentas, abandonar-se ao acaso, é de súbito dar-se conta do cansaço. E como a bagagem que se lança em algum canto, em casa, após uma longa viagem, e vai desfazendo-se ao longo dos dias, a alma transcorre turbulenta como um rio, liberando as tensões através das pedras e coisas imóveis no caminho. E o coração como um animal selvagem, aproxima-se para beber das fontes e farejar os rastros do estranho. E não havendo nenhuma outra travessia, nenhuma queda, as luzes, os ruídos, do mundo e das cidades, perturbam a tarefa do artificie curioso da nova invenção. E as dores dos caminhos, estendem-se nuas sob o céu, e interrogam os infinitos de além, ao apagar das luzes.
 
O quão cedo acendei-as novamente, o quão cedo tocai todos os sons, perfumai teu cheiro, fascinais do novo, e alimentai do pão das presenças, ocupando a demora, tão brevemente surge a fome cheia de ausências, os pés maltratados e as costas queimadas não deixam dormir, não deixam se encontrar em meio a bagunça.
 
Quando os ecos aproximam-se do silencio aberto, e magoam as feridas com o sal das estradas, a velha linha do destino aperta o nó e vibra, entoando a lira da tristeza. Quantas ausências, quanta solidão, e o espírito vela solta, farrapos e fiapos, flamula no ancoradouro.
 
Despertamos para a noite, longe do escuro alegre do trabalho, em que sumimos em meio a tecedura, e apanhar-se só com a rede desses pensamentos ressoando sentimentos febris, quando por fim estendeu-se o tapete desse deserto? Ou sempre esteve? E o ouvido afinado, apreendeu a descortina-lo? Através miragens esperançosas e consoladoras? Mas o que é, então, insuportável? Por onde esse espinho penetra ainda mais fundo a carne?
 
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Palavras que voam

 

Núbia,
Quantas coisas perdidas no ar?
Que tristezas indigentes,
E alegrias sem endereço,
Diz se existe mesmo um caminho,
Como ilumina o brilho do teu olhar,
Ensina, ou mostra,
Se surgirá mais uma vez,
Em acontecer, ou encontrar,
O tempo, a mudança?
E nos convidará a retornar ao mais íntimo,
E do verbo transitório, ser e estar,
Por um vento arrancado a permanência,
Esperando na calçada das esquinas de sonhar,
De pés nus na areia do cimento poroso,
Já arde o que há em atravessar e fugir,
E no azul vai como um Tordo louco e atroz,
E no fulgor dos laços que apertam,
E findam no céu do poente,
Se, talvez, então, que à deriva desse voo sem plano,
Possa ver surgir, o que de ti tanto recorda,
Já esquecer em mim,
Das alegrias e tristezas de um coração,
E algo como vida, desde o oriente vibrante,
Levanta-se no suspenso para alçar voo,
Qual Balão de São João ou
Pipas no ar,
Mas ainda ceifai as linhas, ó luminosidades,
Antes da noite,
Saltai sobre os muros de amanhã,
Que guardam estranhos quintais,
E trazei para tão perto e junto,
Sentir o suco escorrer estourando as fibras,
Como ao morder o fruto saboroso,
Que não se saiba adivinhar,
Se boca ou fruta. Continuar lendo “Palavras que voam”

Fitzcarraldo - Eric Roux

Todos os dias santos

(Imagem: Pintura Fitzcarraldo de Eric Roux)

Sentar sem tempo de ir embora, e quais são os enigmas sutis que não se quer desvendar mas fica como em suspenso tocando, enquanto vai se chegando de mansinho, e aos poucos se despojando de toda pretensão, parece que a alma vai se esquecendo de suas capas e casacos e surge das nuvens como um luar, acomodando-se aos braços, na verdade dói como a luz que fere os olhos, e não deixa de ser comovente ainda na lembrança, enquanto longamente o fardo cotidiano permanece, e não obstante, havendo de estar ali na plena simplicidade do que é assim e não tem nome, e mesmo assim deixa-se ser com tudo o que se pode e estar habitando o mundo como se não houvesse para onde ir ou voltar, talvez como se flutuasse mais alto de que o habitual tal como vibram esses acordes de arrepios inconstantes até a afinação, é um mergulho rasante, um voo rasteiro aplainando as asas, um êxtase saltando quase louco o desprendimento, sendo o lugar onde se quer estar mais do que qualquer outro, lá mesmo, cotidianamente a salvo de cair no esquecimento. Sem negar que há uma noite a despontar, mas segue tão suave com todos os astros de sonhos que vigiam do alto em segredo em geral tão anônimos, e os excessos de vida e liberdade e amizade fazem parecer com o ar fresco e abundante ainda que o frio do sereno da noite se faça presente como no campo onde a vida brota mais incessantemente, e é uma alegria festeira enquanto tudo quanto é dito toca e encandeia, faiscando da flama de corações amorosos que corajosamente se abrem ao infinito, se derramam e se beijam do encontro. Entre todas as nuances desta tarde ficou aqui essa trilha sonora ecoando perdida “nas coisas de um olhar”.

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Naquele bar

“Das coisas que não se realizam por excesso, para as coisas que não são por não terem cabimento” Neste bar, em que nos sentamos eu-tu, Os braços do encontro se estendem, Quando nossos dedos se esbarram, Ao costume da intimidade, o luar, Para servimo-nos de música, E arrojado é o frio da garrafa, Enquanto quente a dose destilada, Transversalizando mais que dois copos para dois, … Continuar lendo Naquele bar