Refazenda

Último da série de revisões, finalzinho do antigo Solidão

 
De vero,
Nada a dizer,
Tudo, ainda por fazer,
Tudo, neste esforço,
Re-(qualquer coisa),
De eclodir fora da casca,
Redesenhar,
Redescobrir,
Ressinigficar,
Poetizar no gesto,
De simbolizar a vida,
 
De vero, nada a dizer,
Como todo homem justo,
Mendigar sentido as coisas,
Vivenciar os punhais,
Sangrar o alvo da carne,
Cunhar a moeda de ser,
Sem escapatória,
E nada mais,
 
Perder-se na solidão,
De erguer-se mais uma vez,
De longe, afiado,
Cegamente, aproximo,
Meu jeito sem jeito,
De dar boas-vindas,
 
Além das escadarias,
Castanhas de seus cabelos,
Um beijo cai,
Suicidado de desejo,
Sem cair no seco,
Ficar molhado,
Um mergulho,
Sem medo,
De gozar dentro,
Do espirito,
De criar em comunhão,
 
Mais que isso não sei,
A própria vida é uma bagunça silenciosa,
Arrumo-me por aí, sozinho,
Abrindo caminho à escrita,
Me acho e me perco,
Canso, reluto em desistir,
Reluto em confiar.
Reluto em relutar.
E algo se faz, enfim.

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Solidão (Revisão)

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.

Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,

Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.

Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.

II
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PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO (Revisão)

Mais um texto desse projeto de revisar/editar tudo o que foi postado aqui no blog, dessa vez só fiz alguns cortes e reescrevi algumas coisas. Não é uma grande obra, mas tem algumas coisas interessantes, além disso me recorda bastante da época em que comecei a escrever algo com o pensamento voltado para o blog, talvez reaproveite melhor mais tarde.

Texto original: Pelo campo aberto, indefeso da chuva

 

PELO CAMPO ABERTO E INDEFESO

Faz algum tempo,
Tenho me pego indefeso nesse sentimento,
De tê-la aqui por perto,
Não apartado da coragem,
De ir, por exemplo, ao seu encontro,
Mas há esse trôpego afastamento,
Essa hesitação em conciliar,
Pairado fronte ao acorde indecifrável de sua esfinge,
Esse olhar que isola e não defende os seus,
 
E é assim, indefeso, solitário, confuso,
Mas tão livre quanto possível,
Que me deixo estar para certos sentimentos,
Que de outro modo pareceriam sem cabimento,
Quando, cabimento,
É uma exigência mui forte,
Ao rearranjo das coisas desapegadas do todo,
Todo totalitarismo de tempos confusos,
Com isso, se aprende a cultivar ingenuidades escondidas,
Em porões úmidos,
Como, com tudo e apesar de tudo,
Estar apaixonado,
Quem sabe futurando uma revolução:
O amor,
 
E quase sempre,
Com essa voz poética,
De silêncios e madrugadas,
Minhas olheiras, minha barba torta,
E a ternura perene deste tom,
Acinzentado, sofrido, solitário,
E, com tudo, ainda muito criança,
Já a vejo dizer, que me amou por isso,
Numa estranho dialeto, diferente do meu,
Mas presente na mesma linguagem,
Sei que vou sorrir,
Ainda mais do que estou sorrindo agora,
E ela terá paciência de me ensinar aquele riso perdido,
Ensolarado?
 
Desviei o olho para um canto,
Imaginando seus medos, suas fúrias,
Suas tristezas, o que é difícil de dobrar,
Esquivando do tanto que é bela,
E há em mim este esteta egoísta que se prende as aparências,
Mas me solto disso,
Para ver a beleza além da beleza,
Na delicadeza dos detalhes,
Navegar nisso, quantas vidas seria preciso para ir além?
E na dureza com que as suas próprias mãos tolhem as palavras,
Percorrendo até a honestidade do sentido,
Até o sem pudor do desejo,
Outro algo em mim ama essa coragem,
E há coragem por aí, mesmo que chegue furiosa,
Pois sinto por ela a mais profunda amizade,
Eu que desde cedo tive de arrumar um jeito,
De conviver com minhas próprias estribeiras,
Contra toda vontade de liberdade,
 
Ver o sempre-verde daquelas loucuras que você mais ama em si mesma,
E eu que quero tanto dar razão aos loucos,
Imagino remédios assim, e de nenhum outro tipo,
Além do que não somos mais donos,
De que obedientes de nossas paixões,
Caindo por todo canto como se chovesse,
Um tanto do atrevimento, e o viso dessa flor vermelha,
E tento delinear os contornos destas boas vindas,
Para tudo que for seu,
Na obrigação de uma luta porvir,
Mas, talvez seja melhor calar agora,
E não deixar que essa ânsia corra sua pressa,
Pela vida toda que se estende adiante,
 
Ademais, indefeso nisso,
Mais profeta e sonhador que tudo,
Muito embora, agora, já esteja mais próximo ao todo,
Vou devagar,
Cobro a mim essa lentidão no espírito,
Amanhã, quando amanhecer,
O campo vai estar encharcado,
E muito do que foi arrastado pela correnteza,
Estará a mostra,
Marcas do tanto que foi,
E mais vida vai brotar disso,
E temos de ir além,
Impiedosamente rumo a outros dias,
Outras manhãs ainda mais belas,
E noites ainda mais terríveis,
Do que essas.

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Alma em partículas de poeira (Versão 2)

Enfim comecei a realizar o meu maior projeto para este ano, selecionar, revisar e editar todas as publicações já realizadas no blog. Confesso, foi uma alegria especial sentir o peso nas mãos meus poemas impressos. Acho que a gente nesse meio virtual perde um pouco da noção daquilo que faz, até ter diante de tantos sentimentos e pensamentos diversos postos diante de si…
Começando daqui pretendo publicar as novas versões daqueles textos e poemas que sofrerem uma grande mudança. O primeiro trabalho, talvez seja um dos mais difíceis que devo enfrentar, devido a transição de tonalidades na mistura de sentimentos: Honestamente apesar de ter sido uma experiência enriquecedora tive de me dar tempo algum tempo e juntar forças para revisitar esse leito de prazer e sofrimento.

 

PRIMAVERA NO QUARTO ABAFADO

I

No alto da tarde do despertar de um dia,
Respingavam no quarto os restos infames dos últimos raios de luz solar,
Com a vida, toda despreocupada, exibindo-se na infância tardia destes eventos,
Já tão longínquos ao alcance do olho,
Todas, todas as cores queimavam em brasa, lentas e brandas,
E tínhamos prazer em jogar os jogos nas cinzas ao vento,
Seguindo o retorno ébrio do deus em partículas de poeira,
Na cama morna daquele derradeiro facho de luz.

II

Olhos,
Impávidas janelas fechadas,
À plena luz de um dia,
Assistindo as sombras dançarem,
Através da translucidez,
De vermelhas cortinas,

Lábios,
Promessas cerradas,
Mordendo todas as formas,
Com dentes trincando de orgasmo,
Jorrando aos céus de um bolero lilás,
Semeando estrelas, nos úmidos mistérios,
Duma língua obscura,

Os deuses movem-se todos,
Espargindo nas paredes as luzes desarvoradas,
Um mar de esporos luminescentes,
Fingindo todas as mentiras imóveis,
Coladas a retina,

Frágil e irresistível dogma dessas crenças,
A luz esconde um limbo,
De alma nossas almas despedaçadas,
Arrancadas pelas frestas e lançadas ao ar,
Pairando como partículas de poeira,

Dia após dia,
Mastigando as pétalas de cada sentimento,
Com a mudeza de um assombro,
Destilando um caldo escuro,
Vísceras expostas,
Tão nus e apodrecidos,
No leito de azaleias, calêndulas e bétulas,
Despetaladas e secas entre o zunido de moscas,

Oferecendo nossos restos a fermentação de um deus,
Em troca de alguma benção,
E os laços remanescentes,
Na fumaça do oloroso incenso:
Dores, perfídia, cinismo, e, sobretudo –,
Cheiro de primavera no quarto abafado.

Original: Alma em partículas de poeira

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