Esse estrangeirismo pagão

 

Já tão estrangeiro dessas terras cristãs,
Já tão pagão, desses ritos de salvação e condenação,
Que sei de toda a arte de forjar contentas,
Em frágeis esculturas de santos e demônios,
À métrica dos dramas da vontade de suas almas imortais,
E fórmulas do querer,
As orquídeas de suas estufas,
As aves de seus viveiros,
Infernos e paraísos de além-mundo,
E depois, o tanto quanto louvam,
Ao transgredir as pequenas normas e tradições do viver,
A liberação para desejar, o seu livre-arbítrio,
Que sei eu do deus e do diabo dessas conversas,
O quão bárbaro e jovial soa toda pequenina fome de poderes,
Já tão apostrofo para consumir a carne desse deus,
Sob concretude de seus templos, as vergas de aço de um indivisível sujeito,
Se a bussola de toda ânsia aponta para o devir,
Todo sonho é uma nascente, e estuário, jorra do ventre firme da terra,
Através do diverso, navegar ao ritmo de todas as ondas e mares,
E nada de extraordinário há nisso,
Além da própria grandeza ínfima de cada coisa,
Dançar atroz ou calmo a lira da ordinária alma mortal,
E recaio sobre mim todas as dores e prazeres que me ousam,
Me transformam, quase dilacerando as fibras da permanência,
Como a dança típica da terra natal,
E como flama incandescente do sentido,
Se heroicos, os feitos ficam postos nesta mesa,
Na poética linguagem do mais íntimo,
E comem e bebem desta narrativa os amigos, a seu bel-prazer,
Como uma hospedaria em lugares distantes,
Como uma estrela-guia nos oceanos de além,
Entregamos-nos nus aos braços do acaso,
Grandiosas todas as dádivas com que os deuses nos devoram.

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Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

(Imagem: Pintura de Louis Jambor)

Ah, viajante noturno de minha ventura,
Tão longo e tortuoso é a jornada desta década,
Trazei consigo ainda talvez o derradeiro sopro de vida,
A última flama de fogo divino roubada dos antigos deuses de outrora,
Sob o uivo perene das quimeras ecoando distâncias intransponíveis,
E todos os áridos caminhos desde as fontes secas,
Rasgando aos poucos feridas no rosto e no peito,
Rachaduras na velha carne de barro seco,
Pleiteai para sempre um leito,
Uma hospedaria na deriva dos dias vãos,
Pleiteai para sempre um gole,
De mel e veneno nos braços do mesmo,
Neste mundo de semideuses,
E todos os amanhãs dormem um sono irreparável,
Mas ainda orai no segredo da língua mortal,
Por todos os dias santos,
Das fontes jorrando,
Do peito sangrando e o coração desmesurado,
Mas comedidamente, não saciai toda a sede,
Para não cair para trás,
E afogar-se nas águas escuras do passado,
Salvai-me do brilho cego de todas as laminas,
Que cantam suicídios,
Através das frestas do que foi quebrado. Continuar lendo “Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado”