Como a caminho de Ítaca

(Pintura de Peter Ilsted)

Minha amiga,
Que olhos, cheios de ilusão,
Suportariam ver, ao adentrar e encontrar-se, reles ossos,
Ao devastado silêncio dessas ruínas,
Que vento terrível, sopra o ar,
De todas as mortes insepultas,
E também as flores,
Que sozinhas, brotam em áridas e pedregosas paisagens,
Também tampouco recordamos,
Como um dia, adentramos ao mundo como da pequeninos deuses,
Na infância,
A partir do que, não atravessam ilesos os ramos,
e os esporos luminescentes de esperança,
Vagando entre sombras de estrangeira distância,
Ainda que como nós, continuemos sonhando tristemente,
Se a noite é um arrebol escuro e vazio,
Onde todas as coisas apenas retiram-se o silêncio,
Do impossível “quase”,
 
Ainda que como nós, e…
Como silenciamos, ínfimos, quando a claridade,
Derrama o sereno ruído de todo o sentimento,
Espargindo na alma, o canto agudo como a natureza de lá fora,
Se o vento arvora-se, farfalhando, e assim conversa com as folhas,
E os pensamentos mais altos e sábios em nós parecem sentir mais uma vez o frescor e assanhamento da primeira descoberta,
Ou se a chuva cai, e misturando o cheiro do céu e da terra,
As alegrias e tristezas interpenetram nossos pensamentos, como o turbulento rio, que ressurgisse dos subterrâneos, encharcando além das margens,
E, ao entardecer, com qual deslumbrante policromia vibram nos céus,
Levasse-nos ao êxtase do embate as luzes e as sombras da vida diante do que ficam em suspenso nas incertezas o que um dia se soube tão bem,
Naturalmente, parecem, os deuses de antes ainda se movem,
Ainda tão incrédulos, timidamente desprende-se a fé,
Como se em nós a criança de lá fora, ainda distraidamente crédulas,
Nessas horas amenas, e em que a serenidade convida-nos ao silêncio de uma oração,
Dirigimos-nos ao santuário de tudo o quanto pode haver de sagrado,
Qual lira toca o impossível regresso,
Ao coração selvagem de tudo,
E ser demora uma estação,
E então, e tudo de lá fora até mesmo em nós, sem cerimonia adentram a morada,
 
Deveras esse sonho em que tua presença aproxima-se,
E volto a acreditar na violenta força das tempestades,
Acredite no poder na possibilidade de mudança,
Onde se vê nesse devir do ser do humano um dever para com o ser em si,
E isso já me basta para sentir invadir-me a tua proximidade,
Tal como é o amor por tua amizade,
Talvez apenas pelo momento em que, nalgum tempo,
Consumou-se em nossos espíritos,
 
Bem sei, todavia, que o delírio desse horizonte não queima toda a febre da fantasia,
Mas se o menos por um instante me perco,
Deixo-me transcorrer da esperançosa revoada,
E sinto que entre nós confundem-se o bater das asas,
Voam aos céus as promessas que me rogo ao coração meu,
E deve ser o mesmo no coração teu, até quando se distinguem,
De ser um eu a sós, e por vezes o que sustenta,
Também me falha como o peso a voz,
Em uma tristeza da qual ainda vi amanhecer o brilho de um olhar cativado,
Anoitece,
 
Às vezes, ao contrário, não sentes que as palavras te enganam?
E por mais sentido tenham no enredo de uma prosa,
Ou na lógica de um ideal,
Destaca-se ao fundo, o vazio de algo que se esquece ao se sair apressado,
Parece que o sentido que verdadeiramente nos alcança se perdeu,
Na plumagem dos dias, e voando alto,
Plainamos, intangíveis, sem pouso,
Que o céu infinito em que o delírio poético se lança,
Almeja mais uma vez, a queda,
Mais uma vez, esfregar os pés na terra,
E sentir na pele o sentido áspero e fértil,
Da vida tão perto da morte,
E assim, traímos-nos, inventando o possível chão,
 
Assim bem sei, ainda que o sonho,
De acolher a flor perfumada de ânsia,
De teu coração,
E isso me escapa entre os dedos de toda a vida,
Que em nenhum sulco inscreve-se teu nome,
Da palma de meu destino,
Mas como se por um fugidio instante ousasse,
Soprando a brasa com todas as forças escassas do peito,
Tocasse os fios de teu cabelo negro,
Quando a noite ainda tece sua trama na penumbra,
Do que não se vê e também não desaparece,
E depois a boca tua diz,
Deixando no ar,
Apenas a palavra,
Deixando o largo estreito desguarnecido,
De que as estações vindouras,
Extraviam-se do caminho,
Disfarçando-se de sonhos,
Tão distante de tocar o possível,
Como o amor fantasia-se de paixões,
Nos bailes da vida,
E se perde sob a máscara,
Assim o futuro desvanece,
Como os deuses na obscuridade,
 
E o fumo do embaraço de ser eu a solidão tacitamente,
A cada trago,
Sufoca na bagunça do sentimento descabido,
Vigoro-me ante ao espelho das coisas tão crédulas de mim,
Junto ao sagrado findar,
Presos a opacidade de tua ausência,
 
Odeio caudalosamente,
À tarde triunfal da alma,
Que calorosamente abençoa-me a solidão,
Tão clara de tua ausência,
 
Deixe-me sê-lo sorrateiramente,
O impossível resguardado pelos mistérios de não saber,
Através bruma perfumada que sinto sem ver…
Sempre tão tarde, justo quando se perde,
Fere a luz de um farol…
E se esfuma todo remorso,
 
Mas imensa é a falta que você faz na minha vida,
Minha cara amiga…

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