A queda: Mercúrio e o fato poético azul e claro

(Imagem: Pintura de Hiremy Hirschl Adolf)

(Pois é, naturalmente, na própria linguagem que desviamos primordialmente do assunto, de qualquer assunto. É já ao falar sobre assunto que falamos estrangeiros do assunto.
E quando acordo para ver o que fiz;
Transpiro a febre fria que corre feito um rio subitamente nutrido pelas aguas do degelo se tornando mais largo, fundo e turbulento, deixando ilhado o viajante desavisado: muito tempo passou, e o medo da morte sobrepuja a vida).
 
Quando o dia finalmente se vai. É madrugada, e vagando por aí a solidão encontra a noite deserta prestes a estender as mãos estrangular lhe a voz. Toda preocupação quer o apenas descanso de um fim digno, um ossuário, apenas uma coisa incomoda franca e abertamente, talvez a única que verdadeiramente valha a pena: É preciso reencontrar a harmonia na prosa de uma razão suficiente, que sustentar não mais sustenta princípio dessas notas. Mas esses pensamentos confusos se fundem a violência furtiva da noite, apagando as formas, conforta-se em saber que também há ilhas fosforescentes lá fora, ainda que essas coisas entreabertas do cômodo de além apenas esclareçam navalhas brilhantes na cômoda obscuridade de agora. Existem esperanças assim, e milhares de mãos trêmulas (inclusive uma centena das minhas) já alcançaram honestamente o gesto, a oferta e se cortaram em seu fio sempre a dizer: “Mas há alguém, deve haver uma resposta”. E não há chances em outro lugar se não na dúvida que confirma a regra. Talvez nenhuma outra invenção seja tão assustadora quando essa que sela todo sangue e transpiração que escorre pelas noites, numa formalidade ocasional sem deixar vestígio. Somos fracos como isso, que se lava e veste as fantasias para não sofrer o vir a ser, sana a dor turvando lhe das lembranças como outra noite, sem saber nem por hipótese o que é viver combatendo seus fantasmas. Vivendo sem sonhos, pois sonhos produzem fantasmas. Por fim, existir parece ser o único sistema insustentável. No mais anexamos mais um adendo…
 
E o vento, acordando o silêncio, como um instrumento de cordas esquecido em proximidades inalcançáveis, apenas diz coisas indecifráveis, mas preciso plantar sementes nesse escuro.
Eu vejo, eu penso, eu sou… eu deveria pensar descalço na terra úmida dos sentimentos, mas ao tentar encontra-las, dar início a tarefa de cunhá-las, frágeis se perdem, se quebram, se esfarinham sempre. Preciso acreditar, mas a crença como a causa formal de um sistema, como força de vontade sozinha é algo que apenas corre em círculos, desesperada, sempre se ferindo das coisas por fora e por dentro que esbarra e quebra sem ver e pisa nos estilhaços espalhados no chão.
 
Acordo. A gente acorda inevitavelmente. Vejo minha mão firmemente apoiando o ombro de alguém, que possui o rosto angustiado da amizade. Esse apoio já foi um dia tão inevitável quanto acordar, e que de um modo estranho talvez igual. Perdeu-se. Vejo muitas outras coisas. Vejo, e, no entanto… Há uma dança para a qual, já não escuto a música. Há o murmúrio de um riacho próximo as fontes, para o qual sou estrangeiro.
Há algo como o vento, dizendo de súbito o silêncio impronunciável num fôlego sem asas, como um instrumento de cordas esquecido em proximidades inalcançáveis, apenas diz sobre marcas indeléveis em algum lugar que não se sabe onde, mas com a certeza de que é preciso plantar sementes nesse escuro.
Eu vejo, eu penso, eu sou… sei que já deveria pensar descalço na terra úmida desses sentimentos, mas ao tentar encontra-las, ou dar início a tarefa de cunhá-las, frágeis se perdem, se quebram, se esfarinham sempre. Preciso acreditar? Mas a crença como a causa formal de um sistema, como força de vontade sozinha é algo que apenas corre em círculos, desesperada, sempre se ferindo das coisas por fora e por dentro que esbarra e quebra sem ver e pisa nos estilhaços espalhados no chão.
Para que, acordar e dizer, se tudo inevitavelmente volta a ocultar-se, na ausência de um lugar, de tempo, de uma casa, da música fundamental de uma conversa, e cada vez menos espanta, e cada vez menos há o que dizer, mesmo se tão cego se continuei a tentar, riscando palavras feito fósforos nesse silêncio, assistindo cada sentido apagar no vento como o sentido de um sonho que se esvai. Se apenas não bastasse ouvir o chamado, a incomensurável ânsia, como passos acelerados correndo para abrir a porta, para que batesse no vento imóvel de respiração, vibrante espanto em suspenso, o coração a bramir todo o sentimento… Mas nada.
 
Para nós que embarcamos na existência com a tarefa de cumprir um destino nos arredores do próprio cerne do que seja uma tarefa, a desdobrando, passando o tempo a estar no tempo reparando as estranhas familiaridades nas margens de tudo, e acostumamo-nos ao balanço das inconstâncias, às idas e vindas em existir existindo, de modo que acolhemos o sentido íntimo e legítimo da angustia no seio de toda grande mudança, que aprendemos a contar nossas histórias sobre os acontecimentos que vem e vão num dado tempo de existir, presos na liberdade do movimento; como encontramos poucas disposições favoráveis a esses devaneios, de viver viajando como Mercúrio através e junto as coisas claras e obscuras, e pode parecer que por vezes aprendemos uma língua morta, de um mythos, no fundo arqueológico de uma escavação na qual nos mesmos ficamos soterrados e mortos na linguagem,
 
E por vezes, mesmo a textura nas fibras da impaciência perde o sentido, e já não há seque ânimo de decalcar as linhas grosseiras de ironia frente a uma “dúvida” impertinente? “Porque não faz assim…?” anunciava o pontilhado, e enquanto sua mão cravasse pesadamente a mesa sem que notasse, ao notar, ela se abria e naquele pequeno espaço entre os dedos que se abriam, parecia haver tudo, tudo o que havia sobrado, como um abismo posto frente a outro abismo… e a noite o espelho d’agua reflete o céu estrelados, e parece que apenas flutuamos no vazio universal…
 
E sonhamos com jardins, com entrelinhas, com lugares entre o habitual e as estradas, onde possamos agarrar um punhado de terra com a mãos e enfim, ainda que momentaneamente, dizer “isso é de onde eu vim!”; ou em outro lugar agarrar as barbas do tempo na ventania, e mandar-lhe calar gravemente, em respeito as coisas novas que brotam ali…
 
E com alguma clareza, de um dia recém-chegado sobre muitas noites, observar Mercúrio viajando no céu crepuscular. O deus mensageiro seguir levando consigo a mensagem divina e a interpretação para a linguagem dos mortais. Criando uma ponte entre o céu e a terra, o infinito e o finito, entre a determinação do destino e o indeterminadamente possível, o deus das travessias assim apenas surge no céu nesse tempo de transição entre a noite e o dia, onde as coisas difusas, entre claras e obscuras, tornam terreno mais fértil para o devir.
 
Como quando adentrando o santuário da manhã o olhar pousa na claridade amena, sentindo o cheiro do musgo verde correndo o cimento e telhas, pardais se banham aos pios em clareiras de terra, nuvens pioneiras invadem o azul ofertando a massa de obra para se plasmar em devaneio qualquer forma, e da calma alegria dessa fascinação viajante como agua de chuva nas infiltrações, havia também a tristeza…
E talvez algo como manhã chegue como uma pia batismal de um delírio noturno que acabara de celebrar um ritual fúnebre, como se regesse a sinfonia na execução de uma obra triste ou trágica, as mãos nas bordas, firmes, depois repassava rapidamente as folhas, movendo um pouco o rosto para o lado como se buscasse algo perdido na noite funda do esquecimento, lavava o rosto olhando parte a parte o reflexo para cada instrumento e não todo, temeroso, e então abria seu olhar fixo para a imagem no espelho, a música insurgente, e como uma tempestade que de repente cobre o céu límpido, ouvia-a ressoar entranhando a vísceras como uma trilha sonora perfeita, aturdido procurava por algo, e podia sentir a pernas tremerem ao resplandecer as forças de tantos gritos em infernos e paraísos estuarem através da fresta de um instante, navegava, voava para longe, encontrava a beleza, a tragédia, o amor, suando o ressoar excessivo transbordando como óleo da maquina infinita de seus sonhos, apagava o cigarro, assentia haver encontrado, e então se calava… Retirando avidamente a lâmina, ceifando a floresta de delírios e feridas na alma estampado em seu rosto…
 
Preciso de um golpe de sorte, forte como rasgar com os dentes a bruma espessa do tédio,
Uma nova tese sobre o sentido e não o significado da palavra “força”,
Bifurcar mais uma vez as antigas raízes da arvore genealógica grega para além do atomismo de Demócrito,
Para que ventos além dos alísios, que sopre em nos ramos rente ao fundo das coisas,
E desfaça a velha camada de fécula cobrindo a dispensa dos sonhos…
Eu quero é que se foda o todo ideal, essa pedra metafisica colocada sobre os assuntos da existência, esse sonho politicamente correto, higienizado… essa coisa distante da distancia espantosamente mais próxima, esse Deus ex machina refinado, exílio do poético habitar humano..
Pois há, no recorte súbito de um vislumbre those blue eyes, those blue eyes rising up as blue sky at the dawn, those eyes blue and bright as the infinite blue adorning the abyss, mas “como isso” não é “como são” as coisas, e preciso do fato poético azul e claro de seus olhos. Há algo além do “como” nesses olhos viveu junto a claridade do céu infinito e clarificou-se de infinito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s