Pérola

(Imagem: Pintura de Eric Roux)

Era
Ainda tão cedo,
E suave,
O sentimento
Soprava como um vento veloz,
E com asas nos pés, acho, corríamos
Ou voávamos?
Tentando alcançar
As sementes de dente de leão,
 
No rastro de luz de tua lembrança,
Ficou a indelével impressão,
De existir, algo de sério e delicado,
Para se colher no vento, com cuidado,
 
Mas correndo e tropeçando,
Na penugem dos encalços,
Desconhecendo o maduro ofício,
De dar nó em cadarços,
 
Foi embora tristemente,
Quando tua mãe te abandonou,
Mas antes me fez prometer,
Por meu próprio bem, esquecê-la,
E como que vindo de tua voz rouca e serena,
O vento soprou impetuoso como nunca antes,
 
E hoje já não sei
Em qual claridade
Tão alva e doce,
Ofuscou-se a ternura,
De teu colo morno,
 
Cumpri, e quase tudo se desfez,
E tudo o que endureci, fechou-se sobre isso,
Mas na concha das mãos
Segurei firme algo além dessa promessa,
Não deixei ir, não pude,
E como a semente de dente de leão,
Caiu no esquecimento,
Mas brotou-se, florescendo,
Pétalas de pura madrepérola,
No raio de luz dos dias. Continuar lendo “Pérola”

Rosa dos ventos

Eramos vizinhos de anos em silêncio, e em apenas algumas semanas começamos a parecer como amigos de longa data. À portas abertas, falávamos da antiga distância sempre com algum humor sobre os enganos, as ironias e coincidências. Como essa música chegando a rua com a displicência de uma janela escancarada, passando em frente a casa. Sobre as impressões deixadas, medindo aos poucos algum tipo pontaria onde … Continuar lendo Rosa dos ventos

Primeiro impulso

  Primeiro havia a santidade, Respeito e veneração, Ali onde aprendeu a amar, Amarrados aos laços de um só coração, Tão jovem, tão delicado, Respeitoso, Avido em admirar, Frente as sutilezas com que, Aprendeu a orar, e adentrar no templo  Como se segurasse a mão que o guia, Agora domina, A violência no olhar fascinado, Da primeira criança que ainda dorme, Um sono leve.   … Continuar lendo Primeiro impulso

Proximo ao coração secreto da vida

Sussurro de brisa, Vendaval de gritar, Que doce nuance da penumbra que vibra, No olhar de menino mateiro, A fechar sem ver o que quer mandar, No que percebe o homem profundo, Trovoa entre céus e terra, Serenamente a espera, exasperante, Percorrendo mesmo o desejo de nem piscar. Mas dormir e sonhar, E rindo suave, Sonhando com o peso da pálpebra, No intermear de fundir, … Continuar lendo Proximo ao coração secreto da vida

Sobre o gênio fraco às amizades

    Tive sempre esse gênio fraco às amizades, Talvez seja porque perdi desde cedo o caminho para casa, Sonhava já menino encontrá-la nas ruas incompreensíveis De vizinhanças cada vez mais distantes, Ficando sempre mais tarde nas ruas vazias da hora de jantar, E não encontrei se não o desencontrado, Inventei, inconsciente disso, Magoas imperdoáveis, e sofri lentamente este fardo, Por isso, inventei ainda um … Continuar lendo Sobre o gênio fraco às amizades