Densidade

(Da série, confissões, malogros e outras penitências).

A primeira cumplicidade que sinto com qualquer pessoa com quem por acaso venha a travar um bom diálogo, um diálogo franco e aberto, no estilo grego, diga-se assim: um confronto. É quando, mesmo que já o tenha dito antes, aquela pessoa chegue a concluir: “meu caro, você é denso”.

Uma daquelas brincadeiras, com fundo de verdade tão amargo, que você nem de longe tem vontade de achar graça. Foi uma velha amiga quem me disse pela primeira vez, e ainda é terrível sentir e reconhecer esse peso: o que até então para mim tratava-se de um esforço enorme para entender as dificuldades alheias, lentamente foi me tornando difícil, quem entra em um lugar pelo acaso da mera porta, não chega perto de saber o que significa esta dificuldade de vir a habitar um lugar. Mas não se engane a respeito do quanto me é caro, possuir as lembranças vivas de cada noite, tanto quanto de cada amanhecer.

Posso descrever, como qualquer um faz a respeito daquilo que considera em si uma qualidade, os elogios e as vantagens de ser denso, como já o fiz muitas vezes. Mas estaria indo contra o meu próprio gosto, e contra o meu próprio instinto, se não deixasse entrever o que é lamento, sofrimento, dor, se escrevo é porque dou-me a licença de não me contentar e acabar passando tempo demais constrangido, envelhecido com a nudez daquilo que já escrevi num texto anterior e, no entanto, apesar da crueldade, da frieza, da auto-vivissecção, volto a escrever mais um vez sobre este constrangimento, com a ingenua esperança de que algum dia chegue a ser bem interpretado. O silêncio deixado pelo vácuo dessa exposição é igualmente terrível, ao ponto de que me debruce depois sobre ele, e volte mais uma vez a girar as esferas de meus conceitos. Todo o trabalho textual é como uma colcha de retalhos? Ainda sinto, a vibração deixada pela sensação de cada palavra, de quando existiu no interior, e mesmo aqui há partes de meus rins, olhos, figado, coração, há em muito o orgasmo, a digestão, e em tantos do que sou e deixei de ser, e por vezes não tenho esperança alguma e nem ingenuidades a respeito do quanto posso e vou ser mal entendido. Muitas vezes com um grito severo de escarnio, e então não há texto, preciso me afastar, dar um tempo, como de uma longa febre.

Ainda chega o tempo onde o insuportável é a própria densidade, tenho que me afastar de mim, como um meio de voltar a saúde; mas ainda baterão a minha porta, e eu mau-humorado e rabugento farei as vezes de estar lá, para encobrir a verdade de não querer estar e de não estar, factualmente.

Dou-me todo o direito dessas queixas, de olhares malogrados em relação a meu próprio destino, não quer dizer que tenha esquecido da vida, e nem do amor, e nem das alegrias, mas também a vida, o amor, as alegrias, podem muito bem, como são, uma acusação, uma limitação, um meio de alienação, contra a morte, o ódio, a tristeza… quantas vezes as alegrias soltaram essas migalhas de tristezas, e as tristezas restos de alegrias; denso, porque de tanto seguir este instinto de compreender e sentir as multiplicidades, em suas variações, labirintos, profundidades, tive de olhar para as migalhas, os restos, e o que resta em mim, é sobre tudo o movimento.

Veja, por exemplo, como num ensaio sobre uma auto-critica, a obsessão em dar contas de demandas que quase não existem no cotidiano, exceto nas raras ocasiões das angustias, dos conflitos, das incertezas. Fazer das resoluções não um meio de vida, mas a vida em seu próprio meio. Coisa de filósofo, esse estranho ser que não se contenta em criar quimeras, precisa viver com elas, digeri-las e, ainda ter por conta uma boa amizade por elas. Coisa minha: o estilo, mas que estilo é esse? Essas sequências de palavras em meus escritos e que pouco a pouco vou mudando e torcendo os seus significados? Esse sensualismo do sentido?…

Não julgo, não recrimino aqueles que vivem suas vidas, considerando tudo aquilo que chamo de belo e incrível, como dores de cabeça, calos, azias, estão certos!, apenas incompletos. Quando por vezes, preciso de superfície de leveza, são esses os que me trazem as maiores felicidades fragmentarias que alguém como eu poderia ter, mas não me venham com modelos, com filosofias de vida, com auto-ajudas…

Vivam as suas vidas tal como lhes concernem que seja, e eu… a minha.

 

Queixosamente,

Thiago Annderson.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s