Meu amigo, dia desses começou a chover

No inicio do ano escrevi uma longa prosa poética e que ficou sem um titulo e formato definitivo, devo ter reescrito umas vinte vezes como é típico de textos assim. Como se fosse uma carta de confissão a um amigo, e de fato era… mas enfim, acabei por publicar dois parágrafos (Equinócios e Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera) e acho que o resultado ficou interessante. Posteriormente penso num jeito de organizar isso melhor.

 

Meu velho amigo, dia desses começou a chover,
E na esquina da rua onde moro,
Nostálgica como a brisa fria,
Uma lembrança passou por mim correndo,
Eufórica, como relâmpagos no céu cinzento,
Coriscos entre as paixões extintas,
Pisando em poças e sorrindo,
Como se atirasse pedras em espelhos,
Naquele momento, embora não pudesse parar e conter,
Tudo o que aniquilei, para trazer de volta,
Como um cão vadio, magro e adoecido,
Saciando a longa sede, nas valas e meio-fio de todas as estradas,
Chacoalhei o agouro escarnecido,
Lavando as feridas, brindei excessivamente,
Toda a chuva, escorrendo através das bocas de lobo de minha alma,
E ao chegar em casa, encontrando comigo mesmo,
Olhando-me parado no mesmo lugar,
Os tempos se entrecortando,
Jorraram lágrimas incompreensíveis,
Enquanto uma frase pairou no ar vinda daquele tempo “não, eu não morri”,
Em meio ao desamparo dessa comoção,
Pressenti, o que fez curar naquela época,
Permaneceu atravessado de algo que precisou ser esquecido;
Vaguei pelas ruínas do inacabado e desaprendi a falar como antigamente,
Dizendo como se abandonando tudo no caminho. Continuar lendo “Meu amigo, dia desses começou a chover”

Metafísica dos espelhos

Para Baabi…

[…] Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses […]

(Fernando Pessoa – Ricardo Reis)

Como uma cidade,
Seus cartões postais ocultavam
Incontáveis injustiças,
E ainda que demorasse algum tempo,
Era impossível para mim não sentir,
O que ela sentia,
Como uma cidade…
Ainda que com dedos mais frágeis,
Que os falíveis olhares,
Descobriria a certeza áspera do concreto,
Sob a cor das paredes sujas de tinta,
E todas as obrigações para com a cartilha
De direitos e deveres da impaciência,
Deposto o tempo para o infinito atraso de ir onde for,
Na cidade que nunca espera,
E mesmo os rumores de um suspiro de alívio,
Exalta a ameaça abafada,
De falhar em ver, o tempo certo em tudo e todos,
E, assim, quanto esforço é preciso,
Para dizer, afastando de si todos os medos,
Ansiando fraquezas do que pode parecer,
Tornai-lo evidente em não ceder, pois, sobretudo,
Como uma cidade,
Não há tempo a espera. Continuar lendo “Metafísica dos espelhos”

O Ilusionista e o Elefante, ou O incêndio refletido nas águas

Atuar, Mentir, Inventar, Truque, segundo o qual, Fez o ilusionismo de sumir o elefante, Ainda que às vezes, com todos os silêncios e espelhos, Envolvendo ao redor, Resista em insistir, no elefante, E fazer sumir tudo o mais, E o que é o elefante? Sempre testando os limites, Era mesmo um elefante?.. O porte, a memória, o marfim, Não era um sistema? – o silêncio, … Continuar lendo O Ilusionista e o Elefante, ou O incêndio refletido nas águas

Atiradora de punhais

Tão logo você surgiu, Percebi que havia esquecido algo importante sobre mim mesmo, Mas não o quê…. Continuando a não lembrar, cresceu aquela agonia-por-de-trás-do-vidro, Pensei “ela é fantástica”, E soube no mesmo instante, Você também havia esquecido algo importante, Mas não quis te incomodar, Através do vidro, você estava se trocando, E se trocando através do vidro, Era mais frio do que deveria ser, No … Continuar lendo Atiradora de punhais

Às 6 da manhã de um dia chuvoso

Meu amor, às 6 da manhã de um dia chuvoso, As ruas estão quase vazias, e as poucas pessoas lá parecem outras gotas chuva, Precipitam, caem e escorrem, fundindo-se em poças, Que isolam-se uma das outras, Como meus pensamentos agora, Como aquela antiga tristeza.   Meu amor, às 6 da manhã, apenas chove e nada mais, O mundo inteiro parece inundado, Chuva, suor, lágrimas… Quem … Continuar lendo Às 6 da manhã de um dia chuvoso