Sobre o retorno e os mal-entendidos

 

 

Já faz algum tempo, estive planejando retomar as atividades por aqui, junto com a reformulação algumas coisas, e depois de uma tentativa no meio do ano que se deve principalmente ao trabalho de reunião de alguns rabiscos e composição no Videiras, infelizmente mostrou-se impossível conciliar as atividades e estudos de final de curso e algumas tempestades…
 
Nos próximos meses devo concentrar meus esforços em torno da escrita e com isso também do blog. E, falando sobre tudo por intermédio dessa questão, de certo quando atualizei para o formato atual haviam muitas dificuldades de definir algumas coisas, mesmo porque a maior parte dos textos vieram sendo escritos ao longo dos últimos oito ou nove anos, e no entanto, os textos foram postados fora de qualquer ordem cronológica dos eventos que os inspirariam. Isso também fez parte desse caminho de amadurecimento através e com a escrita, tanto quanto tornou possível o espaço à liberdade necessária de ir e vir inspiração, que inclusive é guardada pelo nome: Visão em paralaxe – ou do ponto de vista, do perspectivismo, no momento em que idealizei foi um grito de liberdade, mas também uma fuga. No entanto, não poderia ter adivinhado o quão intimamente longe e fundo esta questão existencial viria margeando certos limites,ao passo que hoje já teria contornos tão diversos e ao mesmo tempo bem mais definidos em sua própria abertura para a criação, quer dizer a gente começa a ter algum apreço algo parecido com o pressentimento de um destino pelo que pode haver de mais próprio, começa a chamar lugares de lar, e conhecer melhor as rotas de viagem, aprofunda e, enfim… amadurece. Até para os “poréns”… Aqui, chega a ser mesmo difícil fazer distinções de estilo ou ser deste ou daquele modo.
 
Desde que comecei de fato a levar a sério a tal da escrita, me deparo com a curiosa e constante presença de mal-entendidos sobre aquilo que escrevo. Nunca impus a determinação  de escrever assim ou assado, assim como nunca fui atrás de saber como era o jeito definitivo de por em linhas aquilo que se sente, essa “coisa” de escrever aderiu aquela outra “coisa” da necessidade e parecia bom o bastante para dar conta da angustia, para dar um nome aos sem-nomes, de dizer o que não se diz, e assim o pouco tangível alvo do sentido, apenas enriqueceria com o acréscimo de sentidos, mas depois de um tempo mostrando aqui e ali tenho de confessar que chega a ser absurdo, em algum momento surge a pretensão de fazer disso uma profissão, e aí entra a questão do quão bem a gente escreve, quer dizer, do quanto se pode: críticas e sugestões sempre foram bem vindas, de resto a obra segue em frente na vida curta ou longa das interpretações possíveis, mas aí vem essa outra questão, que talvez seja mais presente para quem se arrisca a tentar por veredas mais “obscuras”, e chega a ser tragicômico que por muito tempo o sentido das interpretações nem de longe encontrem correspondência dentre o que está escrito. É preciso levar em conta que, além de tudo, a questão do estabelecimento de um estilo em cada época sempre trilhou o caminho sob o alicerce do estilo certo: os professores das universidades quase sempre foram mestres do estilo “mais atual”, ou clássico. O que hoje em dia, no mundo atual, a luz da época, por assim dizer, apagou-se, talvez mesmo em demasia, isto é, contra o comprometimento com qualquer luz ou alicerce. Mas bem, para mim, pulando por sobre o muro que cerca a designação de uma pretensão a originalidade: o que escrevo foi sempre marcado pelo contato com o “existencialismo”. Pode-se dizer que por algum meio há o privilegio do movimento sob a forma, da demora sobre pressa e o tempo corre sempre mais devagar de modo que, sem aquela estadia em cada frase que deixa vir a possibilidade de seu sentido não se atenda a provocação. Eu já era holderliano antes de ter conhecido Heidegger, e depois de ter conhecido o contato com ambos deixou em definitivo a marca em meu destino.
 
Mas como é que formula os desígnios da penumbra ou mesmo se pensa como é isto ou aquilo no modo como se faz? Essencialmente quando, existe toda a vasta gama de acusações contra o “obscurantismo” na arte, e de outro lado sobre a “clareza” em excesso, a obviedade, o populismo? Respondo a isso assumindo a responsabilidade comigo mesmo, afirmando que: Não são raras as vezes que escrevo, tentando abrir a ferida do silêncio e deixando de lá saltarem as dores tristes e alegres que sustentam tenuemente o que não tem nome. Talvez isso por si diga algo sobre a dinâmica deste movimento que omite, de certo modo, as formas. Ainda que não alcance o “como” de não ser qualquer provocação.
 
Mas ao redor dos anos, a vasta extensão de mal-entendidos que a princípio eram inspiradores e no mínimo engraçados, foram lentamente tornando-se parte corriqueira de um desagradável ar de estranhamento que já não tinha nenhum apelo cômico. Assim é que os entreabertos que fazem parte desses textos, passaram a ser ocupados por ditos que se fecham no princípio, no mais elementar. Será que afinal mostra-se mais uma vez o quanto o silêncio tornou-se insustentável em nossos dias? Ou estou sendo pretensioso demais? Sei apenas que por conta dessa curiosa tragicomédia, já faz alguns bons anos que não faço a mínima ideia de se o que escrevo e no sentido alcança outra pessoa. Por outro lado, tento o máximo que posso preservar-me de pensar o que está lá para ser mistério. Se não digo, fica no não dito, e quem quiser se dispor a procurar o sentido racional, inconsciente, espiritual, filosófico ou cientifico da causa, que o faça, mas por sua conta e risco, ou melhor fosse, e por favor, puxe assunto, pergunte!…
 
Essa outra coisa “obvificante” desses dias estranhos, em que parece que toda a gente se sente constrangida de ficar curiosa. Esse rigor mortis, pomposamente vestido de achar que não ver, não ouvir, é um crime, pela superioridade da não-verdade sobre a busca da verdade. Não sei dizer, tento escrever ruas estreitas e largas para se andar distraído e atento e cair e levantar e se encontrar e perder no sentido: um convite a esse crime chamado curiosidade.

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Densidade

(Da série, confissões, malogros e outras penitências). A primeira cumplicidade que sinto com qualquer pessoa com quem por acaso venha a travar um bom diálogo, um diálogo franco e aberto, no estilo grego, diga-se assim: um confronto. É quando, mesmo que já o tenha dito antes, aquela pessoa chegue a concluir: “meu caro, você é denso”. Uma daquelas brincadeiras, com fundo de verdade tão amargo, que … Continuar lendo Densidade

Nietzsche e uma pausa

Bom, minha proposta aqui sempre foi de publicar apenas textos de minha autoria. Mas vou abrir mais uma exceção, para um certo reencontro que precisei há umas semanas atrás. Nietzsche anda ainda, junto com Hölderlin, sempre por perto. De vez em quando encontro umas coisas que realmente vem ao meu auxilio na hora certa. Esse aforismo, cortado a metade, foi um deles. Não sei se … Continuar lendo Nietzsche e uma pausa

(Bukowski? rs rs… Esse poema é a imagem perfeita dos finais de noite que tinha lá pelo final dos 15 anos de idade. Foi escrito já há uns 2 anos*, quando andava revisitando alguns escritos dessa época e lendo muito do “velho safado” e teorizando sobre o “Eterno retorno” de Nietzsche — vale um bom acerto de contas, sem muito romantismo, reafirmando o que ficou…) … Continuar lendo