Meu amigo, no abrigo da noite estrelada um coração espera

(Excertos do texto inédito, Dia desses começou a chover)
 
Mas calma, é lentamente que a bruma áurea se dissipa ao entardecer de todas as coisas. E enquanto de seus esporos luminescentes de lembranças nascem as estrelas nuas de tristeza, e interrogam onde ainda bate verdadeiramente o coração. Meu irmão, se nesse silêncio ouço escoarem para longe as vozes serenas que acima de tudo se cativam do brilho das estrelas.  Adentro ao silêncio dos ermos, vento frio a levar-me a presença de mim embora, e na clareira dessa ânsia, atravessa-me o espinho, como se cultivasse em segredo, um jardim a beira do abismo. E lá, alheio ao conflito entre ideias e emoções, e a ameaça de cair no vão sem fundo, inesperadamente o coração sonha como se brincasse e tocasse o próprio sonho, mas como é possível? Como perdeu-se essa linguagem tão íntima? Se era tão claro ainda agora? E tão estreita a cerca entre esses vizinhos? Amigos? Irmãos? Traduzir-se é, dessa longa e ininterrupta conversa entre sentir e pensar, espantosamente dizer a verdade.
 
Aqui, neste lugar, onde livre de obrigações e contentas, abandonar-se ao acaso, é de súbito dar-se conta do cansaço. E como a bagagem que se lança em algum canto, em casa, após uma longa viagem, e vai desfazendo-se ao longo dos dias, a alma transcorre turbulenta como um rio, liberando as tensões através das pedras e coisas imóveis no caminho. E o coração como um animal selvagem, aproxima-se para beber das fontes e farejar os rastros do estranho. E não havendo nenhuma outra travessia, nenhuma queda, as luzes, os ruídos, do mundo e das cidades, perturbam a tarefa do artificie curioso da nova invenção. E as dores dos caminhos, estendem-se nuas sob o céu, e interrogam os infinitos de além, ao apagar das luzes.
 
O quão cedo acendei-as novamente, o quão cedo tocai todos os sons, perfumai teu cheiro, fascinais do novo, e alimentai do pão das presenças, ocupando a demora, tão brevemente surge a fome cheia de ausências, os pés maltratados e as costas queimadas não deixam dormir, não deixam se encontrar em meio a bagunça.
 
Quando os ecos aproximam-se do silencio aberto, e magoam as feridas com o sal das estradas, a velha linha do destino aperta o nó e vibra, entoando a lira da tristeza. Quantas ausências, quanta solidão, e o espírito vela solta, farrapos e fiapos, flamula no ancoradouro.
 
Despertamos para a noite, longe do escuro alegre do trabalho, em que sumimos em meio a tecedura, e apanhar-se só com a rede desses pensamentos ressoando sentimentos febris, quando por fim estendeu-se o tapete desse deserto? Ou sempre esteve? E o ouvido afinado, apreendeu a descortina-lo? Através miragens esperançosas e consoladoras? Mas o que é, então, insuportável? Por onde esse espinho penetra ainda mais fundo a carne?
 

Meu amigo, não é o mero fato de termos perdido rumo a cada vez. Que ao final, nos recolhamos para a distância da presença, mesmo que o silêncio pese o seu pesar derradeiro, sem injustiça ou misericórdia.
 
É apesar de tudo ter passado anônimo em qualquer tempo ou lugar, despido na crueza da própria intimidade, tendo aprendido a receber nesse interior, com olhos sensíveis para as luminosidades e escuridão de cada olhar, de cada coração, ter mãos gentis onde a rudeza persevera para tolher com cuidado o que há mais precioso. E mesmo assim, passar os anos distanciando e então acordar… para a solidão, com a reles fragilidade de não ser reconhecido,  se não no frio aspecto do estranho vulto do olhar que procura apenas as fórmulas e estruturas.

E neste cais, o vento anêmico, a lua estéril, o mar afogou-se na escuridão, a noite morta consuma a solidão no frio abismo das ondas, devorando todas as proximidades e distancias, e nela lentamente sentir o corpo afundar, e por esse desespero de tentar e não poder respirar: invento a cauda de um cometa rasgando o silêncio a partir da matéria alva daqueles olhares perdidos no mais longínquo, se me volto para trás, e assim salvo a mim mesmo por mais um dia: e se por acaso olhais para o alto e contemplais a luz que forjo à punho tremulo sentindo a vida esvair-me irreconhecível e indecifrável dos ossos, sem olhar-me, sem buscar-me, e julgas saber o signo de uma esperança que em verdade quase não resiste ao peso absurdo de poeira e cinzas que devasta o ar e acompanha o anonimato de minha andanças pelo mundo, como se eu mesmo já não o tivesse feito. Ouça, nada tenho, além do que forjo para me guiar na noite dos deuses e no silêncio indigente.

Se o vislumbre das estruturas consola a ti, se confundes a essência das coisas com as coisas da essência, se aprendeste a chamar esse claustro de madureza, cala-te no seio de teu senso de dever consigo mesmo, em todas as pompas, estais certíssimo em tuas conveniências, além de tuas visões internas, além do olho vazio de olhar e cheios de medidas, lá fora ainda há luz apenas como estrelas na ventania da noite angustiada.

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