Alma em partículas de poeira (Versão 2)

Enfim comecei a realizar o meu maior projeto para este ano, selecionar, revisar e editar todas as publicações já realizadas no blog. Confesso, foi uma alegria especial sentir o peso nas mãos meus poemas impressos. Acho que a gente nesse meio virtual perde um pouco da noção daquilo que faz, até ter diante de tantos sentimentos e pensamentos diversos postos diante de si…
Começando daqui pretendo publicar as novas versões daqueles textos e poemas que sofrerem uma grande mudança. O primeiro trabalho, talvez seja um dos mais difíceis que devo enfrentar, devido a transição de tonalidades na mistura de sentimentos: Honestamente apesar de ter sido uma experiência enriquecedora tive de me dar tempo algum tempo e juntar forças para revisitar esse leito de prazer e sofrimento.

 

PRIMAVERA NO QUARTO ABAFADO

I

No alto da tarde do despertar de um dia,
Respingavam no quarto os restos infames dos últimos raios de luz solar,
Com a vida, toda despreocupada, exibindo-se na infância tardia destes eventos,
Já tão longínquos ao alcance do olho,
Todas, todas as cores queimavam em brasa, lentas e brandas,
E tínhamos prazer em jogar os jogos nas cinzas ao vento,
Seguindo o retorno ébrio do deus em partículas de poeira,
Na cama morna daquele derradeiro facho de luz.

II

Olhos,
Impávidas janelas fechadas,
À plena luz de um dia,
Assistindo as sombras dançarem,
Através da translucidez,
De vermelhas cortinas,

Lábios,
Promessas cerradas,
Mordendo todas as formas,
Com dentes trincando de orgasmo,
Jorrando aos céus de um bolero lilás,
Semeando estrelas, nos úmidos mistérios,
Duma língua obscura,

Os deuses movem-se todos,
Espargindo nas paredes as luzes desarvoradas,
Um mar de esporos luminescentes,
Fingindo todas as mentiras imóveis,
Coladas a retina,

Frágil e irresistível dogma dessas crenças,
A luz esconde um limbo,
De alma nossas almas despedaçadas,
Arrancadas pelas frestas e lançadas ao ar,
Pairando como partículas de poeira,

Dia após dia,
Mastigando as pétalas de cada sentimento,
Com a mudeza de um assombro,
Destilando um caldo escuro,
Vísceras expostas,
Tão nus e apodrecidos,
No leito de azaleias, calêndulas e bétulas,
Despetaladas e secas entre o zunido de moscas,

Oferecendo nossos restos a fermentação de um deus,
Em troca de alguma benção,
E os laços remanescentes,
Na fumaça do oloroso incenso:
Dores, perfídia, cinismo, e, sobretudo –,
Cheiro de primavera no quarto abafado.

Original: Alma em partículas de poeira

Continuar lendo “Alma em partículas de poeira (Versão 2)”

Como a caminho de Ítaca

(Pintura de Peter Ilsted)

Minha amiga,
Que olhos, cheios de ilusão,
Suportariam ver, ao adentrar e encontrar-se, reles ossos,
Ao devastado silêncio dessas ruínas,
Que vento terrível, sopra o ar,
De todas as mortes insepultas,
E também as flores,
Que sozinhas, brotam em áridas e pedregosas paisagens,
Também tampouco recordamos,
Como um dia, adentramos ao mundo como da pequeninos deuses,
Na infância,
A partir do que, não atravessam ilesos os ramos,
e os esporos luminescentes de esperança,
Vagando entre sombras de estrangeira distância,
Ainda que como nós, continuemos sonhando tristemente,
Se a noite é um arrebol escuro e vazio,
Onde todas as coisas apenas retiram-se o silêncio,
Do impossível “quase”,
 
Ainda que como nós, e…
Como silenciamos, ínfimos, quando a claridade,
Derrama o sereno ruído de todo o sentimento,
Espargindo na alma, o canto agudo como a natureza de lá fora,
Se o vento arvora-se, farfalhando, e assim conversa com as folhas,
E os pensamentos mais altos e sábios em nós parecem sentir mais uma vez o frescor e assanhamento da primeira descoberta,
Ou se a chuva cai, e misturando o cheiro do céu e da terra,
As alegrias e tristezas interpenetram nossos pensamentos, como o turbulento rio, que ressurgisse dos subterrâneos, encharcando além das margens,
E, ao entardecer, com qual deslumbrante policromia vibram nos céus,
Levasse-nos ao êxtase do embate as luzes e as sombras da vida diante do que ficam em suspenso nas incertezas o que um dia se soube tão bem,
Naturalmente, parecem, os deuses de antes ainda se movem,
Ainda tão incrédulos, timidamente desprende-se a fé,
Como se em nós a criança de lá fora, ainda distraidamente crédulas,
Nessas horas amenas, e em que a serenidade convida-nos ao silêncio de uma oração,
Dirigimos-nos ao santuário de tudo o quanto pode haver de sagrado,
Qual lira toca o impossível regresso,
Ao coração selvagem de tudo,
E ser demora uma estação,
E então, e tudo de lá fora até mesmo em nós, sem cerimonia adentram a morada,
 
Deveras esse sonho em que tua presença aproxima-se,
E volto a acreditar na violenta força das tempestades,
Acredite no poder na possibilidade de mudança,
Onde se vê nesse devir do ser do humano um dever para com o ser em si,
E isso já me basta para sentir invadir-me a tua proximidade,
Tal como é o amor por tua amizade,
Talvez apenas pelo momento em que, nalgum tempo,
Consumou-se em nossos espíritos,
 
Bem sei, todavia, que o delírio desse horizonte não queima toda a febre da fantasia,
Mas se o menos por um instante me perco,
Deixo-me transcorrer da esperançosa revoada,
E sinto que entre nós confundem-se o bater das asas,
Voam aos céus as promessas que me rogo ao coração meu,
E deve ser o mesmo no coração teu, até quando se distinguem,
De ser um eu a sós, e por vezes o que sustenta,
Também me falha como o peso a voz,
Em uma tristeza da qual ainda vi amanhecer o brilho de um olhar cativado,
Anoitece,
 
Às vezes, ao contrário, não sentes que as palavras te enganam?
E por mais sentido tenham no enredo de uma prosa,
Ou na lógica de um ideal,
Destaca-se ao fundo, o vazio de algo que se esquece ao se sair apressado,
Parece que o sentido que verdadeiramente nos alcança se perdeu,
Na plumagem dos dias, e voando alto,
Plainamos, intangíveis, sem pouso,
Que o céu infinito em que o delírio poético se lança,
Almeja mais uma vez, a queda,
Mais uma vez, esfregar os pés na terra,
E sentir na pele o sentido áspero e fértil,
Da vida tão perto da morte,
E assim, traímos-nos, inventando o possível chão,
 
Assim bem sei, ainda que o sonho,
De acolher a flor perfumada de ânsia,
De teu coração,
E isso me escapa entre os dedos de toda a vida,
Que em nenhum sulco inscreve-se teu nome,
Da palma de meu destino,
Mas como se por um fugidio instante ousasse,
Soprando a brasa com todas as forças escassas do peito,
Tocasse os fios de teu cabelo negro,
Quando a noite ainda tece sua trama na penumbra,
Do que não se vê e também não desaparece,
E depois a boca tua diz,
Deixando no ar,
Apenas a palavra,
Deixando o largo estreito desguarnecido,
De que as estações vindouras,
Extraviam-se do caminho,
Disfarçando-se de sonhos,
Tão distante de tocar o possível,
Como o amor fantasia-se de paixões,
Nos bailes da vida,
E se perde sob a máscara,
Assim o futuro desvanece,
Como os deuses na obscuridade,
 
E o fumo do embaraço de ser eu a solidão tacitamente,
A cada trago,
Sufoca na bagunça do sentimento descabido,
Vigoro-me ante ao espelho das coisas tão crédulas de mim,
Junto ao sagrado findar,
Presos a opacidade de tua ausência,
 
Odeio caudalosamente,
À tarde triunfal da alma,
Que calorosamente abençoa-me a solidão,
Tão clara de tua ausência,
 
Deixe-me sê-lo sorrateiramente,
O impossível resguardado pelos mistérios de não saber,
Através bruma perfumada que sinto sem ver…
Sempre tão tarde, justo quando se perde,
Fere a luz de um farol…
E se esfuma todo remorso,
 
Mas imensa é a falta que você faz na minha vida,
Minha cara amiga… Continuar lendo “Como a caminho de Ítaca”

Pérola

(Imagem: Pintura de Eric Roux)

Era
Ainda tão cedo,
E suave,
O sentimento
Soprava como um vento veloz,
E com asas nos pés, acho, corríamos
Ou voávamos?
Tentando alcançar
As sementes de dente de leão,
 
No rastro de luz de tua lembrança,
Ficou a indelével impressão,
De existir, algo de sério e delicado,
Para se colher no vento, com cuidado,
 
Mas correndo e tropeçando,
Na penugem dos encalços,
Desconhecendo o maduro ofício,
De dar nó em cadarços,
 
Foi embora tristemente,
Quando tua mãe te abandonou,
Mas antes me fez prometer,
Por meu próprio bem, esquecê-la,
E como que vindo de tua voz rouca e serena,
O vento soprou impetuoso como nunca antes,
 
E hoje já não sei
Em qual claridade
Tão alva e doce,
Ofuscou-se a ternura,
De teu colo morno,
 
Cumpri, e quase tudo se desfez,
E tudo o que endureci, fechou-se sobre isso,
Mas na concha das mãos
Segurei firme algo além dessa promessa,
Não deixei ir, não pude,
E como a semente de dente de leão,
Caiu no esquecimento,
Mas brotou-se, florescendo,
Pétalas de pura madrepérola,
No raio de luz dos dias. Continuar lendo “Pérola”

Meta-morfose

Há tanta distinção nesse céu azul, Distinção… Distinção… Deixada as sobras da noite densa, Reina vagarosamente um olhar de pássaro Pairando o voo sem pressa, como que enamorado, Antes fosse um planador sem pouso, Talvez pudesse ouvir do tempo: Que a cada amanhecer viria um flautista, Acordar a infância de olhos doces e febris, Como agora, E fazer essa brincadeira, Esse jogo de nada conhecer, … Continuar lendo Meta-morfose