Solidão (Revisão)

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.

Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,

Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.

Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.

II
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Coração ressonante

 

Todos os sons,
Dos lírios secretos das ondas,
Espumando gritos submersos,
Como conchas florescendo,
O brilho de suas pérolas,
 
Ululantes solfejos
Soprando tão cálida brisa primaveril,
A degelar o invernal sono de esquecimento,
 
Todo o som, da tua presença,
Toda a música,
Que vibra quente em tua voz,
Quebrando antes do fim,
E tornando a começar mais uma vez,
Ao ritmo do coração ressonante,
Como chuva na lagoa,
E a alma transbordante,
Do sorriso sublime,
 
Gemidos deslizando na ponta dos dedos,
Harpejo-cafuné nos harmônicos de teus cacheados,
Luz e sombra teus olhos e todas as bocas,
Sons,
Todos os sons,
Todos todos todos,
Irremediavelmente…
O infinito da criação,
Nas curvas dos nossos acasos,
Todos, todos os quilômetros,
Dos meus sonhos até ti!

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O guarda chuva

Da série: Meu velho amigo, dia desses começou a chover…

Quando de repente, a chuva recomeçou,
Já aquietado no recanto sereno do azul,
Tecendo a trama despropositada das nuvens passageiras,
Encontrei-me perdido em meio às pequenas e inefáveis coisas,
Tarde para esquecer, cedo para lembrar,
Tão descabidamente largo,
A reencontrar tudo inesperadamente mais estreito,
Nada poderia dizer,
Com olhos que, saídos da escuridão,
Ofendem-se com a menor claridade,
Descrente e cuidadoso,
Sofrendo as intempéries dos prados de tão curta visão,
Desde então, estive a questionar:
Quais desses espelhos esconde o sumidouro de ir adiante?
 
E ainda que persistisse, caminhando por aí distraído,
Tropeçando na hesitação, vacilante de uma medida,
Toda a vez que abro o guarda-chuva,
Saindo do abrigo provisório e angustiado,
Me interrogo: o que esqueci para sobreviver?
A cada vez ao abrir esse luto, resguardando-me às incertezas do céu desabando,
Me pergunto, tristemente, o que deixei ou nunca reparei,
 
Sigo fugindo, por onde esses deuses ocultos me impelem,
Delirando em febre, e quão longo foi o tempo,
O corpo ardendo é lançado através do regresso,
Tateia algum sentido tremulo de toda desmesura,
De uma grandeza ínfima e descabida, recolhe-se,
E todas as distâncias parecem ter textura de um arrepio,
Mas há algo, sim, farejo o céu solvido na chuva que sinto mais do que vejo,
O tempo escorre nas margens que não ouso transpor,
Contudo, insinua-se incessantemente, ao ressoar a música pluvial,
 
E tal como sob o guarda-chuva,
Fechado para a intempestividade,
Agarrei-me a haste,
Como quem segura firmemente a flor da despedida,
Apegado a terra conhecida,
Recolhido sob o tecido impermeável e breve,
De um estreito véu estendido contra o infinito,
Desesperadamente tentando reconhecer aos traços fugidios,
Todavia, tudo se refaz com a estação chuvosa,
Como um rio morto que renasce do subterrâneo,
 
E em dias assim, ouvindo o alegre murmúrio da chuva,
E o silêncio apático da estiagem,
Parece que esse incômodo ruído ao fundo denuncia:
Caímos sempre na indigência do mundo,
Lançando-nos no em suspenso de um caminho,
De saltos e pontes, assegurados por onde andar,
Evitando os espelhos das poças e gotas estancadas de chuva,
E enquanto navego exausto através das ondas transbordantes,
Suponho o coração dorme em algum lugar, no segredo na vastidão,
Seu sono controverso e profundo vibrando com alegria e tristeza,
Talvez sob a esteira de uma relva úmida,
Mas ainda resguardando calorosamente o brilho das estrelas. Continuar lendo “O guarda chuva”

Equinócios

(Pintura de Amaldus Clarin Nielsen)

De súbito, a noite existe,
Ouve ressoar frio o vento forte de um pensamento,
Essa velha canção do sentimento, exalando o perfume doce e acre
De ondulantes canaviais,
Diz-me velho transporte, inunda todo sentimento agora,
Que coisas naufragaram nas torrentes do silêncio,
Que faísca de claridade lanço na distância sem ver,
Ateando fogo aos campos sagrados,
 
Tímido, o luar estua pelos flancos,
Transporta-dor na algum lugar perdido,
Que pranto tremeluz o arrepio na pele do sereno,
E a perolada tristeza que a vaga imagem da noite,
Nostalgicamente convida, o lento desvario em que se perdeu,
Veloz é o tempo na estrada a transcorrer,
E incessantemente transfigurado,
É possível enxergar no borrão,
As marcas indeléveis dos deuses da saudade,
 
Que sumidouro tragou o sentido,
No fumo intraduzível desse silêncio?
Imortais, os deuses dormem no abismo,
E aqui neste chão, de tão escassa visão,
Tudo finda, tão irremediavelmente a sós,
Que ecos e passos con-fundem-se,
E ainda, no entanto, perdura,
Mas em que dia perdido, ferido e alegre,
O coração recolheu os restos,
E com todas as forças jogou tudo na escuridão,
 
E que batida colide com a noite,
Que anjos e demônios,
Habitam a poética viagem desta vida,
E ainda triscam os céus,
E arrastam-se na terra,
Até a cadente oração à estrela?
É uma jornada,
Mas isso resta indecifrável,
Como a estranha precisão de língua cunhada na solidão,
Na ânfora vazia dos símbolos,
 
Em qual olhar, ainda vibram auroras,
Em qual coração, de em cada fibra estoira uma nova manhã,
Atroz, o sangue a correr futurante através das estações,
O que dizem o espirito dormente dessas coisas,
Mas emudecido e acanhado, não ousa acorda-las,
Se custosamente seduzidas ao sono da dor,
Embotadas guardam ressentir da ultima pétala a florescência caída,
Cobertos com tinta, ainda sangra depois de secar,
Vê e diz os apagados rastros,
Contemplamos distantes, as tempestades que já atravessaram esse silêncio,
Ascendei pois, ao pensamento prometeico, corajosamente incendiário,
E o coração, ferido e alegre, solta um riso alado,
Na alma febril da manhã,
Em que nos vemos nus,
Na presença do olhar.

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