Videiras

cepa

Foi calado sob um céu estranho, que me reencontrei vagando através da longa rua dos desencontros, carregadas nuvens fechando-se sobre o mundo, ameaçando obscurecer qualquer vestígio de coisa particularmente familiar na opacidade de tudo. E nesta cidade cinzenta de meus pensamentos envoltos em uma gravidade mais densa, tudo o mais ascende como fogos-de-artificio ou uma salva de tiros contra a resistência infalível do ar. Tão mais longe e impreciso de rasgar a muralha deste véu estendido postes e faróis de que às vezes acendiam também a superficialidade com que as coisas clareavam, vez ou outra ainda ascendendo ao fraco luzeiro dos últimos anos com um breve relampejar e um cheiro pólvora, deixando os cantos mórbidos em que aqueles dias escuros permaneceram imóveis como o lodo que cresce na sombra úmida do descanso.

Sem vestígios de chuva: Goteja, goteja…

Isso que passa com o tempo, isso que foge a cada instante, isso que vaza apesar da contenta, e sem secar tudo o que podia é enxugado, isso que também é excesso e não fosse o tédio e o oportunismo estrangeiro talvez estivesse entre o brilho das estrelas, riscos de giz apagados da existência, esse ruído desprovido de ecos, incomodo e repetitivo, como todo o árduo trabalho de conter.

Sem sobrar nem uma gota para saciar a sede infinita….

Apenas todo o aparato de estancamento a tecer um tecido estável sobre as dobras do estranhamento: uma mão se fecha sobre o silêncio, uma outra vacila em segredo, varrendo medos, penteando a compostura, vasculhando a tristeza sentida como textura num rosto desconcertado, enquanto o vazio funde-se a atmosfera derivando a aspereza de que tudo no ar tem cheiro de ruína.

E quando recomecei a contar essa estória, já eram minhas suas pegadas e vestígios deixados no avanço, como os membros do esforço desventurado de fugir como se a madeira seca do espírito estivesse prestes a incendiar de ódio, e retornar a partir de onde começa o caminho, além das fontes, e mesmo durante o impossível mantido a todo custo como desculpa para tardar o dia fatídico em que estive inteiro. E dês de então não foi calando a revolta, mas refazendo o caminho de ida e puxando um a um os fios da reminiscência, para reencontrar tão distante de onde havia visto pela ultima vez, arrastado até a crueza exposta sobre as pedras e brasas ainda incandescidas, fui me deixando seguir o movimento irreversível de sempre, no qual esteve fundo sombrio da alma perdido de seus contornos. Fechei os olhos e senti em todo vigor:

E é impossível parar o avanço retorcido dessas lembranças…

Afastado dos campos vívidos do olhar videiras cresciam, continuando a fugir como que perseguindo e percorrendo o estrondo daquela despedida,  dando inicio a partida em busca do novo, esgueirando nas curvas do todo quase, almejando a luz, escapando e traindo os segredos do jardim oculto, e no entanto ramificando o caminho além da fontes, contorcidos em meio ao turvo desdobramento, encoberto e encobridor de um tempo em penumbra, tateando a  travessia  com raízes e folhas e frutos entre os urzais do acontecimentos, como pés e mãos enervados e firmes realizando a colheita oculta ao percorrer veias e veios de caminhos mais antigos com o resguardo a macerar a clara sabedoria obscurecida do fruto saboroso e maduro até o tempo da festa.

E essa seiva escorre toda aspereza contemplando as ranhuras, enquanto raízes enchem e transbordam a profundidade dos sulcos, e a longa linha retorcida, seguindo um pouco de luz onde quer que haja, inflexionando sobre curvas inesperadas, desdobrando-se sob o curso do tempo, atava mais um ponto ao vasto tecido espalhado pela ramagem.

Sentia como se estivesse enxergando através do fundo falso de um calvário, vendo os dias passarem resguardando o corpo morto de um milagre olvidado e abafado aos sussurros.

Na hora tardia, quando de súbito ecoou o conselho de ir lançar rosto e cabelos ao vento, para mim foi como se miseravelmente liberasse o tempo a fugir toda sua fuga, estando como as folhas mortas de uma outra estação, dispersando o vazio em toda instância como a um desperdício que finalmente se esgota. Mas não se sabe a dimensão da ausência até o trovejar do relâmpago nela ressoe.

De qual tempo tão outro escoam essas vozes antigas? Adentrando a noite mais escura, desmesuradamente distante de quem se foi um dia. Do subterrâneo dessas horas opressas, do chão parecia brotar a nascente do sentimento , alagando as fundações, no charco e na tétrica da brisa fria. Munido do candeeiro aceso no peito e a canoa de um navegar lento, o luar surgia refletido na superfície escura, seduzindo com promessas de dias melhores: e podia jurar sobre o que vi, enquanto a chama fraca inclinava-se, como uma criança curiosa, sobre o umbral do silêncio. Um desatino ante ao espelho dessas rasas profundidades, segurava a cruz da espera e rogava as contas do terço de não cair nunca mais.

O que permaneceu ruína, sobre o abraço retorcido dessas veias cheio do fluxo tempestuoso de sangue latente, jorravam como as vozes protetoras através de feridas mutuas que cortam o que foi e o que não quer passar, queimando lenta febre ardendo do incêndio sem voz. E apenas o coração, contenta profunda das candeias, iluminando o fundo sombrio da alma, pode ressoar esses ecos de luz-escura. Lançando o fio condutor as questões que reconduziram a todo o caos que o sustenta, com as perguntas que não lhe foram feitas.

Imagens já desbotadas de credo ressurgiam das lembranças, como num outro jogo de ilusões buscando no relógio da existência a direção certa o tempo certo, em todo vigor mais próprio, é possível ouvir esta afinação evanescer em tons a cada vez mais vívidos, do ressentir caloroso derretendo o gelo anestesiante, deixando o sentido de ser refluir na gruta do esquecimento, escorrendo a umidade mnemônica nas lágrimas de uma tristeza inconstante, e porventura acordando a aranha dos sonhos de seu ocultamento. A teia de encantamento daqueles dias intermitentes entre outono e primavera ainda permaneceu. Nos cantos sombrios onde me perdi, continuando estar perdido mesmo após reencontrar na alegria do amor qualquer algo como uma razão de vida.

E na clareira dum meio caminho agreste e escarpado, observando o doido arrepio eriçando a copa das arvores, o abrir das asas de um pressentimento voando baixo e próximo ao ninho, pairando oculto e tão próximo de uma presença, como um sonho fragmentado e sucessivo, sem poder esquivar ou esconder a denuncia dessas coisas ao redor, caiu sobre mim, desfolhando em lagrimas a pétala de um riso, mesmo que fosse estranho e desconhecendo as razões, embarcava mais uma vez no rio turbulento da nostalgia e nunca deixa de ser trágico e cômico a facilidade com que somos levados a lançar a mão em sua correnteza de calmas horas, deixando os dedos molharem-se atravessando a superfície e o fluxo, como que penteando com rastros a longa madeixa de seus cabelos negros de noite e prateados de luar, e mesmo, ao despertar sem norte e quase se cair, admirando o espirito luminescente destas lembranças não há então riscos maiores do que abandonar-se, apenas para vê-las nadando caudalosamente em pouca profundidade, e ali afundar um pouco para tocar a cauda translucida do sonho.

Talvez mesmo que fosse apenas a imagem quixostesca projetada por luzes mais distantes, pronunciadas como que continuamente transfiguradas num aspecto de língua morta recém-nascida, habitando este estado através da lente curva e densa da melancolia; Outras vezes, enquanto as luzes se apagavam, o foco mudava, e avidamente num mergulho atravessando a escuridão chegando ao lugar onde brilham mais fortemente as horas alegres e despropositadas. E mesmo que de volta a circunstância de estar sobre o holofote do presente, é se tomado então, por um excesso de vento e abandono, a adentrar na estrutura rangida do velho moinho, para deitar num chão de poeira, e entre paredes de estalos…

No instante preciso de descobrir encoberto na passagem, exalando o cheiro forte e nostálgico, em todos os sussurros sangrados de alento, de uma ferida solta no vento…

(O que não silenciou ficou assim...)

O giro preso a roda solta,

(..como uma roda insculpida no vento)

Um ultimo suspiro de ruína,

e uma salva de estalos.


E finalmente desaba.

Aquela imagem se desprende, e em rumo a ela todos os sentidos se aguçam para em seguida fundirem-se ao próprio foco. Os elementos se misturam no acre sabor de uma fermentação, é possível mirar com outros olhos o tempo porvir desfiando e refazendo as formas diversas num mesmo ato, que ainda permanece desfeito na luz de uma cura e numa escuridão doentia. Que dizer, pois que dizer? A ferida tempestuosa da mórbida letargia que a tudo inflama, o caos sustentando a crista das ondas uniformes a espumar em silêncio no barulho ensurdecedor de todos os dias.

Seguir o pôr-do-sol e todas as suas luzes,
Fenecer junto a essas incandescências,  
Em sintonia com o que se desfez em noite,
Desaparecer por entre e sobre a sombra e as obscuridades,
Rumar sem abrigo até encontrar o refugio das entrelinhas,
Ainda que ante as covardias a coragem vacile,
Com por sobre o túmulo de reis jamais encontrados,
Seguir à deriva até onde sopra demais o vento,
Seguir, seguir, seguir,
Não obstando o véu da morte encobrindo a vida,
Caçando as luzes como o cheiro de quem se amou uma vez,
Beber uma dose de luz e sombra,
Sentindo a violência desses atos de vento reunir,
Em sua agressão mais própria,
A forma imprecisa da candeia inflamada,
Sentir no corpo fermentar um deus,
Incendiando os sentidos,
O sangue espeço cobrir a feridas da alma,
Tocando com dedos trêmulos a semente de uma estrela,
E num único golpe reacender a chama consumada da mortalidade,
Em toda sua profundidade tanger,
O uno diverso em si mesmo.

E depois acordar, com quase nada soçobrando, esvaziado de sentidos. Estar simplesmente só e presente nisso, suturando os recônditos vazios. Imerso e difuso como a lama, enquanto o desabrochar carmesim dos Flamboyants beiram à margem. Um coração que ainda segue arrastando-se, poluindo um rio sujo, ressoando insistentemente a voz que quase desiste a cada instante, afogando-se em seus próprios ecos turbulentos. Uma ponte! Enquanto na santidade maculada dessas calmas agonias, onde me encerro e me recomeço, o doce perfume emerge como um coro entoando o ser, impulsionado pelo vento excessivo do céu azul onde os pensamentos se desfazem. A fantasia sutilmente a cingir o rosáceo de seus lábios os quais já não conheço mais movendo-se através das nuvens, um infinito invadindo e inundando o olhar, expondo e deixando num único movimento todos os ossos do que jaz destroçado.

Um absurdo deixa-se ouvir gravemente. Vigorosamente, o peito se abre, o sangue se enovela, formando longos ramos com um coração em flor. E um silêncio oceânico e alegre se impõe, entrecortado apenas pelas ondas calorosas de uma respiração. Nas entranhas algo se despedaça, se agita, se dilui, a pétala em frêmito das portas batendo escancaradas. Candura do fogo que arde, que ventos fundem-se sob este Sol tardio, amargos, doces e salgados, conheço o pulso distante e profundo dessas entrelinhas, como veias perdidas de caminhos ocultos que ainda levam ao coração.

Embriago-me com a fantasia em que este peculiar dilema me trouxe a mergulhar os dedos na profundidade de uma escuridão que é minha, sigo por encontrar uma florescência de luz adornando as escavações mais fundas. Videiras entrelaçadas em toda parte.

Translucidez! – a ferida doce dessa claridade, e este algo  lançado sobre os limites da queda. Nisto em que estou completo nos quebrantos de ainda-por-fazer. Tragar os fantasmas, expirando quase nada, quase tudo fica preso, num mar de coisas retorcidas. O silêncio e o tempo. O translucido de uma alma que estua do mais intimo e visceral pra tremular encarnando mais uma vez a pele… Não o posso dizer-lo mais alto, mais fundo ou mais denso, há no ar tudo que é.

E como chegam tarde essas estações em que as belas coisas estão mais dispostas a fazerem sua aparição, como numa saudosa miragem a vejo, como tivéssemos escolhido o mesmo canteiro, surpreendido neste encontro, também sorrio ao vê-la admirar-se: a mais estranha das flores, feridas e sujas, as mãos se estendem e desabrocham vibrando ao vento de súbito distanciamento de si –, quando fatalmente aí está o jardim no auge da florescência. Sobre as pétalas abertas, os espinhos e as raízes de suas marcas. Uma poda contenta os cachos de frutos maduros. Lentamente reconhece o cheiro disperso do tempo – pois tanto quanto eu – está em casa.

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