Trinta e tantos

(Imagem: Pintura de Suchitra Bhosle)

 
Já é o costume em ver,
de dentro de algo maior,
 
A pergunta persiste a dúvida,
Ramando a resposta em toda parte,
 
Uma segunda natureza,
Como a dor habita a carne,
O ser brota de sentir,
E derrama,
Alagando a vida.

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Cantos noturnos (sobre os rios das almas)

(Imagem: Pintura de Émile Breton, intitulada Marais au clair de lune)
Penúltimo texto da série: Meu amigo, dia desses começou a chover

 
I
 
Caminhei por todas as partes, buscando nos bares e ares noturnos, algo como internar-me no hospício dos vícios abafando o movimento perpétuo, da maquinaria das culpas e responsabilidades. E pouco presenciei mais do que misérias; Ouvi pacientemente da rotina, sobre suas ocupações cotidianas. Como se vestisse eu mesmo o traje das ocupações, almejando escapar a métrica de seus labirintos. Estive na moleira dos gritos de guerra, no peito fechado de suas iras, confortando ou instigando, nos canteiros de todos os ideais, assistindo-os lavarem suas magoas interna contra as sujeiras e erosões do tempo, perdendo o fio do devir, e a beleza de amadurecer.
 
Também a encontrei tentando alcançar sua própria imagem, e hoje não sei dizer se algum dia a amei, se existiu liberdade para isso e, para além, parece que sempre foi tarde demais…
 
Talvez tudo isso apenas estivesse entre as coisas sem cabimento da vida, mas entristeceu… imensamente. De repente, larguei tudo e a tristeza funda e cortante fez rasgar todos os planos e direções, sopraram fortemente as saudades, movendo tudo, morrendo tudo, debrucei-me nos umbrais de tudo o que não pude, descortinando a espessura de tudo o que podia, e a esperança jorrou e escorreu nas paredes dessa casa dos ventos, como pássaros perdidos, se espatifam contra a janela, alheios a transparência.
 
Depois a espera caiu como a chuva fina e longa riscando timidamente a escuridão, num longo lamento como brilho alvo de laminas ofertando o languido corte de uma velha honestidade mesmo diante da ríspida obscuridade; e se, entretanto, retas e agudas, parecendo o choro da tristeza cantando a longínqua lira do coração, confesso dignamente em silêncio onde fala a dor com mais sinceridade. Nos confins de tudo o que resta, desvelando a ausência nos rastros luminescentes da presença, encontrando o refúgio de uma ternura antiga entrevada na decadência. Eis uma vida inteira… e talvez na maior dela parte viajei como um vulto entre sombras, e quando o cansaço finalmente derramou a tinta da melancolia pintou as flores negras de dor e abandono. Abri a mala senti um aperto estrangular, as coisas estavam cheias de lembranças vazias.
 
E então o temor não mais obscureceu a ausência de quem e quando eu mesmo estivesse lá, liberando a dor das obrigações de sustentar um sentido. Esse delírio desceu como um vendaval de distâncias intocadas, escancarando todas as portas, varrendo para longe todas as proximidades, arrancando de mim as lágrimas e os risos, devastando folha a folha toda secura, rachadura a rachadura toda ruína. Toda vida se esvaziou, deixando a solidão estar na ventania da noite angustiada. Mudas estrelas sonhando o frio abismo das ondas, afogando o som num ruído vazio. Sob o cansaço infinito, o naufrágio.
 
Se existe algo além de corvos nas sombras da noite, devorando todas as proximidades. Diz, meu velho amigo, como era o desenho do mundo antes da distância? Do pouco que tenho a dizer sobre o passado, havia algo, havia música como só há quando se sente a melodia quase nos partir, e depois o silêncio vasto, o esquecido, apenas fragmentos de lembranças sem sentido, desde então tudo pareceu se mover rápido demais, decaindo na escuridão de um afastamento; já outono, ouvi o suspiro da terra, a folha seca dança, senti algo morrer, quase sem ser notado. Algo inominável é triste e inalcançável. Talvez entre rascunhos, se perdeu a palavra e o tempo a dizer.
 
Amigo, também o profundo cansaço tem seu ocaso, assim nesta hora tão tarde, larguei as resistências, deixando as ultimas flamas apagarem e escuro entrar, e vaguei pela treva seguindo a luz condutora da ausência estuando pelos flancos desconhecidos do horizonte adiante, não obstante sempre tão desiguais o fogo das paixões clareando apenas o mais próximo, no interior do jogo de sedução como pétalas no exílio da flor, que importa se vontades ou anseios, erguem o esforço como um filho pródigo. Cegas de que tudo quanto chega, arranca e deixa um pedaço quando vai. Mas também o medo é uma curiosidade, ainda corajosa em sua busca hesitante, de outro modo apenas permaneceria em silêncio. E quando desesperado busquei reaver as antigas proximidades, acordei para o fato de que o sentido havia se perdido, e então a busca cessou deixando nos braços da ausência, deixando que cansaço me arrebatasse.
 
II
 
Cai, como quem vira as costas para o mar violento, e embola num turbilhão de ímpetos atrozes não mais contidos na forma de um sentido. Mas certa noite, a taça cheia de escuro líquido, oferece a luz de um estranho brilho, lá fora se arvoram as ânsias, frio o vento, a arrefecer a pele da alma, como oscilantes lençóis nos quintais. Tendo da noite, os alvoroços que por dentro a angustia emudece, algo persiste, indo e voltando incessante e lentamente seduz ao regresso. Já estive nesse lugar, posso vê-lo em sutis pressentimentos, as calmas e as fúrias, girando em torno e adentrando aos pensamentos. Encontrando e desafiando por um longo tempo, os limites do que um dia pensei ser, olhando, cheirando, medindo, se lançando ao céu infinito, como uma prece desejante de algo mais, aos desconhecidos deuses, amando exasperadamente a mudança como uma criança se sente ínfima desequilibrando ao descobrir a imensidão da noite estrelada, e subitamente apega-se a terra sob seus pés sem deixar de olhar para o alto.
 
E desses pedaços conjuga-se o novo sentido de um antigo, com o vento a ferir de folhas os lagos imóveis, como o oloroso incenso da presença, perfuma de tudo o que um dia feriu a alma. Devagar pedaços e rasgos, tocam a face do silêncio, asserenando os medos, avarandando a noite, invadindo o quarto, entrando em meu coração, com uma alegria desconhecida.
 
Vejo-me em outras noites como essa, mirando abismos, chorando em segredo, gozando a alegria solitária do pertencimento, incendiando fantasias, medrando jamais ser outra vez reconhecido, cansado, e cansando do próprio cansaço…
 
Sentindo o peito expandir e quase estourar enquanto aquietado de ternura pisava macio nesse chão, ouvindo a respiração da amada adormecida no abraço, ou mergulhando no suor por horas a fio galgando o prazer de gozar adentro o calor devasso misturando nossas seivas…
 
E da tessitura desses ventos silentes, desde a palma aberta, vasculhando incertezas.
 
Sigo as vibrações até o coração pulsante arrebentar o peito de íntimas alegrias e tristezas, por súbitos deslocamentos, navegar as nuances até o estupor, erguer se para ouvir a música. A melodia noturna.
 
Tudo esteve longe e perdido, assim também eu deixei me ser um longe e perdido. Bebi a noite, tornando noite, deixando que o vento frio fosse o meu sussurro, o luar minha dor, e a escuridão o meu grito,
E ainda fermentando na boca, a saliva de todo sentimento compartilhado no amor,
E com mais afinco nas conversas de entre lábios roçando e o hálito túmido de ardor,
Ouço escoar a melíflua seiva, desposando o antigo romance de uma harmônia,
Ocultas sob o véu de uma dor gritante demais para não afugentar aos quebrantos o que delicado nas coisas da alma,
Fundida à noite densa, compõe a trama, desvelando se à nuance de sombras e ecos,
Enquanto o feixe de violetas recém-florescidas,
Embotam no mergulho azul profundo,
A noite em seus segredos,
Esse silêncio escoa através de veredas antigas,
Como linhas trançadas longamente na descoberta do efêmero,
Mas o fogo é da mesma fibra que a carne,
E arde queimando, a ferida da intimidade –,
Clareia, ainda provisoriamente, a fonte dos anseios;
Isso é apenas um momento a cada vez:
Em que o sangue flui na luz,
E o coração fala sua linguagem própria, o amor,
Como um novo destino.

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Teu canto…

(Imagem: Pintura de Ron Hicks)

Quando a voz de teu canto tocou a minha alma,
Ela viu o Sol, morrendo no horizonte de uma longa noite,
E continuou a seguir,
Como o coro das antigas tragédias,
Escoou entre deuses e mortais,
Entre os atos heroicos e a plateia,
Em nada se conteve,
Brincou com as resistências, como um cata-vento,
Cheirando a rosa dos ventos das etéreas correntes do meu céu,
E soube como o tempo retorceu as arvores,
Debicando num mergulho corajoso em meus abismos,
E depois, apenas voou fundo e mais longe,
Da ultima cova ao primeiro berço,
Abrindo vasta e firmemente as asas,
Como um grito de liberdade,
Ama os grilhões antes de amar ao destino,
Avançando as cordilheiras de sonhos sumidas na noite,
Voando raso pelas calmas planícies,
Onde fogo e sangue incendiavam a tarde,
Desviando de pedras entre as veredas estreitas,
Por onde é árduo seguir,
Escutando os mais difíceis e espessos silêncios,
Viu feridas abertas brilharem como as estrelas dessa noite tão longa,
E alegrias e tristezas do enigma de meu coração,
Então saiu de meus olhos deixando o esquecido em minhas mãos,
E o infinito estuário da demora de teus lábios nos meus.

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Joseph Lorusso

Em um quadro de cores febris

(Imagem: Pintura de Joseph Lorusso)

De perto a vida te quer,
Já no alto a tarde te pinta em um quadro de cores febris,
O calor te festeja,
Suspirando doce como vinho suave,
E bêbada de suspiros atrasa-te por uma alameda,
Teus intangíveis tocam as coisas do mundo,
O caminho que te alcança se fecha e se abre numa espiral,
Paternal, o vento te acaricia os cabelos,
A brisa amiga te instiga a rodar a saia do vestido,
E inspiram a beijar tua prole,
Tuas pequeninas paixões e sonhos,
Presas como frutas no pé na ventania de tua história,
Corações amarelas vermelhas queimadas,
De verões viajantes,
Apertando-te o peito.

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William Turner, Shade and Darkness - The Evening of the Deluge

Temporais

 (Pintura de Willian Turner)
Da série: Meu amigo, dia desses começou a chover.

Meu velho amigo, como não lamentar? Se aos irreversíveis apenas conjuga-se dolorosamente em meio aos temporais.
 
Ainda quando entre nós pairam as cinzas das coisas desprovidas de vibração, como um vento fugaz que atiça as faíscas, adentra a morada e revira tudo que estava solto, desvela a solidão das coisas imóveis.
 
O inverno ainda estendia a bainha de suas longas vestes de chuva além do salão onde dançara por muitas semanas, como se fizesse questão de receber e mostrar a morada do mundo à estação recém-chegada, ainda sutilmente o calor do sol tocava as coisas, misturando-se e dissipando o calor dos corpos.
 
Foi durante uma tempestade de primavera, a primeira da estação, que despertei desse longo sono de abandono. Transbordando de ânsias, como os brotos da primeira leva de florescências primaveris, fragilmente desguarnecido na estranheza desse lugar estrangeiro, onde parecia haver chegado como um tronco que arrancado ao solo pela força da enchente das chuvas excessivas, segue carregado pela correnteza, e acaba por ser encontrado muito longe de onde dera por principio sua jornada através de sua queda, em outro lugar, em outra estação.
 
E mais do que tudo longo foi o tempo em que busquei a segurança das coisas que me enraizavam no solo confiável de uma distância intocada.
 
Todavia então, revirado e confuso até o âmago de meu ser, as flores intempestivas brotaram belas ainda que frágeis, e o vento forte e ameaçador também nutria os coriscos de um fogo redentor. E, tendo sido convidado a apresentar um trabalho, lembro claramente como naquela noite, entre diversas injustiças tão palpáveis, chegou até mim o ocaso, e enquanto se iniciava minha fala sobre a tradição e criação, a tempestade se impôs em toda sua plenitude.
 
Enquanto discursava, sem notar minha voz afinara-se ao trovejar, e seguramente quando levantei os olhos, juntamente meu espírito se elevou para vislumbrar o céu desse instante, e como se intimamente contemplasse no relampejar a respiração de uma potencia tão oculta quanto os deuses naquela noite, pressenti no estrondo o ruído de minha queda, assistindo o esgotamento transparecer nas nuvens o raios como as veias e nervos disto que por dentro insuflava-me as vísceras até esse insustentável limite: e um longo e profundo incomodo me atravessou. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti em um longo deslocamento o próprio do dizer desencaminhado da vida.
 
Mas como naquele instante reencontrasse a mim mesmo, hesitante, procurei como sempre algo de familiar entre os rostos desconhecidos. Ficando a espreita nas beiradas de formular uma decisão: Sob a pele desse instante vasculhei além, buscando nos arredores da estreiteza em todos os caminhos por onde andei nesses últimos anos, no entanto, sem espanto, tudo parecia o mesmo. E então, a encontrei. E possesso dessas forças excessivas continuei a discursar e apenas aos poucos transpareceu a contradição. Nesse enleio percebendo que ela também me notou, fiquei ali parado diante da branca hesitação em seus olhos, revirando-se para o fundo seguro com que se estabelecera ao redor dos meses, mostrando que aprendera a largar o antigo apego conquistando o alheamento de agora, me comunicando que a história fora forçosamente apagada pois assim era possível, e me pareceu triste mais do que justo que também eu por muito tempo o fizera, e na imposição desta força estava circunscrito uma história ainda mais antiga e hedionda, e da qual apenas lutamos longamente pelos espólios de sua miserável herança, e bem antes de nós e de outros companheiros que tivemos, distantes antepassados já nutriam o mesmo fastidioso orgulho. No entanto, o único fato que para mim naquele instante apareceu pesado e claro, foi o seguinte: éramos amigos…
 
Quando tudo acabou, apenas recuei atônito. E para ainda mais longe deslizei no tempo em que permaneci alheio a tudo e todos, conquanto ainda falasse e ouvisse eloquentemente sobre as coisas: e essencialmente quando alguém me reconhecia, o efeito sobre a minha calma era devastador: exasperado fugia, escondendo-me na segurança daqueles dias alegres da juventude; em um longo suspiro formulando a mentira verdadeira, com que, fantasiadas de si mesmas, as palavras ditas não sustentavam o sentido em devir dos acontecimentos.
 
E ao me aproximar do novo, apanhava-me, pelo largo distanciamento dessa curva invisível e acentuada, falando sobre coisas impossíveis de partilhar entre iguais. Foi assim que, negado e desmentido, fui atravessado por uma enxurrada de recordações e espantado abrir os olhos, enquanto os céus trovejavam todas as injúrias lançadas ao redemoinho das lembranças, aquela tristeza irrompeu como o relâmpago iluminando essa hora, e inundando meu ser de angustia.
 
Meu amigo, assim derradeiramente o céu estremeceu e desabou sobre mim, e o que o estrondo desfez e num alto clarão desnudou, pronunciando impiedosamente o que não podia até então escutar, mas ainda que a voz recuasse temerosa de tudo o que estava ao alcance das mãos, tudo ainda ruindo, partindo, quebrando entre os dedos, deixando-me mudo. Nenhum orgulho poderia ocultar as covardias despidas, todas as feridas nuas, restando apenas esperar.

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