Cantos noturnos (sobre os rios das almas)

(Imagem: Pintura de Émile Breton, intitulada Marais au clair de lune)
Penúltimo texto da série: Meu amigo, dia desses começou a chover

 
I
 
Caminhei por todas as partes, buscando nos bares e ares noturnos, algo como internar-me no hospício dos vícios abafando o movimento perpétuo, da maquinaria das culpas e responsabilidades. E pouco presenciei mais do que misérias; Ouvi pacientemente da rotina, sobre suas ocupações cotidianas. Como se vestisse eu mesmo o traje das ocupações, almejando escapar a métrica de seus labirintos. Estive na moleira dos gritos de guerra, no peito fechado de suas iras, confortando ou instigando, nos canteiros de todos os ideais, assistindo-os lavarem suas magoas interna contra as sujeiras e erosões do tempo, perdendo o fio do devir, e a beleza de amadurecer.
 
Também a encontrei tentando alcançar sua própria imagem, e hoje não sei dizer se algum dia a amei, se existiu liberdade para isso e, para além, parece que sempre foi tarde demais…
 
Talvez tudo isso apenas estivesse entre as coisas sem cabimento da vida, mas entristeceu… imensamente. De repente, larguei tudo e a tristeza funda e cortante fez rasgar todos os planos e direções, sopraram fortemente as saudades, movendo tudo, morrendo tudo, debrucei-me nos umbrais de tudo o que não pude, descortinando a espessura de tudo o que podia, e a esperança jorrou e escorreu nas paredes dessa casa dos ventos, como pássaros perdidos, se espatifam contra a janela, alheios a transparência.
 
Depois a espera caiu como a chuva fina e longa riscando timidamente a escuridão, num longo lamento como brilho alvo de laminas ofertando o languido corte de uma velha honestidade mesmo diante da ríspida obscuridade; e se, entretanto, retas e agudas, parecendo o choro da tristeza cantando a longínqua lira do coração, confesso dignamente em silêncio onde fala a dor com mais sinceridade. Nos confins de tudo o que resta, desvelando a ausência nos rastros luminescentes da presença, encontrando o refúgio de uma ternura antiga entrevada na decadência. Eis uma vida inteira… e talvez na maior dela parte viajei como um vulto entre sombras, e quando o cansaço finalmente derramou a tinta da melancolia pintou as flores negras de dor e abandono. Abri a mala senti um aperto estrangular, as coisas estavam cheias de lembranças vazias.
 
E então o temor não mais obscureceu a ausência de quem e quando eu mesmo estivesse lá, liberando a dor das obrigações de sustentar um sentido. Esse delírio desceu como um vendaval de distâncias intocadas, escancarando todas as portas, varrendo para longe todas as proximidades, arrancando de mim as lágrimas e os risos, devastando folha a folha toda secura, rachadura a rachadura toda ruína. Toda vida se esvaziou, deixando a solidão estar na ventania da noite angustiada. Mudas estrelas sonhando o frio abismo das ondas, afogando o som num ruído vazio. Sob o cansaço infinito, o naufrágio.
 
Se existe algo além de corvos nas sombras da noite, devorando todas as proximidades. Diz, meu velho amigo, como era o desenho do mundo antes da distância? Do pouco que tenho a dizer sobre o passado, havia algo, havia música como só há quando se sente a melodia quase nos partir, e depois o silêncio vasto, o esquecido, apenas fragmentos de lembranças sem sentido, desde então tudo pareceu se mover rápido demais, decaindo na escuridão de um afastamento; já outono, ouvi o suspiro da terra, a folha seca dança, senti algo morrer, quase sem ser notado. Algo inominável é triste e inalcançável. Talvez entre rascunhos, se perdeu a palavra e o tempo a dizer.
 
Amigo, também o profundo cansaço tem seu ocaso, assim nesta hora tão tarde, larguei as resistências, deixando as ultimas flamas apagarem e escuro entrar, e vaguei pela treva seguindo a luz condutora da ausência estuando pelos flancos desconhecidos do horizonte adiante, não obstante sempre tão desiguais o fogo das paixões clareando apenas o mais próximo, no interior do jogo de sedução como pétalas no exílio da flor, que importa se vontades ou anseios, erguem o esforço como um filho pródigo. Cegas de que tudo quanto chega, arranca e deixa um pedaço quando vai. Mas também o medo é uma curiosidade, ainda corajosa em sua busca hesitante, de outro modo apenas permaneceria em silêncio. E quando desesperado busquei reaver as antigas proximidades, acordei para o fato de que o sentido havia se perdido, e então a busca cessou deixando nos braços da ausência, deixando que cansaço me arrebatasse.
 
II
 
Cai, como quem vira as costas para o mar violento, e embola num turbilhão de ímpetos atrozes não mais contidos na forma de um sentido. Mas certa noite, a taça cheia de escuro líquido, oferece a luz de um estranho brilho, lá fora se arvoram as ânsias, frio o vento, a arrefecer a pele da alma, como oscilantes lençóis nos quintais. Tendo da noite, os alvoroços que por dentro a angustia emudece, algo persiste, indo e voltando incessante e lentamente seduz ao regresso. Já estive nesse lugar, posso vê-lo em sutis pressentimentos, as calmas e as fúrias, girando em torno e adentrando aos pensamentos. Encontrando e desafiando por um longo tempo, os limites do que um dia pensei ser, olhando, cheirando, medindo, se lançando ao céu infinito, como uma prece desejante de algo mais, aos desconhecidos deuses, amando exasperadamente a mudança como uma criança se sente ínfima desequilibrando ao descobrir a imensidão da noite estrelada, e subitamente apega-se a terra sob seus pés sem deixar de olhar para o alto.
 
E desses pedaços conjuga-se o novo sentido de um antigo, com o vento a ferir de folhas os lagos imóveis, como o oloroso incenso da presença, perfuma de tudo o que um dia feriu a alma. Devagar pedaços e rasgos, tocam a face do silêncio, asserenando os medos, avarandando a noite, invadindo o quarto, entrando em meu coração, com uma alegria desconhecida.
 
Vejo-me em outras noites como essa, mirando abismos, chorando em segredo, gozando a alegria solitária do pertencimento, incendiando fantasias, medrando jamais ser outra vez reconhecido, cansado, e cansando do próprio cansaço…
 
Sentindo o peito expandir e quase estourar enquanto aquietado de ternura pisava macio nesse chão, ouvindo a respiração da amada adormecida no abraço, ou mergulhando no suor por horas a fio galgando o prazer de gozar adentro o calor devasso misturando nossas seivas…
 
E da tessitura desses ventos silentes, desde a palma aberta, vasculhando incertezas.
 
Sigo as vibrações até o coração pulsante arrebentar o peito de íntimas alegrias e tristezas, por súbitos deslocamentos, navegar as nuances até o estupor, erguer se para ouvir a música. A melodia noturna.
 
Tudo esteve longe e perdido, assim também eu deixei me ser um longe e perdido. Bebi a noite, tornando noite, deixando que o vento frio fosse o meu sussurro, o luar minha dor, e a escuridão o meu grito,
E ainda fermentando na boca, a saliva de todo sentimento compartilhado no amor,
E com mais afinco nas conversas de entre lábios roçando e o hálito túmido de ardor,
Ouço escoar a melíflua seiva, desposando o antigo romance de uma harmônia,
Ocultas sob o véu de uma dor gritante demais para não afugentar aos quebrantos o que delicado nas coisas da alma,
Fundida à noite densa, compõe a trama, desvelando se à nuance de sombras e ecos,
Enquanto o feixe de violetas recém-florescidas,
Embotam no mergulho azul profundo,
A noite em seus segredos,
Esse silêncio escoa através de veredas antigas,
Como linhas trançadas longamente na descoberta do efêmero,
Mas o fogo é da mesma fibra que a carne,
E arde queimando, a ferida da intimidade –,
Clareia, ainda provisoriamente, a fonte dos anseios;
Isso é apenas um momento a cada vez:
Em que o sangue flui na luz,
E o coração fala sua linguagem própria, o amor,
Como um novo destino.

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William Turner, Shade and Darkness - The Evening of the Deluge

Temporais

 (Pintura de Willian Turner)
Da série: Meu amigo, dia desses começou a chover.

Meu velho amigo, como não lamentar? Se aos irreversíveis apenas conjuga-se dolorosamente em meio aos temporais.
 
Ainda quando entre nós pairam as cinzas das coisas desprovidas de vibração, como um vento fugaz que atiça as faíscas, adentra a morada e revira tudo que estava solto, desvela a solidão das coisas imóveis.
 
O inverno ainda estendia a bainha de suas longas vestes de chuva além do salão onde dançara por muitas semanas, como se fizesse questão de receber e mostrar a morada do mundo à estação recém-chegada, ainda sutilmente o calor do sol tocava as coisas, misturando-se e dissipando o calor dos corpos.
 
Foi durante uma tempestade de primavera, a primeira da estação, que despertei desse longo sono de abandono. Transbordando de ânsias, como os brotos da primeira leva de florescências primaveris, fragilmente desguarnecido na estranheza desse lugar estrangeiro, onde parecia haver chegado como um tronco que arrancado ao solo pela força da enchente das chuvas excessivas, segue carregado pela correnteza, e acaba por ser encontrado muito longe de onde dera por principio sua jornada através de sua queda, em outro lugar, em outra estação.
 
E mais do que tudo longo foi o tempo em que busquei a segurança das coisas que me enraizavam no solo confiável de uma distância intocada.
 
Todavia então, revirado e confuso até o âmago de meu ser, as flores intempestivas brotaram belas ainda que frágeis, e o vento forte e ameaçador também nutria os coriscos de um fogo redentor. E, tendo sido convidado a apresentar um trabalho, lembro claramente como naquela noite, entre diversas injustiças tão palpáveis, chegou até mim o ocaso, e enquanto se iniciava minha fala sobre a tradição e criação, a tempestade se impôs em toda sua plenitude.
 
Enquanto discursava, sem notar minha voz afinara-se ao trovejar, e seguramente quando levantei os olhos, juntamente meu espírito se elevou para vislumbrar o céu desse instante, e como se intimamente contemplasse no relampejar a respiração de uma potencia tão oculta quanto os deuses naquela noite, pressenti no estrondo o ruído de minha queda, assistindo o esgotamento transparecer nas nuvens o raios como as veias e nervos disto que por dentro insuflava-me as vísceras até esse insustentável limite: e um longo e profundo incomodo me atravessou. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti em um longo deslocamento o próprio do dizer desencaminhado da vida.
 
Mas como naquele instante reencontrasse a mim mesmo, hesitante, procurei como sempre algo de familiar entre os rostos desconhecidos. Ficando a espreita nas beiradas de formular uma decisão: Sob a pele desse instante vasculhei além, buscando nos arredores da estreiteza em todos os caminhos por onde andei nesses últimos anos, no entanto, sem espanto, tudo parecia o mesmo. E então, a encontrei. E possesso dessas forças excessivas continuei a discursar e apenas aos poucos transpareceu a contradição. Nesse enleio percebendo que ela também me notou, fiquei ali parado diante da branca hesitação em seus olhos, revirando-se para o fundo seguro com que se estabelecera ao redor dos meses, mostrando que aprendera a largar o antigo apego conquistando o alheamento de agora, me comunicando que a história fora forçosamente apagada pois assim era possível, e me pareceu triste mais do que justo que também eu por muito tempo o fizera, e na imposição desta força estava circunscrito uma história ainda mais antiga e hedionda, e da qual apenas lutamos longamente pelos espólios de sua miserável herança, e bem antes de nós e de outros companheiros que tivemos, distantes antepassados já nutriam o mesmo fastidioso orgulho. No entanto, o único fato que para mim naquele instante apareceu pesado e claro, foi o seguinte: éramos amigos…
 
Quando tudo acabou, apenas recuei atônito. E para ainda mais longe deslizei no tempo em que permaneci alheio a tudo e todos, conquanto ainda falasse e ouvisse eloquentemente sobre as coisas: e essencialmente quando alguém me reconhecia, o efeito sobre a minha calma era devastador: exasperado fugia, escondendo-me na segurança daqueles dias alegres da juventude; em um longo suspiro formulando a mentira verdadeira, com que, fantasiadas de si mesmas, as palavras ditas não sustentavam o sentido em devir dos acontecimentos.
 
E ao me aproximar do novo, apanhava-me, pelo largo distanciamento dessa curva invisível e acentuada, falando sobre coisas impossíveis de partilhar entre iguais. Foi assim que, negado e desmentido, fui atravessado por uma enxurrada de recordações e espantado abrir os olhos, enquanto os céus trovejavam todas as injúrias lançadas ao redemoinho das lembranças, aquela tristeza irrompeu como o relâmpago iluminando essa hora, e inundando meu ser de angustia.
 
Meu amigo, assim derradeiramente o céu estremeceu e desabou sobre mim, e o que o estrondo desfez e num alto clarão desnudou, pronunciando impiedosamente o que não podia até então escutar, mas ainda que a voz recuasse temerosa de tudo o que estava ao alcance das mãos, tudo ainda ruindo, partindo, quebrando entre os dedos, deixando-me mudo. Nenhum orgulho poderia ocultar as covardias despidas, todas as feridas nuas, restando apenas esperar.

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Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

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Como a caminho de Ítaca

(Pintura de Peter Ilsted)

Minha amiga,
Que olhos, cheios de ilusão,
Suportariam ver, ao adentrar e encontrar-se, reles ossos,
Ao devastado silêncio dessas ruínas,
Que vento terrível, sopra o ar,
De todas as mortes insepultas,
E também as flores,
Que sozinhas, brotam em áridas e pedregosas paisagens,
Também tampouco recordamos,
Como um dia, adentramos ao mundo como da pequeninos deuses,
Na infância,
A partir do que, não atravessam ilesos os ramos,
e os esporos luminescentes de esperança,
Vagando entre sombras de estrangeira distância,
Ainda que como nós, continuemos sonhando tristemente,
Se a noite é um arrebol escuro e vazio,
Onde todas as coisas apenas retiram-se o silêncio,
Do impossível “quase”,
 
Ainda que como nós, e…
Como silenciamos, ínfimos, quando a claridade,
Derrama o sereno ruído de todo o sentimento,
Espargindo na alma, o canto agudo como a natureza de lá fora,
Se o vento arvora-se, farfalhando, e assim conversa com as folhas,
E os pensamentos mais altos e sábios em nós parecem sentir mais uma vez o frescor e assanhamento da primeira descoberta,
Ou se a chuva cai, e misturando o cheiro do céu e da terra,
As alegrias e tristezas interpenetram nossos pensamentos, como o turbulento rio, que ressurgisse dos subterrâneos, encharcando além das margens,
E, ao entardecer, com qual deslumbrante policromia vibram nos céus,
Levasse-nos ao êxtase do embate as luzes e as sombras da vida diante do que ficam em suspenso nas incertezas o que um dia se soube tão bem,
Naturalmente, parecem, os deuses de antes ainda se movem,
Ainda tão incrédulos, timidamente desprende-se a fé,
Como se em nós a criança de lá fora, ainda distraidamente crédulas,
Nessas horas amenas, e em que a serenidade convida-nos ao silêncio de uma oração,
Dirigimos-nos ao santuário de tudo o quanto pode haver de sagrado,
Qual lira toca o impossível regresso,
Ao coração selvagem de tudo,
E ser demora uma estação,
E então, e tudo de lá fora até mesmo em nós, sem cerimonia adentram a morada,
 
Deveras esse sonho em que tua presença aproxima-se,
E volto a acreditar na violenta força das tempestades,
Acredite no poder na possibilidade de mudança,
Onde se vê nesse devir do ser do humano um dever para com o ser em si,
E isso já me basta para sentir invadir-me a tua proximidade,
Tal como é o amor por tua amizade,
Talvez apenas pelo momento em que, nalgum tempo,
Consumou-se em nossos espíritos,
 
Bem sei, todavia, que o delírio desse horizonte não queima toda a febre da fantasia,
Mas se o menos por um instante me perco,
Deixo-me transcorrer da esperançosa revoada,
E sinto que entre nós confundem-se o bater das asas,
Voam aos céus as promessas que me rogo ao coração meu,
E deve ser o mesmo no coração teu, até quando se distinguem,
De ser um eu a sós, e por vezes o que sustenta,
Também me falha como o peso a voz,
Em uma tristeza da qual ainda vi amanhecer o brilho de um olhar cativado,
Anoitece,
 
Às vezes, ao contrário, não sentes que as palavras te enganam?
E por mais sentido tenham no enredo de uma prosa,
Ou na lógica de um ideal,
Destaca-se ao fundo, o vazio de algo que se esquece ao se sair apressado,
Parece que o sentido que verdadeiramente nos alcança se perdeu,
Na plumagem dos dias, e voando alto,
Plainamos, intangíveis, sem pouso,
Que o céu infinito em que o delírio poético se lança,
Almeja mais uma vez, a queda,
Mais uma vez, esfregar os pés na terra,
E sentir na pele o sentido áspero e fértil,
Da vida tão perto da morte,
E assim, traímos-nos, inventando o possível chão,
 
Assim bem sei, ainda que o sonho,
De acolher a flor perfumada de ânsia,
De teu coração,
E isso me escapa entre os dedos de toda a vida,
Que em nenhum sulco inscreve-se teu nome,
Da palma de meu destino,
Mas como se por um fugidio instante ousasse,
Soprando a brasa com todas as forças escassas do peito,
Tocasse os fios de teu cabelo negro,
Quando a noite ainda tece sua trama na penumbra,
Do que não se vê e também não desaparece,
E depois a boca tua diz,
Deixando no ar,
Apenas a palavra,
Deixando o largo estreito desguarnecido,
De que as estações vindouras,
Extraviam-se do caminho,
Disfarçando-se de sonhos,
Tão distante de tocar o possível,
Como o amor fantasia-se de paixões,
Nos bailes da vida,
E se perde sob a máscara,
Assim o futuro desvanece,
Como os deuses na obscuridade,
 
E o fumo do embaraço de ser eu a solidão tacitamente,
A cada trago,
Sufoca na bagunça do sentimento descabido,
Vigoro-me ante ao espelho das coisas tão crédulas de mim,
Junto ao sagrado findar,
Presos a opacidade de tua ausência,
 
Odeio caudalosamente,
À tarde triunfal da alma,
Que calorosamente abençoa-me a solidão,
Tão clara de tua ausência,
 
Deixe-me sê-lo sorrateiramente,
O impossível resguardado pelos mistérios de não saber,
Através bruma perfumada que sinto sem ver…
Sempre tão tarde, justo quando se perde,
Fere a luz de um farol…
E se esfuma todo remorso,
 
Mas imensa é a falta que você faz na minha vida,
Minha cara amiga… Continuar lendo “Como a caminho de Ítaca”

Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera

(Excertos do texto inédito, Dia desses começou a chover)
 
Mas calma, é lentamente que a bruma áurea se dissipa ao entardecer de todas as coisas. E enquanto de seus esporos luminescentes de lembranças nascem as estrelas nuas de tristeza, e interrogam onde ainda bate verdadeiramente o coração. Meu irmão, se nesse silêncio ouço escoarem para longe as vozes serenas que acima de tudo se cativam do brilho das estrelas.  Adentro ao silêncio dos ermos, vento frio a levar-me a presença de mim embora, e na clareira dessa ânsia, atravessa-me o espinho, como se cultivasse em segredo, um jardim a beira do abismo. E lá, alheio ao conflito entre ideias e emoções, e a ameaça de cair no vão sem fundo, inesperadamente o coração sonha como se brincasse e tocasse o próprio sonho, mas como é possível? Como perdeu-se essa linguagem tão íntima? Se era tão claro ainda agora? E tão estreita a cerca entre esses vizinhos? Amigos? Irmãos? Traduzir-se é, dessa longa e ininterrupta conversa entre sentir e pensar, espantosamente dizer a verdade.
 
Aqui, neste lugar, onde livre de obrigações e contentas, abandonar-se ao acaso, é de súbito dar-se conta do cansaço. E como a bagagem que se lança em algum canto, em casa, após uma longa viagem, e vai desfazendo-se ao longo dos dias, a alma transcorre turbulenta como um rio, liberando as tensões através das pedras e coisas imóveis no caminho. E o coração como um animal selvagem, aproxima-se para beber das fontes e farejar os rastros do estranho. E não havendo nenhuma outra travessia, nenhuma queda, as luzes, os ruídos, do mundo e das cidades, perturbam a tarefa do artificie curioso da nova invenção. E as dores dos caminhos, estendem-se nuas sob o céu, e interrogam os infinitos de além, ao apagar das luzes.
 
O quão cedo acendei-as novamente, o quão cedo tocai todos os sons, perfumai teu cheiro, fascinais do novo, e alimentai do pão das presenças, ocupando a demora, tão brevemente surge a fome cheia de ausências, os pés maltratados e as costas queimadas não deixam dormir, não deixam se encontrar em meio a bagunça.
 
Quando os ecos aproximam-se do silencio aberto, e magoam as feridas com o sal das estradas, a velha linha do destino aperta o nó e vibra, entoando a lira da tristeza. Quantas ausências, quanta solidão, e o espírito vela solta, farrapos e fiapos, flamula no ancoradouro.
 
Despertamos para a noite, longe do escuro alegre do trabalho, em que sumimos em meio a tecedura, e apanhar-se só com a rede desses pensamentos ressoando sentimentos febris, quando por fim estendeu-se o tapete desse deserto? Ou sempre esteve? E o ouvido afinado, apreendeu a descortina-lo? Através miragens esperançosas e consoladoras? Mas o que é, então, insuportável? Por onde esse espinho penetra ainda mais fundo a carne?
 
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