Prólogo sobre a morte na existência

Não há muito mais o que viver, então com alguma dignidade permita que eu morra ainda que não toda a morte. Que minha carne apodreça, como um sol negro que se levantasse sobre o fim da minha existência. Deixe que o véu da morte caia sobre os meus olhos, e esse sono na vida dure o tempo que for preciso. Porquê esse aperto no peito, já durou por tempo demais já pesou mais do que posso suportar e há um limite para o que é suportável, e de resto é uma mera questão de insistência e desgaste, preciso afundar agora, e quem sabe se voltarei mais uma vez a superfície. Já houveram continuações, prolongamentos, adiamentos demais, deixe que morra tudo o que há para morrer. Não conheço, jamais soube desta arte de sorrir inutilmente, de viver eternamente, de habitar reinos celestiais, há apenas pedaços, pedaços em todas os lugares de mim, resistindo sobre o plano da tua inconformidade em aceitar a morte na vida, e através disso pregar longamente fardo, a remissão, a auto-piedade, e a pior delas, a auto-estima. ahhhhhhhhhhhhhhhhhh………………… ao diabo, com toda essa taxidermia, não, me deixe, não quero a serragem estufando-me as vísceras. Ah, e ao diabo também, com os malditos fracos, covardes, que temem sobretudo a hora de cair. Eu preciso morrer essa morte, também ela precisou de mim, e se houver ou não um depois, isso é da conta do depois, antes disso ainda é arrastar, mendigar, ludibriar. Tirem da minha vista o inferno de toda e qualquer salvação, e mais uma vez vão ter com o seu diabo sobre tudo isso. Chorem, atirem pedras, cuspam, regozijem, mas a porra desta morte é minha!

Esta morte que vive dentro de mim, como o espaço vazio no qual permanece a vida mesma íntima, cercada pela solidão que é a única forma de amor-próprio, além de qualquer tipo de estima. E o que quer que eu queira dividir disso, é escolha minha ou um acaso meu.

Deixe que eu morra, por ter acreditado na vida, consistente na carne e ossos, e vazando à fora pelos poros, feridas, rachaduras casuais ou de nascença; deixe-me acreditar em minha finitude, e mensurar a profundidade da minha cova, tanto quanto desmesurei jorro do gozo… no mundo infinito.

Não insulte tudo o que vivi, lançando contra o Sol deste entardecer as sombras de tudo o que não pude, tentei tudo o que pude, desta longa tentativa chamada vida.

Se quiser presenteie-me com um epitáfio justo, no adeus.

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