Fitzcarraldo - Eric Roux

Todos os dias santos

(Imagem: Pintura Fitzcarraldo de Eric Roux)

Sentar sem tempo de ir embora, e quais são os enigmas sutis que não se quer desvendar mas fica como em suspenso tocando, enquanto vai se chegando de mansinho, e aos poucos se despojando de toda pretensão, parece que a alma vai se esquecendo de suas capas e casacos e surge das nuvens como um luar, acomodando-se aos braços, na verdade dói como a luz que fere os olhos, e não deixa de ser comovente ainda na lembrança, enquanto longamente o fardo cotidiano permanece, e não obstante, havendo de estar ali na plena simplicidade do que é assim e não tem nome, e mesmo assim deixa-se ser com tudo o que se pode e estar habitando o mundo como se não houvesse para onde ir ou voltar, talvez como se flutuasse mais alto de que o habitual tal como vibram esses acordes de arrepios inconstantes até a afinação, é um mergulho rasante, um voo rasteiro aplainando as asas, um êxtase saltando quase louco o desprendimento, sendo o lugar onde se quer estar mais do que qualquer outro, lá mesmo, cotidianamente a salvo de cair no esquecimento. Sem negar que há uma noite a despontar, mas segue tão suave com todos os astros de sonhos que vigiam do alto em segredo em geral tão anônimos, e os excessos de vida e liberdade e amizade fazem parecer com o ar fresco e abundante ainda que o frio do sereno da noite se faça presente como no campo onde a vida brota mais incessantemente, e é uma alegria festeira enquanto tudo quanto é dito toca e encandeia, faiscando da flama de corações amorosos que corajosamente se abrem ao infinito, se derramam e se beijam do encontro. Entre todas as nuances desta tarde ficou aqui essa trilha sonora ecoando perdida “nas coisas de um olhar”.

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O insolúvel

Ainda arde o fogo sagrado emanando do coração, Espumando como na crista das ondas, Ou como labaredas coroando a flâmula alegre? Vento descortinando a relva, À comoção do raio solar, Lançado através do fulgor dos céus, E silenciosamente desperta já a caminhar, Estando só, entrementes, Pois não podem todos, Beijar a alma ao ver, Com ante a esplendorosa beleza na natureza, Ao por do sol. Tão … Continuar lendo O insolúvel

Videiras

Foi calado sob um céu estranho, que me reencontrei vagando através da longa rua dos desencontros, carregadas nuvens fechando-se sobre o mundo, ameaçando obscurecer qualquer vestígio de coisa particularmente familiar na opacidade de tudo. E nesta cidade cinzenta de meus pensamentos envoltos em uma gravidade mais densa, tudo o mais ascende como fogos-de-artificio ou uma salva de tiros contra a resistência infalível do ar. Tão … Continuar lendo Videiras

Pseudônimos

Quero voltar atrás hoje, Revelar que andei falsificando muitos nomes, Mesmo o dela e o meu, Sentir que há o hálito doce dessa porta entreaberta, E espiar através, que algo sempre esteve aí, Deixar que o pensamento se perca,  e vê-la chegar, Dançando a música que possui seu corpo, Ouvir algo estridente e claro, Como um silvo único, Que acordasse de vez a chama, Tão … Continuar lendo Pseudônimos