Rosa dos ventos

Eramos vizinhos de anos em silêncio, e em apenas algumas semanas começamos a parecer como amigos de longa data. À portas abertas, falávamos da antiga distância sempre com algum humor sobre os enganos, as ironias e coincidências. Como essa música chegando a rua com a displicência de uma janela escancarada, passando em frente a casa. Sobre as impressões deixadas, medindo aos poucos algum tipo pontaria onde se cria em segredo ser o único alvo admitir e a diferença desse efeito com o qual se percorrem as curvas suntuosas de sorrir agachado, surpreendido, explicito na obviedade da rotina e implícito na pele dos trejeitos de cada um. Os achados em tons amenos, temeroso de haver algo inesperadamente afiado ou evidentemente cego sobre a honestidade.

Mas não você, mas não eu. E caiamos na gargalhada, era quase tudo sobre estar caindo nesse riso macio ou áspero quase todo o tempo. Mas também era frequente, que subitamente desamparados a intimidade nos abrisse a porta da confidencia, vagamos para algum lugar invisível sob a cortina da penumbra,  e de repente não havia o que ser visto..

Outras vezes, fatigados da quietude, agitados e sendo bom o bastante para se tagarelar sobre tudo, eu com minha estranha mania de caminhar pelos cômodos, e ela a remexer naquelas caixinhas espalhadas pelo seu quarto, abrindo e fechado uma a uma, em busca de algo que parecia nunca encontrar, ou quando enfim encontrava parecia estar sempre naquela maior, decorada com fotos, de astros do rock, deuses hindus, filósofos contemporâneos e pinturas impressionistas.

E então, ela punha de volta o que havia encontrado em uma outra caixinha, e se jogava em algum vento futurando a refazenda a costura de antigos sonhos com as pernas para cima e perdia-se em seus pensamentos, entrelaçando uma mexa de cabelo com os dedos. Nesta hora costumava a sentar na sacada e acender um cigarro, e ficava ali observando o seu movimento, e então dava me conta da diferença de idade, e no entanto, era gostoso vê-la ser pega pela rede de seus sonhos, e depois, eu também me perdia, sem perceber que ela havia se aproximado para perto e para dentro, pondo a mão entre as minhas e os seus sonhos entre os meus, e enquanto ela acariciava os meus cabelos ela disse: “acho engraçado o tanto que gosto do teu cheiro misturado ao do cigarro, nunca senti vontade de fumar, mas gosto de te ver e de te sentir fumando”;

De um jeito estranho, era complicado tentar encontrar uma resposta. Precisava de tempo, mas não de qualquer tempo, então deixava estar quem sabe mesmo para que não tivesse que dizer alguma coisa, esperar que tudo se resolvesse sozinho, que pudesse contar com aquelas intuições quase-orquestradas que costumava a ter…

Estava cansado, mas não apenas cansado, a fadiga física chamava todas as outras, como uma trilha sonora que evocasse as lembranças de tantos cansaços, de espirituais a emocionais, que o clima ficava abafado e o momento transpirava cheiro de poeira e naftalina, como que trazido por traças do armário de velhas roupas, à portas abertas.

Algo ficava assim, escancarado, ainda que as sombras do dia fossem embora mais cedo que o de costume, e a esperança exposta e falível, pedia que demorasse mais, todo o tempo, que houvesse uma eternidade antes do fim;

Dia desses vou inventar um século inteiro, para falar de velharias, antiquários, algum tipo de genealogia ou arqueologia contemplativa, feito descobrir aquele quarto que servia de deposito na casa de nossos avós, aquele sentimento de embriaguez ao sentir o cheiro, as formas estranhas, esse olhar perdido vibrante sem fixidez, apenas para que no século seguinte fosse possível, enfim, falar do tal do amor.

E nada disso teria haver com o tempo em si, como se fosse falar sobre as propriedades que um vinho envelhecido adquire, as reações,  o refinamento, a fermentação; Mas de impor ao olhar a obrigação da dedicação, de lhe sugerir a serenidade, a dispersão, a profundidade, um tipo de fenomenologia do espírito onde fosse talvez possível supor a presença de um deus da história, ainda que inevitavelmente viéssemos a notar que estávamos apenas remexendo as entranhas do seu cadáver. Trataria de incitar um movimento de conformação e inconformidade, passar suavemente os dedos sobre a pele das coisas deixadas e sentir a camada de cinza na ponta desses dedos e redescobrir vivacidade da cor dantes encoberta sem a necessidade de etiqueta-las e engavetá-las.

Uma verdade encoberta, quantas geometrias angulares ainda caíram por terra antes de sequer notar a superfície da fluidez, por vezes, como estar nelas crendo sobretudo no que é duradouro sobre a mancha, uma verdade encardida, mais que era possível ver um pouco das asas nos pés de sua infância, ou a primeira queda de sua juventude, quando desabafou o desperdício daquela alma inocente e breve, sem tanta distância, ainda podia inveja-la, mesmo que discordando de tudo o mais, era: a mancha.

Depois, descobria uma cor, antes imperceptível, e fazia dela uma dualidade, como o calor do vermelho e o frio do azul, intrigava-se com as contrariedades, descobria as composições, laranja, verde, lilás, e via uma familiaridade nas nuances, prolongava-se, então, descreditava nas imagens de quais tons de verde e quais tons de azul, vendo apenas as composições, a técnica, o pincel, mas era a mancha?

Não era essa mancha, o amor? A paixão transbordou o vinho de seu sangue no pano da alma? Sob a o apelo de qual faca? Aspirando a inconformidade com as conformidades, ao ter abandonado aquela forma rasa e veloz com seus pés alados, e não havia sempre uma queda?

Encardido dos pés as cabeças…

Demorando entre o velho e o novo em cada coisa, loucura e razão, orgulho e desespero, o que era romântico, vinha de Roma, como que incendiado na pintura, aquele estupor horas de mudança no céu de todo dia, circunscrevendo o contrário do amor, do toque que faz vibrar, não algo do que é inverso em si, mas o outro, ela ou ele; Além do objeto fantasmagórico, do que é invasivo na presença, mas ainda, ainda, revestindo longamente o todo, transtornando com a dança no movimento, equilibrando-se frente a gravidade das situações, terra hostil e pátria, enquanto já estava fora do começo, lençol estendido vibrando ao vento, e imerso ao mesmo tempo, vela e vento à proa, essa cumplicidade que fez desbrochar a rosa dos ventos, e que direção? que direção ? Plumagem…

…Ferida. Alegria. O raio. Grave e agudo, a voz trovoando junto com a tempestade: o mar infinito.

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