Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

(Imagem: Pintura de Louis Jambor)

Ah, viajante noturno de minha ventura,
Tão longo e tortuoso é a jornada desta década,
Trazei consigo ainda talvez o derradeiro sopro de vida,
A última flama de fogo divino roubada dos antigos deuses de outrora,
Sob o uivo perene das quimeras ecoando distâncias intransponíveis,
E todos os áridos caminhos desde as fontes secas,
Rasgando aos poucos feridas no rosto e no peito,
Rachaduras na velha carne de barro seco,
Pleiteai para sempre um leito,
Uma hospedaria na deriva dos dias vãos,
Pleiteai para sempre um gole,
De mel e veneno nos braços do mesmo,
Neste mundo de semideuses,
E todos os amanhãs dormem um sono irreparável,
Mas ainda orai no segredo da língua mortal,
Por todos os dias santos,
Das fontes jorrando,
Do peito sangrando e o coração desmesurado,
Mas comedidamente, não saciai toda a sede,
Para não cair para trás,
E afogar-se nas águas escuras do passado,
Salvai-me do brilho cego de todas as laminas,
Que cantam suicídios,
Através das frestas do que foi quebrado.

2 comentários sobre “Preambulo à Tristeza: Desventuras de barro forjado

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