Pérola

(Imagem: Pintura de Eric Roux)

Era
Ainda tão cedo,
E suave,
O sentimento
Soprava como um vento veloz,
E com asas nos pés, acho, corríamos
Ou voávamos?
Tentando alcançar
As sementes de dente de leão,
 
No rastro de luz de tua lembrança,
Ficou a indelével impressão,
De existir, algo de sério e delicado,
Para se colher no vento, com cuidado,
 
Mas correndo e tropeçando,
Na penugem dos encalços,
Desconhecendo o maduro ofício,
De dar nó em cadarços,
 
Foi embora tristemente,
Quando tua mãe te abandonou,
Mas antes me fez prometer,
Por meu próprio bem, esquecê-la,
E como que vindo de tua voz rouca e serena,
O vento soprou impetuoso como nunca antes,
 
E hoje já não sei
Em qual claridade
Tão alva e doce,
Ofuscou-se a ternura,
De teu colo morno,
 
Cumpri, e quase tudo se desfez,
E tudo o que endureci, fechou-se sobre isso,
Mas na concha das mãos
Segurei firme algo além dessa promessa,
Não deixei ir, não pude,
E como a semente de dente de leão,
Caiu no esquecimento,
Mas brotou-se, florescendo,
Pétalas de pura madrepérola,
No raio de luz dos dias. Continuar lendo “Pérola”

Fitzcarraldo - Eric Roux

Todos os dias santos

(Imagem: Pintura Fitzcarraldo de Eric Roux)

Sentar sem tempo de ir embora, e quais são os enigmas sutis que não se quer desvendar mas fica como em suspenso tocando, enquanto vai se chegando de mansinho, e aos poucos se despojando de toda pretensão, parece que a alma vai se esquecendo de suas capas e casacos e surge das nuvens como um luar, acomodando-se aos braços, na verdade dói como a luz que fere os olhos, e não deixa de ser comovente ainda na lembrança, enquanto longamente o fardo cotidiano permanece, e não obstante, havendo de estar ali na plena simplicidade do que é assim e não tem nome, e mesmo assim deixa-se ser com tudo o que se pode e estar habitando o mundo como se não houvesse para onde ir ou voltar, talvez como se flutuasse mais alto de que o habitual tal como vibram esses acordes de arrepios inconstantes até a afinação, é um mergulho rasante, um voo rasteiro aplainando as asas, um êxtase saltando quase louco o desprendimento, sendo o lugar onde se quer estar mais do que qualquer outro, lá mesmo, cotidianamente a salvo de cair no esquecimento. Sem negar que há uma noite a despontar, mas segue tão suave com todos os astros de sonhos que vigiam do alto em segredo em geral tão anônimos, e os excessos de vida e liberdade e amizade fazem parecer com o ar fresco e abundante ainda que o frio do sereno da noite se faça presente como no campo onde a vida brota mais incessantemente, e é uma alegria festeira enquanto tudo quanto é dito toca e encandeia, faiscando da flama de corações amorosos que corajosamente se abrem ao infinito, se derramam e se beijam do encontro. Entre todas as nuances desta tarde ficou aqui essa trilha sonora ecoando perdida “nas coisas de um olhar”.

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Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

(Imagem: Pintura de Louis Jambor)

Ah, viajante noturno de minha ventura,
Tão longo e tortuoso é a jornada desta década,
Trazei consigo ainda talvez o derradeiro sopro de vida,
A última flama de fogo divino roubada dos antigos deuses de outrora,
Sob o uivo perene das quimeras ecoando distâncias intransponíveis,
E todos os áridos caminhos desde as fontes secas,
Rasgando aos poucos feridas no rosto e no peito,
Rachaduras na velha carne de barro seco,
Pleiteai para sempre um leito,
Uma hospedaria na deriva dos dias vãos,
Pleiteai para sempre um gole,
De mel e veneno nos braços do mesmo,
Neste mundo de semideuses,
E todos os amanhãs dormem um sono irreparável,
Mas ainda orai no segredo da língua mortal,
Por todos os dias santos,
Das fontes jorrando,
Do peito sangrando e o coração desmesurado,
Mas comedidamente, não saciai toda a sede,
Para não cair para trás,
E afogar-se nas águas escuras do passado,
Salvai-me do brilho cego de todas as laminas,
Que cantam suicídios,
Através das frestas do que foi quebrado. Continuar lendo “Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado”

Na orla das luzes

 

A hora chegou,
E o que esteve lá, escapou com os últimos raios de Sol,
E estivemos observando atentamente na saída,
Num tempo subitamente mudado,
Conjugando todas as marcas expostas que o dia deixou,
Reluzindo no escuro em que tateávamos: “e agora?”,
Tentando cobrir sem encobrir o calor remanescente dos sentimentos,
Ao frio desalentador de estar mais uma vez no mundo vulgar,
Quantas luzes em seu olhar, bem mais do que a anoitecida cidade,
Ameaçando se apagarem pelos cantos inabitados de toda essa gente,
E meus dedos amarelados, sujos de brincar com a areia e o vento,
Aventuraram-se através da neblina delicada e frágil da penumbra,
Envolvendo-a no aperto dum abraço,
Tão feridos de luz e verão infinitos,
Com a pálpebra macia daquele sonho evanescente,
Conjurando todos os deuses do vento,
Descobrindo a nudez do silencio em vastos campos verdejantes,
Através do revoltoso e enluarado mar,
O beijo.

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Videiras

Foi calado sob um céu estranho, que me reencontrei vagando através da longa rua dos desencontros, carregadas nuvens fechando-se sobre o mundo, ameaçando obscurecer qualquer vestígio de coisa particularmente familiar na opacidade de tudo. E nesta cidade cinzenta de meus pensamentos envoltos em uma gravidade mais densa, tudo o mais ascende como fogos-de-artificio ou uma salva de tiros contra a resistência infalível do ar. Tão … Continuar lendo Videiras