Pintura 24 por SUDOR

Uma garrafa envelhecida

Dedicado ao meu bom amigo Joabe, que sugeriu e participou indiretamente da construção.

 

Então ela vai embora,
Deixando as paredes em chamas, queimando tudo,
Depois cinzas e o silêncio dos quartos estranhamente vazios,
A salvo apenas a adega,
Destilados e fermentados, e,
Uma garrafa que guardou durante anos,
Algo que sobrou de uma festa,
Salvou de um beijo,
Guardou de uma foda meia boca,
Às vezes com uma dose,
De cada vez que não a abriu,
Pensando consigo mesmo,
“Na próxima vez será melhor”,
E aquele Vinho ou Whisky,
Guarda um pouco de tudo,
Tudo quanto se amou uma vez,
 
E no escuro dessas horas,
Sentado na noite, comendo os restos da semana,
Do mês ou dos anos, com uma fome,
Que comeu também a embriagues e o doce,
E o ardor, e a beleza,
 
Nas tardes horas,
Em que as portas, lentamente,
Depois de tantos anos,
Finalmente se fecham,
 
E a honestidade,
Deixando a noite entrar,
Apagando as luzes medrosas,
Dos olhos,
Abre a garrafa,
E sente o cheiro
de vinagre,
 
A coisa toda da podridão,
E farrapos, cacos,
Sacos vazios,
 
Lá fora a loucura dá risadas,
E taca uma pedra,
E mais,
Muito mais que uma vidraça se quebra,
Até que ela caia na cozinha,
 
Mais uma longa noite,
E amanhece,
A luz do sol bate no rosto,
Escorrendo como um líquido quente
Derramado na cara gelada,
Enchendo o vazio dos olhos,
 
Há algo lá fora, há algo lá fora,
A loucura por dentro taca outra pedra,
Abrindo a garrafa,
 
Caminhando pelos restos de uma vida,
Abre a porta mais uma vez,
Abrindo a garrafa,
E dá um gole quente,
Um gole ardente,
Toda revolta súbita de um pouco de alma. Continuar lendo “Uma garrafa envelhecida”

PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO (Revisão)

Mais um texto desse projeto de revisar/editar tudo o que foi postado aqui no blog, dessa vez só fiz alguns cortes e reescrevi algumas coisas. Não é uma grande obra, mas tem algumas coisas interessantes, além disso me recorda bastante da época em que comecei a escrever algo com o pensamento voltado para o blog, talvez reaproveite melhor mais tarde.

Texto original: Pelo campo aberto, indefeso da chuva

 

PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO

Faz algum tempo,
Tenho me pego indefeso nesse sentimento,
De tê-la aqui por perto,
Não apartado da coragem,
De ir, por exemplo, ao seu encontro,
Mas há esse trôpego afastamento,
Essa hesitação em conciliar,
Pairado fronte ao acorde indecifrável de sua esfinge,
Esse olhar que isola e não defende os seus,
 
E é assim, indefeso, solitário, confuso,
Mas tão livre quanto possível,
Que me deixo estar para certos sentimentos,
Que de outro modo pareceriam sem cabimento,
Quando, cabimento,
É uma exigência mui forte,
Ao rearranjo das coisas desapegadas do todo,
Todo totalitarismo de tempos confusos,
Com isso, se aprende a cultivar ingenuidades escondidas,
Em porões úmidos,
Como, com tudo e apesar de tudo,
Estar apaixonado,
Quem sabe futurando uma revolução:
O amor,
 
E quase sempre,
Com essa voz poética,
De silêncios e madrugadas,
Minhas olheiras, minha barba torta,
E a ternura perene deste tom,
Acinzentado, sofrido, solitário,
E, com tudo, ainda muito criança,
Já a vejo dizer, que me amou por isso,
Numa estranho dialeto, diferente do meu,
Mas presente na mesma linguagem,
Sei que vou sorrir,
Ainda mais do que estou sorrindo agora,
E ela terá paciência de me ensinar aquele riso perdido,
Ensolarado?
 
Desviei o olho para um canto,
Imaginando seus medos, suas fúrias,
Suas tristezas, o que é difícil de dobrar,
Esquivando do tanto que é bela,
E há em mim este esteta egoísta que se prende as aparências,
Mas me solto disso,
Para ver a beleza além da beleza,
Na delicadeza dos detalhes,
Navegar nisso, quantas vidas seria preciso para ir além?
E na dureza com que as suas próprias mãos tolhem as palavras,
Percorrendo até a honestidade do sentido,
Até o sem pudor do desejo,
Outro algo em mim ama essa coragem,
E há coragem por aí, mesmo que chegue furiosa,
Pois sinto por ela a mais profunda amizade,
Eu que desde cedo tive de arrumar um jeito,
De conviver com minhas próprias estribeiras,
Contra toda vontade de liberdade,
 
Ver o sempre-verde daquelas loucuras que você mais ama em si mesma,
E eu que quero tanto dar razão aos loucos,
Imagino remédios assim, e de nenhum outro tipo,
Além do que não somos mais donos,
De que obedientes de nossas paixões,
Caindo por todo canto como se chovesse,
Um tanto do atrevimento, e o viso dessa flor vermelha,
E tento delinear os contornos destas boas vindas,
Para tudo que for seu,
Na obrigação de uma luta porvir,
Mas, talvez seja melhor calar agora,
E não deixar que essa ânsia corra sua pressa,
Pela vida toda que se estende adiante,
 
Ademais, indefeso nisso,
Mais profeta e sonhador que tudo,
Muito embora, agora, já esteja mais próximo ao todo,
Vou devagar,
Cobro a mim essa lentidão no espírito,
Amanhã, quando amanhecer,
O campo vai estar encharcado,
E muito do que foi arrastado pela correnteza,
Estará a mostra,
Marcas do tanto que foi,
E mais vida vai brotar disso,
E temos de ir além,
Impiedosamente rumo a outros dias,
Outras manhãs ainda mais belas,
E noites ainda mais terríveis,
Do que essas.

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Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

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Lutando contra as misérias do cotidiano

A notícia de que estava longe chegou tarde, e não faria diferença, como sempre foi, como é preciso que seja. Perceber é infusão entre o cedo e o tarde demais, grandes elos corroboram a ancorar, os mesmos anelos que fazem desistir e voltar atrás. Tão raro é o momento exato de transposição. Mergulhar ou flutuar, manter-se temporariamente alheio a toda poderosa força que faz o caminho, permite … Continuar lendo Lutando contra as misérias do cotidiano