Teu canto…

(Imagem: Pintura de Ron Hicks)

Quando a voz de teu canto tocou a minha alma,
Ela viu o Sol, morrendo no horizonte de uma longa noite,
E continuou a seguir,
Como o coro das antigas tragédias,
Escoou entre deuses e mortais,
Entre os atos heroicos e a plateia,
Em nada se conteve,
Brincou com as resistências, como um cata-vento,
Cheirando a rosa dos ventos das etéreas correntes do meu céu,
E soube como o tempo retorceu as arvores,
Debicando num mergulho corajoso em meus abismos,
E depois, apenas voou fundo e mais longe,
Da ultima cova ao primeiro berço,
Abrindo vasta e firmemente as asas,
Como um grito de liberdade,
Ama os grilhões antes de amar ao destino,
Avançando as cordilheiras de sonhos sumidas na noite,
Voando raso pelas calmas planícies,
Onde fogo e sangue incendiavam a tarde,
Desviando de pedras entre as veredas estreitas,
Por onde é árduo seguir,
Escutando os mais difíceis e espessos silêncios,
Viu feridas abertas brilharem como as estrelas dessa noite tão longa,
E alegrias e tristezas do enigma de meu coração,
Então saiu de meus olhos deixando o esquecido em minhas mãos,
E o infinito estuário da demora de teus lábios nos meus.

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Tristeza a alegria

Tristeza o sussurro enternecido de dor,
No grande galpão de feira,
Em que todo negocio se grita,
Sem saber para quem,
E todo grito tem um valor,
Mas o pranto, sem preço ou cabimento,
Mistura-se aos restos no chão do que se cala,
Quiçá acudidas, pelo chiado das vassouras,
Ao fim do dia, e depois nem isso,

Tristeza o pranto que deita acuado e sem voz,
Sob as cobertas das injustiças do mundo,
A verdade desmentida pela justiça da busca de ser feliz,

Tristeza esse bicho arredio e sem casa,
Que descansa a noite no calor das maquinas ainda aquecidas,
De todas as estradas em casas alheias,

Tristeza a alegria que me visto e me sinto nu,
Desarranjo dos fugidios cantos escuros dos cômodos,
Desvelando todas as faltas de todas as ausências,
Através do que não sei onde me agarro…

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Tranquilidade de enredo

A poesia pousa em minha intranquilidade, E me agrada deveras seu canto, Mas desconfio uma inquietude, Sei que permaneço, rondo aqui por perto, Saberei outra vez, dia qualquer, Descer mais fundo: Onde nada é, nada basta? Ouço da poesia esse canto que me alegra, E tenho uma tranquilidade de enredo:   Asas abertas, Esta flor azulada, Floresce a meiga, Na silhueta sombria, Da ânsia que … Continuar lendo Tranquilidade de enredo