Meu amigo, dia desses começou a chover

No inicio do ano escrevi uma longa prosa poética e que ficou sem um titulo e formato definitivo, devo ter reescrito umas vinte vezes como é típico de textos assim. Como se fosse uma carta de confissão a um amigo, e de fato era… mas enfim, acabei por publicar dois parágrafos (Equinócios e Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera) e acho que o resultado ficou interessante. Posteriormente penso num jeito de organizar isso melhor.

 

Meu velho amigo, dia desses começou a chover,
E na esquina da rua onde moro,
Nostálgica como a brisa fria,
Uma lembrança passou por mim correndo,
Eufórica, como relâmpagos no céu cinzento,
Coriscos entre as paixões extintas,
Pisando em poças e sorrindo,
Como se atirasse pedras em espelhos,
Naquele momento, embora não pudesse parar e conter,
Tudo o que aniquilei, para trazer de volta,
Como um cão vadio, magro e adoecido,
Saciando a longa sede, nas valas e meio-fio de todas as estradas,
Chacoalhei o agouro escarnecido,
Lavando as feridas, brindei excessivamente,
Toda a chuva, escorrendo através das bocas de lobo de minha alma,
E ao chegar em casa, encontrando comigo mesmo,
Olhando-me parado no mesmo lugar,
Os tempos se entrecortando,
Jorraram lágrimas incompreensíveis,
Enquanto uma frase pairou no ar vinda daquele tempo “não, eu não morri”,
Em meio ao desamparo dessa comoção,
Pressenti, o que fez curar naquela época,
Permaneceu atravessado de algo que precisou ser esquecido;
Vaguei pelas ruínas do inacabado e desaprendi a falar como antigamente,
Dizendo como se abandonando tudo no caminho. Continuar lendo “Meu amigo, dia desses começou a chover”

Tristeza a alegria

Tristeza o sussurro enternecido de dor,
No grande galpão de feira,
Em que todo negocio se grita,
Sem saber para quem,
E todo grito tem um valor,
Mas o pranto, sem preço ou cabimento,
Mistura-se aos restos no chão do que se cala,
Quiçá acudidas, pelo chiado das vassouras,
Ao fim do dia, e depois nem isso,

Tristeza o pranto que deita acuado e sem voz,
Sob as cobertas das injustiças do mundo,
A verdade desmentida pela justiça da busca de ser feliz,

Tristeza esse bicho arredio e sem casa,
Que descansa a noite no calor das maquinas ainda aquecidas,
De todas as estradas em casas alheias,

Tristeza a alegria que me visto e me sinto nu,
Desarranjo dos fugidios cantos escuros dos cômodos,
Desvelando todas as faltas de todas as ausências,
Através do que não sei onde me agarro…

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Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera

(Excertos do texto inédito, Dia desses começou a chover)
 
Mas calma, é lentamente que a bruma áurea se dissipa ao entardecer de todas as coisas. E enquanto de seus esporos luminescentes de lembranças nascem as estrelas nuas de tristeza, e interrogam onde ainda bate verdadeiramente o coração. Meu irmão, se nesse silêncio ouço escoarem para longe as vozes serenas que acima de tudo se cativam do brilho das estrelas.  Adentro ao silêncio dos ermos, vento frio a levar-me a presença de mim embora, e na clareira dessa ânsia, atravessa-me o espinho, como se cultivasse em segredo, um jardim a beira do abismo. E lá, alheio ao conflito entre ideias e emoções, e a ameaça de cair no vão sem fundo, inesperadamente o coração sonha como se brincasse e tocasse o próprio sonho, mas como é possível? Como perdeu-se essa linguagem tão íntima? Se era tão claro ainda agora? E tão estreita a cerca entre esses vizinhos? Amigos? Irmãos? Traduzir-se é, dessa longa e ininterrupta conversa entre sentir e pensar, espantosamente dizer a verdade.
 
Aqui, neste lugar, onde livre de obrigações e contentas, abandonar-se ao acaso, é de súbito dar-se conta do cansaço. E como a bagagem que se lança em algum canto, em casa, após uma longa viagem, e vai desfazendo-se ao longo dos dias, a alma transcorre turbulenta como um rio, liberando as tensões através das pedras e coisas imóveis no caminho. E o coração como um animal selvagem, aproxima-se para beber das fontes e farejar os rastros do estranho. E não havendo nenhuma outra travessia, nenhuma queda, as luzes, os ruídos, do mundo e das cidades, perturbam a tarefa do artificie curioso da nova invenção. E as dores dos caminhos, estendem-se nuas sob o céu, e interrogam os infinitos de além, ao apagar das luzes.
 
O quão cedo acendei-as novamente, o quão cedo tocai todos os sons, perfumai teu cheiro, fascinais do novo, e alimentai do pão das presenças, ocupando a demora, tão brevemente surge a fome cheia de ausências, os pés maltratados e as costas queimadas não deixam dormir, não deixam se encontrar em meio a bagunça.
 
Quando os ecos aproximam-se do silencio aberto, e magoam as feridas com o sal das estradas, a velha linha do destino aperta o nó e vibra, entoando a lira da tristeza. Quantas ausências, quanta solidão, e o espírito vela solta, farrapos e fiapos, flamula no ancoradouro.
 
Despertamos para a noite, longe do escuro alegre do trabalho, em que sumimos em meio a tecedura, e apanhar-se só com a rede desses pensamentos ressoando sentimentos febris, quando por fim estendeu-se o tapete desse deserto? Ou sempre esteve? E o ouvido afinado, apreendeu a descortina-lo? Através miragens esperançosas e consoladoras? Mas o que é, então, insuportável? Por onde esse espinho penetra ainda mais fundo a carne?
 
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De carnavais e estandartes líricos

 

Esse eu-lírico que nos carnavais,
Quer ser Ceroula,
Pitombeira,
Quer ser meia-noite e
Madrugada,
Ser as flores e
A saudade,
Quer ser estandarte,
E andar entre as lantejoulas gastas,
Como estrelas se apagando,
E dentro da ilustração de antiquário,
Ser o Arlequim-Pierrô,
Tascando um beijo na Colombina,
Rodopiar a braços largos,
Troçar mendigando por tudo o que se sonha em vida,
Brandir a armaduras brilhantes e a lança de uma coragem cega,
Sentir a confusão alegre de uma ladeira cheia de gente,
E a Tristeza sangrada nas dores de uma rua vazia.

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