William Turner, Shade and Darkness - The Evening of the Deluge

Temporais

 (Pintura de Willian Turner)
Da série: Meu amigo, dia desses começou a chover.

Meu velho amigo, como não lamentar? Se aos irreversíveis apenas conjuga-se dolorosamente em meio aos temporais.
 
Ainda quando entre nós pairam as cinzas das coisas desprovidas de vibração, como um vento fugaz que atiça as faíscas, adentra a morada e revira tudo que estava solto, desvela a solidão das coisas imóveis.
 
O inverno ainda estendia a bainha de suas longas vestes de chuva além do salão onde dançara por muitas semanas, como se fizesse questão de receber e mostrar a morada do mundo à estação recém-chegada, ainda sutilmente o calor do sol tocava as coisas, misturando-se e dissipando o calor dos corpos.
 
Foi durante uma tempestade de primavera, a primeira da estação, que despertei desse longo sono de abandono. Transbordando de ânsias, como os brotos da primeira leva de florescências primaveris, fragilmente desguarnecido na estranheza desse lugar estrangeiro, onde parecia haver chegado como um tronco que arrancado ao solo pela força da enchente das chuvas excessivas, segue carregado pela correnteza, e acaba por ser encontrado muito longe de onde dera por principio sua jornada através de sua queda, em outro lugar, em outra estação.
 
E mais do que tudo longo foi o tempo em que busquei a segurança das coisas que me enraizavam no solo confiável de uma distância intocada.
 
Todavia então, revirado e confuso até o âmago de meu ser, as flores intempestivas brotaram belas ainda que frágeis, e o vento forte e ameaçador também nutria os coriscos de um fogo redentor. E, tendo sido convidado a apresentar um trabalho, lembro claramente como naquela noite, entre diversas injustiças tão palpáveis, chegou até mim o ocaso, e enquanto se iniciava minha fala sobre a tradição e criação, a tempestade se impôs em toda sua plenitude.
 
Enquanto discursava, sem notar minha voz afinara-se ao trovejar, e seguramente quando levantei os olhos, juntamente meu espírito se elevou para vislumbrar o céu desse instante, e como se intimamente contemplasse no relampejar a respiração de uma potencia tão oculta quanto os deuses naquela noite, pressenti no estrondo o ruído de minha queda, assistindo o esgotamento transparecer nas nuvens o raios como as veias e nervos disto que por dentro insuflava-me as vísceras até esse insustentável limite: e um longo e profundo incomodo me atravessou. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti em um longo deslocamento o próprio do dizer desencaminhado da vida.
 
Mas como naquele instante reencontrasse a mim mesmo, hesitante, procurei como sempre algo de familiar entre os rostos desconhecidos. Ficando a espreita nas beiradas de formular uma decisão: Sob a pele desse instante vasculhei além, buscando nos arredores da estreiteza em todos os caminhos por onde andei nesses últimos anos, no entanto, sem espanto, tudo parecia o mesmo. E então, a encontrei. E possesso dessas forças excessivas continuei a discursar e apenas aos poucos transpareceu a contradição. Nesse enleio percebendo que ela também me notou, fiquei ali parado diante da branca hesitação em seus olhos, revirando-se para o fundo seguro com que se estabelecera ao redor dos meses, mostrando que aprendera a largar o antigo apego conquistando o alheamento de agora, me comunicando que a história fora forçosamente apagada pois assim era possível, e me pareceu triste mais do que justo que também eu por muito tempo o fizera, e na imposição desta força estava circunscrito uma história ainda mais antiga e hedionda, e da qual apenas lutamos longamente pelos espólios de sua miserável herança, e bem antes de nós e de outros companheiros que tivemos, distantes antepassados já nutriam o mesmo fastidioso orgulho. No entanto, o único fato que para mim naquele instante apareceu pesado e claro, foi o seguinte: éramos amigos…
 
Quando tudo acabou, apenas recuei atônito. E para ainda mais longe deslizei no tempo em que permaneci alheio a tudo e todos, conquanto ainda falasse e ouvisse eloquentemente sobre as coisas: e essencialmente quando alguém me reconhecia, o efeito sobre a minha calma era devastador: exasperado fugia, escondendo-me na segurança daqueles dias alegres da juventude; em um longo suspiro formulando a mentira verdadeira, com que, fantasiadas de si mesmas, as palavras ditas não sustentavam o sentido em devir dos acontecimentos.
 
E ao me aproximar do novo, apanhava-me, pelo largo distanciamento dessa curva invisível e acentuada, falando sobre coisas impossíveis de partilhar entre iguais. Foi assim que, negado e desmentido, fui atravessado por uma enxurrada de recordações e espantado abrir os olhos, enquanto os céus trovejavam todas as injúrias lançadas ao redemoinho das lembranças, aquela tristeza irrompeu como o relâmpago iluminando essa hora, e inundando meu ser de angustia.
 
Meu amigo, assim derradeiramente o céu estremeceu e desabou sobre mim, e o que o estrondo desfez e num alto clarão desnudou, pronunciando impiedosamente o que não podia até então escutar, mas ainda que a voz recuasse temerosa de tudo o que estava ao alcance das mãos, tudo ainda ruindo, partindo, quebrando entre os dedos, deixando-me mudo. Nenhum orgulho poderia ocultar as covardias despidas, todas as feridas nuas, restando apenas esperar.

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