Metafísica dos espelhos

Para Baabi…

[…] Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses […]

(Fernando Pessoa – Ricardo Reis)

Como uma cidade,
Seus cartões postais ocultavam
Incontáveis injustiças,
E ainda que demorasse algum tempo,
Era impossível para mim não sentir,
O que ela sentia,
Como uma cidade…
Ainda que com dedos mais frágeis,
Que os falíveis olhares,
Descobriria a certeza áspera do concreto,
Sob a cor das paredes sujas de tinta,
E todas as obrigações para com a cartilha
De direitos e deveres da impaciência,
Deposto o tempo para o infinito atraso de ir onde for,
Na cidade que nunca espera,
E mesmo os rumores de um suspiro de alívio,
Exalta a ameaça abafada,
De falhar em ver, o tempo certo em tudo e todos,
E, assim, quanto esforço é preciso,
Para dizer, afastando de si todos os medos,
Ansiando fraquezas do que pode parecer,
Tornai-lo evidente em não ceder, pois, sobretudo,
Como uma cidade,
Não há tempo a espera.

Ela chegou na hora marcada,
Esperando não esperar,
E lá estava ela, estacionando
Um risinho simpático,
De fazer inveja a muitos diplomatas,
Acho que ninguém dirigia,
E de algum modo, estávamos desesperando,
Da carona, de algo que guiasse o curso das cousas,
E dispuséssemos da presença um do outro,
Como de carona, como se ainda houvesse tempo,
E conforme nada ia sendo dito,
Nada que realmente importasse,
Apenas os ruídos do tráfego,
Fluindo o cotidiano,
A espera talvez,
Do derradeiro,
E mais evidente desfecho,
Será talvez,
Com o som do impacto,
E os estilhaços voando,
Para fora do peito,
Do que já foi um dia,
O Coração de vidro pintado,
E trespassariam entre nós,
Como navalhas que, verdadeiramente,
Tocam a carne, e revelam o sangue,
Pois a mão, o dedo, o gesto, já não o podem mais,
Aquilo de que, nos retrovisores,
E janelas,
Ainda pareceria a fantasmagoria metafísica,
Como aquela expressão,
Parecendo desgosto,
Mas sendo frustrada ânsia de algo a mais,
Talvez fosse outra coisa,
Sugeriria a metafísica do vidro da frente,
Mudando quadro a quadro
As imperfeições no rolo,
Através do projetor,
Das luzes noturnas da cidade,

E conquanto ela também me visse,
Talvez no filme aquele cara ali,
Estivesse a reprovando,
Enquanto no banco o cara apenas,
Não soubesse o que estivera fazendo ali,
Ou em lugar algum,
E também ela tanto ou mais,
E ele e ela sentados um ao lado do outro,
Fossem a verdade que não se pode ver,

E então, subitamente,
Uma vontade cega abaixa o vidro, põe a cabeça para fora,
E grita:

AINDA MAIS UMA VEZ CORAÇÃO!

COMO SE DIZ “JUNTO” OUTRA VEZ?

E quando volta para dentro, ela está comovida,
Chorando e rindo,
Mas a fumaça serpenteando dentro do carro,
Enrosca e aniquila de orgulho o espaço entre nós,
Havia muito mais reflexos do que nós dois,
Sabíamos,
Era tarde, o grande tráfego da cidade,
Nos guia e devora,
Sabíamos,
Nunca mais iriamos a lugar algum,
E nem tempo o bastante,
Sabíamos,
Havíamos nos tornado todos,
Metafísicos de espelhos,
Sabíamos do esquecimento,
De que faz-se muito apenas deixando para trás,
E lançando-nos adiante, na tarefa,
De entregar-nos a conjugação de um tempo,
E falta-nos infinitamente a coragem,
De ir além do espelho.

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