Solidão (Revisão)

Foi meio engraçado revisitar e perceber como na época em que escrevi esse poema passava por uma dificuldade oposta a que passo nos dias de hoje, nessa época o ritmo fluía muito melhor, e por vezes acabava simplesmente passando por cima do engendramento de imagens e mesmo do sentido, escrevendo coisas gostosas de ler, mas sem significado algum.
Era um poema bastante longo, e havia muitas ideias repetidas ou que não faziam sentido e foram cortadas ou reformuladas. Mas também muita coisa boa que daria para aproveitar, então inicialmente fiz os cortes e separei em quatro partes para serem reconstruídas em poemas diferentes, mas ao final pareceu que a separação faria com que se perdesse muito dessa viagem e experiência pela terra da solidão, e assim separei apenas a ultima parte para um novo poema, pois destoava em ritmo e estrutura do corpo principal, tomando cuidado nesse processo para tirar apenas as repetições que tornavam a leitura exaustiva, mantendo aquelas que contribuíam para densidade e coesão do trabalho. Costurando tudo através da composição de algumas transições.
Texto original: Solidão

 

Pelas ruas da solidão

I

Sem uma palavra sequer, ando por essas ruas,
Sombras do mundo que em mim condensam-se na noite,
Da melancolia,
Transbordando do esconderijo,
Sob o fundo falso da vida,
Em cada vontade de afastamento,
Sob a luva de ilusionista, sob o chapéu de mágico.
 
Subitamente a fadiga,
Nenhuma invenção adia ou salva,
Por de trás disto que sempre chega, à meia-noite das palavras,
Sem um nome qualquer, caminho pelas ruas,
Adentro ao vão sem fundo, zomba de mim a estranheza,
Cruel rebeldia de minha honestidade,
Tão crédula das formas,
Difícil, pois, crer no não que se mostra,
Tenho estas palavras obscuras,
Obscureço-me junto a elas,
E angustiadamente ateu,
Acredito na espessura do vazio,
 
Desprezar os efeitos, as consequências,
Eis uma ingenuidade que tenho cultivado,
Com mais amor que as sabedorias,
E há uma santa idiotice nisso,
Fazê-lo no silencio secreto que paira entre as vulgaridades de toda solidão,
Que nada me viu aqui, fumaça que predomina no abafado do quarto,
Que ela não tenha me visto, o ar que me falta aqui no peito escasso,
Sonho dum raio de luz que adentra a janela,
E as partículas das poeiras das ânsias que se mostram em plena claridade do dia,
Vida rasa, e o tanto dos reinos que nos ignoram.
 
Despindo a roupa dos pudores,
Assumo a presença furtiva,
Que aquece, ainda que fátua,
Chama de resistência,
Chama de vela, solitária,
Algo lá fora, algo…
Como brilho das lembranças,
Clareando o corpo, ainda estou aqui,
Vagando perdido pelas ruas,
Melancólicas,
De minha cidade vazia.
 
II
 
Entre o martelo e a bigorna,
O aço ainda teso,
Do que foi cunhado,
Adivinho, ouso,
Sou isso que ousa, e mira a ousadia como a um destino,
Do vasto desdobramento das vozes escoantes,
Dito como se reverberasse através dos anos,
Vindo do fogo cavernoso desse coração,
Demasiado capaz do obscuro,
E há demasiada escuridão nesses pensamentos,
Mas ainda curioso e incansável das luzes do mundo,
Embora, por esse título de nobreza,
Tão só e triste, de ser em geral,
Enquanto tudo aqui, nasce e torna a vir a luz,
Na densidade de um fluxo corrente,
Palavra por palavra, a fala soa como que distorcida,
A vida que se veste, pelos tumultos,
Tropeçando frequentemente nisso,
Do quanto me impulsiona o amor,
Através dos sempre diversos cheiros e sabores,
Nas longitudes de gotas translucidas,
Pela tímida superfície aquosa do olhar,
 
Escorrem…
 
Mas em cada elemento, contido,
Um pouco de ida e um pouco de volta,
Deslocado do sentimento do mundo,
Talvez ainda haja mais um voto de silencio,
Nada passou num piscar de olhos,
Mas agora acordado como dum sonho intenso,
Tudo passa num pestanejar,
Coração de barco, sem porto,
Imensa é a tristeza noite a fora,
Enquanto aqui, transbordo de estrelas,
Eu mesmo contido de tantos faróis e, contudo,
Inconsolável dos sistemas da vida e suas órbitas no vácuo,
Sem a partilha,
Posso ter aqui, uma garrafa da mais doce alegria,
Mesmo a menor dose, um inútil desperdício,
Cheio da solidão na solidão,
Das receitas homeopáticas de como ir,
Ou por onde tentar,
Se perguntarem se houve uma grande mudança,
Talvez olhe ao redor possuído de alguma esperança,
Alguma vitória sobre si mesmo e…
Não, mais nada,
Boas mãos para plantar, e não para colher,
Solidão, a terra natal que carrego como um caracol,
O ouvir desta concha espiral no âmago do ouvido.
 
III
 
Mas então, que ao acaso, o odor de um perfume me chega,
Sentir seu cheiro,
Seu corpo suave e tenro,
E o olhar brilha a lamina do encontro,
Doce que se enovela, duma trama de anseios,
Farejo isso, como se adivinhasse seu sabor pelo intenso,
Como que vinda duma outra noite, e vestida nisso sem rigor,
Deixando o coração contrariado de convalescente,
E o desejo, massa convulsa, busca atingir a forma de um gozo.
 
Vela-me o desejo ardente,
Mas ainda creio nisso em que acreditei outro dia?
Há entre os dentes cadentes dos céus,
E os dentes ascendentes da terra,
Algo que esteve mastigando o tempo,
Devorando a carne de minha substância,
Quantas angústias, quantos túmulos,
Já não estão entre agora e a primeira vez,
Em que fiz aquela promessa inesquecível,
Incrivelmente agora,
Da melancolia à barbárie das percepções,
Sei o que perdi e onde não quero ir, para me deixar levar:
Morrer de desencantamentos,
Matar de tanto não encontrar,
Sei o absurdo, não ter um bom senso,
Sair correndo abrir a porta a loucura,
Espero, descascando camadas e camadas de sentidos,
Superfícies do ócio,
Até o ultimo adeus, a derradeira despedida,
A forja dos fantasmas.

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