Fenomenologia e existência: uma ruína

Nota: Sei lá. Estava relendo o caderno do último ano do curso de Psicologia encontrei esse pequeno rascunho, acho que tentava encontrar uma ponte entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, e entender o lugar da Clínica Fenomenológica.

O tempo que o artista dedica a contemplar uma obra, assemelha-se aquele em que qualquer pessoa contempla e produz/compreende sua existência.

Na verdade, variavelmente encontramos esse lugar o silêncio e a fala podem se encontrar, como uma ruína, no sentido de que uma ruína desdobra-se na temporalidade entre o que foi e o que virá:  não é mais e ainda é algo como uma casa, ainda não é e já é algo como um armazém. Nas lembranças, no entanto, a falas estão repletas de silêncio, e ao futurar os silêncios dizem algo, quer dizer, proximidades e distâncias se entrelaçam mais ou menos nítidas.

Uma ruína que visitamos para ter o privilégio de enterrar os mortos e parir os vivos: poder interpelar a finitude da existência, no entre da duração do que acaba e do que inicia.

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Sobre a escrita #2: Entre os dias e as noites de qualquer coisa, menos uma ficção.

(Obs: Estou construindo uma trabalho de revisão e edição de progressão gradativa a cada novo texto dessa série, quer dizer, no primeiro tópico fiz apenas uma revisão gramatical leve, e neste outro já introduzi alguns elementos de edição, a ideia é que ao final seja possível notar a diferença e a relevância de um trabalho de edição, e particularmente no modo como trabalho)

Foi apenas aos 20 anos de idade que a nevoa daquele limbo começou a se dissipar, e poucos foram os dias ensolarados antes disso, e poucos foram os amigos que estiveram lá, em meio a escuridão das noites intermináveis: aos 20, dei meu primeiro beijo, dormi com uma garota pela primeira vez, comecei a encontrar algumas respostas para o sentido da vida, comecei a gostar de algo em mim.

A mais de 10 anos ouvi o chamado e me entreguei a filosófica via de tentar compreender minha existência no mundo, e foi assim entremeando dentro e fora, que nunca impus grandes impasses entre teorias e práticas, desde os pré-socráticos que buscavam a essência das coisas que como Heráclito pareciam filosofar diante dos templos onde os deuses ainda viviam, até Nietzsche e a derrocada do homem sobre os ideais acerca de um deus univoco, desde o início tentei viver a filosofia que estudava como se fosse a coisa mais importante que fizesse na vida até então e por minha própria conta, independência e liberdade de pensamento encontraram um terreno fértil onde, alguns anos mais tarde, viria a florescer a escrita, e certamente assim foi, dado o limbo de onde vim em que algo perto de uma vida timidamente acontecia até então. Seria tão estranho se eu dissesse que o fato a depressão que me afundava num constante paranoia, tenha me seduzido a Filosofia e ajudado  de alguma forma a compreender os sistemas filosóficos, ao mesmo passo que a Filosofia me ensinou a não cair em suas “armadilhas”, também como me apaixonar pelas diferenças e através disso encontrar um meio de escapar dos labirintos da paranoia? Pode ser apenas o enredo bonito de uma história que gosto de contar para mim mesmo, mas de certo não está longe da verdade daquela época.

Mas talvez a mais importante contribuição em relação a escrita foi nessa época ter começado a acreditar e desenvolver a voz ativa de minhas ideias, e guiado por uma incansável curiosidade não ter vergonha de por em questão a verdade das coisas a minha volta e no interior. Deste modo, as andanças pelos rumos da existência que a vida me levou, foram e continuam a ser arrastados, embora de modo diverso, a compreensão de que tinha sim que experimentar as coisas e acontecimentos, mas igualmente debruçar-me sobre como havia acontecido. Essas eram as aventuras que esperava contar aos amigos.

Tentando não utilizar de termos técnicos para tentar traduzir, resumindo, as noites difíceis e toda a melancolia que desde que me conheço por gente esteve presente aqui, mas basta dizer, por ocasião, que foi ao seguir a correnteza desses ímpetos ao invés de impor ou aceitar algum limite que comecei amadurecer e assim cultivar, por assim dizer, algo para além de mim. Muito embora seja difícil traçar uma linha causal entre lá e aqui, essencialmente quando tento quase sempre pensar além da dialética e da mera causalidade. Não deduzir, por princípio, mas deixar ecoar em livre transito toda a multiplicidade de sentires nos lugares e tempos que todas as relações ofertam, através do que nos descobrimos e encobrimos no mundo. E diga-se de passagem, embora todo esse processo seja diferente de escritor para escritor, contar uma história, prescinde de uma boa diferenciação entre proximidades e distâncias, no sentido de verdade e mentira, contar uma mentira  é imensamente mais difícil que contar uma verdade, embora por isso mesmo requeira mais inventividade para sustentar essa mentira, mas como contar bem uma mentira , isto é como se fosse verdade, sem conhecer bem como é a verdade? Quase sempre quando me perguntam que tipo de história seria boa para começar a escrever, supondo que não exista nenhuma experiência anterior, respondo o seguinte: qualquer coisa menos uma ficção.

Perceber as distâncias e proximidades, assim o primeiro grande divisor de águas que tive de aprender a compreender para me aproximar mais de mim mesmo, sendo decisivo na formação da minha estética, foi a diferença na dualidade entre o estado de vigília e a sonolência. Hoje eu sei, embora tampouco importe, que sofro de uma grave de apneia do sono, mas essa designação nada quer dizer diante do cansaço, do ânimo arrastado, de tudo o que queria fazer, mas só tive a cada dia apenas umas 4 horas em pleno estado de vigília. Raros foram os dias diferentes disso. Não importa realmente se aqui havia uma nomenclatura para o sofrimento ou o motivo, a gente simplesmente lida com isso de algum modo antes sequer de haver uma ciência, e quando aquele estalo delirante para a criatividade na escrita chegou onde a via Filosófica havia apenas preparado o terreno, passei a escrever de um modo quando estava sonolento e de outro quando plenamente desperto.  Ao poucos seguindo a inspiração de a cada  vez em que me situava para ver, sentir, pensar, e escutando mais distintamente os ímpetos diferentes. Com o tempo a gente se habitua e deixa de ser estranhamento ou o próprio estranho abriga-se hospitaleiramente em nosso habitar, mas assim como deixou de ser uma questão aberta continuei a ir além.

Com toda a influência de escritores e filósofos que de fato trouxeram para a estética de seus estilos o dia e a noite, a criação e aprofundamento das imagens do dia e da noite surgiu de forma íntima na composição na estética do meu próprio estilo. Em verdade, hoje estão mais imagens-fontes ou imagens- fundamentos a partir dos quais começo a descrever uma relação com o mundo: assim como morte e vida, ou sonhar e lembrar. Deste modo essas imagens surgem em diversos sentidos, e não possuem a mesma fixidez que luz e sombra, assim como luz e sombra não possuem a mesma fixidez de carne e ossos.

Aos poucos a gente vai costurando nas entrelinhas das diferenças, e mesmo, porque não, descosturando, afinal, por mais colcha de retalhos que seja, existem os vazios deixados pelas coisas que se perdem e pelas coisas que ficam intocadas. Para ser bem sincero, por fim, não sei onde termina a descoberta de um estilo, e onde começa a descoberta existencial de um homem.

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Sobre a escrita #1: Os primeiros papéis

Há pouco tempo, estive idealizando um projeto sobre o processo de edição e revisão que faz parte essencial da minha escrita. E, além disso, foi algo que sempre gostei de fazer quando me pedem ajuda na hora de escrever. Mas depois de me dar conta que com meu próprio trabalho é algo que faço muito mais intuitivamente e ter tido muita dificuldade sem que obtivesse um resultado que valesse a pena ser mostrado. Resolvi escrever um pouco sobre algumas reflexões acerca de como a escrita surgiu na minha vida, desengavetando e ampliando um projeto mais antigo e devo publicar em uma série de 4 ou 5 capítulos.

Enquanto criança não fui realmente “estimulado” a escrever ou ler, além do seja habitualmente obrigatório por conta dos assuntos escolares, livros paradidáticos e coisas afins, não recordo de ter tido alguma experiência significativa com a literatura durante a infância. Mesmo em toda a adolescência nunca passei muito tempo diante de um livro, o primeiro grande livro que li foi Cem anos de solidão, numa circunstância completamente casual e já depois dos quinze. Próximo aos dezoito folheei pela primeira vez por conta própria um filosofando, mas pela enorme dificuldade de concentração, o que essa influência me trouxe foi mais de  impulsionar a dar os primeiros passos em filosofar sozinho.

Nesta época comecei a rabiscar meus primeiros poemas, e cheguei a criar um blog chamado de “Rios que voam”, embora não tenha muito que dizer sobre a qualidade, no geral eram de péssima qualidade apesar de todo o esforço, alguns deles foram escritos palavra por palavra durante muitos dias.

Obviamente muito do que a Filosofia me trouxe, e que marcou tão profundamente a minha vida, mas essencialmente essa reaproximação da linguagem, em todos os sentidos mais intimamente, foi o principal reagente, e já na época de curso surgiram alguns poemas bem interessantes e sinto muito carinho por eles, inclusive Os trabalhos do menino mateiro.

Já faz quase 7 anos que esse blog existe, mas apenas há 4 comecei a investir nele de fato. Esse tempo coincide mais ou menos com a época em que escrever deixou de ser algo esporádico e prescindido por aquele ímpeto de ter que tudo de uma vez ou caso contrário não ficaria bom, geralmente por conta da dificuldade de pôr os pensamentos no papel. Aconteceu que certo dia, cercado de muito sofrimento, acordei uma necessidade imensa de dizer algo a alguém, e ninguém estava lá, de fato ninguém, então comecei a pôr um pouco no papel, e logo em seguida voltava a dormir, constantemente vindo a pegar no sono em cima do papel e da caneta, e no mesmo dia ou seguinte sonhava com algo relacionado ao que havia escrito, ou apenas sonhava com outra coisa interessante, quando acordava, escrevia tudo o que podia e, o quão desordenadamente fossem os pensamentos não iam embora, cada vez com mais intensidade, rapidamente tornou-se um vício e um delírio absurdo, não havia mais nada além de sonhar e escrever, quando não restava mais nenhum canto em branco, jogava o papel no chão sem amassar e recomeçava em outro, ao ponto de cobri-lo e assim um dia comecei a caminhar sobre meus textos e poemas. Todos os tipos de sentimentos e sensações me invadiam, e pareciam falar por si, do ódio ao carinho, do tesão ao nojo. Entrei num surto criativo, por assim dizer. Ainda tenho os papéis dessa época, e neles ficou marcada toda a sujeira deste tempo, marca de pés, manchas de álcool, de comida, cabelo, insetos, cinzas, sêmen… E foi dessa mistura, que surgiu meu primeiro texto em prosa Da aranha e das águas da lembrança e o poema Flores negras. O delirante ímpeto de misturar e misturar-me a tudo isso foi, além da força motriz de meus primeiros escritos, o que me ajudou a distorcer tudo o que estava diante de mim, tudo o que não podia mais suportar, como só percebi mais tarde, mas de algum modo já intuía que estava também me salvando de ser destruído por toda aquela dor: ainda existe muito dessa experiência até hoje em meu estilo, mas na prosa poética de Excertos da noite mais do que escura, certamente deixei meu acerto de contas com esse “salto” até a escrita.

Apesar de não escrever, meus pensamentos sempre tiveram uma vida ativa e rica, assim como a imaginação fértil, não creio que positivamente, entretanto, para mim foi uma questão de sobrevivência, não havia quem me escutasse e assim aprendi a escutar a mim mesmo, o que me tornou frequentemente clarividente sobre o que estava sentindo, o que de algum modo manteve, talvez colateralmente também conteve, acabei por me tornar muito reto, com toda sinceridade e justiça de minha palavras e ações. Assim, não explodi quando mesmo talvez devesse, mas não podia. A escrita veio com todas as explosões que um dia contive, e mesmo trazendo a tona derradeiramente a capacidade de me reinventar. Mas ainda ocultou de mim, e manteve algo preso as profundezas desse tempestuoso mar. Mas ainda, nunca deixei de estar sozinho entre papéis.

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O obvio

    Às vezes me encontro sentado a essa cadeira, Duas cadeiras, eu-filósofo e eu-psicólogo, Frente a frente, Terceira cadeira: o poeta fica ao redor, Ensaiando algo no papel, Como um cartunista, nesses programas de debate, Me vem agora, o Roda viva, exatamente isso, Uma roda viva, Atirando de volta nossas esculturas pétreas, Atiradas ali mesmo contra nós, Mantendo sempre a roda girando, O psicologo … Continuar lendo O obvio

Solidificação

Precisamos do amigo, do amor, do outro, mas não dá para precisar ao ponto de sacrificar em si mesmo o amigo, o amor, o outro. Aqui talvez esteja a grande diferença entre empatia e compaixão, e o limite que tem de ser frequentemente confrontado, muito além das provas cobradas a si, e não mais que a si mesmo, é a partir destes riscos corridos para quase perder-se que … Continuar lendo Solidificação