Lutando contra as misérias do cotidiano

A notícia de que estava longe chegou tarde, e não faria diferença, como sempre foi, como é preciso que seja. Perceber é infusão entre o cedo e o tarde demais, grandes elos corroboram a ancorar, os mesmos anelos que fazem desistir e voltar atrás. Tão raro é o momento exato de transposição. Mergulhar ou flutuar, manter-se temporariamente alheio a toda poderosa força que faz o caminho, permite reunir alguma força; Há sempre a hora de ir e a de voltar: eis a lei universal que rege a fluidez incorporada através do que faz existir tudo que é profundo, tão cegos quanto qualquer animal noturno reconhecemos o que é profundo apenas onde escoam e reverberam os nossos ecos. A nós que não somos nem completamente ocos e nem maciços. Mas, ecoantes.

Não quis pensar por muito tempo, era um jovem rapaz a caminho de lugar nenhum. Recostado naquela cadeira enferrujada de todos os dias, cultivando barbas de algas-marinhas, unhas grandes para cavar, se preciso a própria cova ou eclodir do próprio berço, carregando consigo silêncio o suficiente para quebrar o que fosse necessário para sobreviver, mesmo a si, e ainda que na lassidão impregnada em seu rosto houvesse uma cruel verossimilhança com aquele terreno baldio em que muitas vezes brincara durante a infância e tanto improvisara parque de diversões, não pensou nisso, enquanto atrás de alguma de alguma porta estilhaçada pelo tempo ainda era possível vislumbrar uma criança travessa escondida a espiar por entre as frestas da madeira apodrecida; já agora caiam em seus olhos as cansadas cortinas de casa, do pouco que lembrava, estavam sempre esquecidamente caídas sobre todos os dias, e por onde invariavelmente entrava um estranho vento vindo lá de fora, com o que se sentiam as luzes baixas de dentro, vibrarem, enternecerem, sorrirem o dervixe da obscena paisagem que apenas as vezes aparecia na árvore, no céu azul, no horizonte, mas e se na pele e nos olhares levara algo de casa, no interior algo se movia incessantemente; estava na estrada, passageiro, e observara muitas histórias sendo contadas através da vidraça embaçada, e onde quer que fosse pareceria que as cenas como as flores espalhadas pela réstia, inclinavam-se e desapareciam logo após serem percebidas. Uma estranha sensação de aflição embrulhava-lhe o estomago, tão logo o Sol erguia-se para o alto deixando tudo mais claro, seguindo até onde a tarde declinava, como aquelas flores, e as sombras estendiam-se longamente para a noite. Quando em geral alguma nuvem cinzenta surgia no céu e em seu pensamento, pairando acima, escurecendo as regiões mais próximas, mas no horizonte ainda havia o azul e a claridade do dia iluminando qualquer coisa a perder de vista, neste momento, de súbito, tudo finalmente começava a fazer algum sentido. E era difícil, não havia para onde voltar, este foi o princípio, tudo era questão de tempo, tudo era questão de tempo…

A noite caia na estrada, e além, através do vão, não havia fundo….

Ausente na velha cisma, não ousava plasmar nem um vulto sequer, ausente na velha cisma, passou pela leitura do mundo indigente como o raso animal da rotina, ausente na velha cisma, silenciou a espera de algo… ausente a cisma ficou velha.

Continuava em frente, cercado das premissas sobre isto ou o que quer que seja, dividido entre estar ferido e alegre como é de praxe naquelas épocas em que o que é inteiro endurece ou se parte. Por ocasião, vira um veleiro branco parado próximo a amurada  do antigo porto, atracado ali para os festejos de ano novo. Mas não havia nada de novo a bordo, parecendo que o veleiro branco jamais iria longe demais. Quisera ver o que um velho lobo do mar diria sobre isto, com seu casco de mariscos encrustados e a alma mais salgada que qualquer mar-morto, e no entanto tão mar-vivo de todas aquelas longas viagens… e eis mais uma moratória.. Contudo, apesar do que pretendia mortificar a língua em símbolos indecifráveis, sabia em algum lugar que havia alguma razão nisso, não existira jamais coisa mais incompreendida que a solidão, todo impeto de afastamento carrega consigo o contrário dos que ficam, e nem por isso menos dos que vão. Olhou ao redor, e nada mais chamava a atenção, nem os champanhes, nem as risadas, nem os fogos de artifício, nem as expectativas, nem as mulheres de vermelhas intimidades sobre um vestido em branco lançando olhares convidativos, estava ali parado em um quimérico silêncio, balançando a velha rede pensa de uma caneta em frente ao papel tão em branco quanto o veleiro, quanto o mar sem peixes, enquanto nenhuma ideia ocorria, e uma daquelas moratórias pareciam dizer: “não vai muito longe”.

Sondava ao redor e com a proximidade de chegar a algum lugar, percebia o ar tornar-se tão seco e intragável que já era possível pressentir a devastação dos muitos desertos como denunciara o cheiro de terra revirada abrindo a entrada do grande vão, o pilar ao avesso, sob a aflição desapareceria o chão e de lá surgiriam os muitos silêncios assomando-se como pilha de corpos-estranhos, podia sentir a angustia vociferando suas entranhas naquele elemento radical do báratro sobre a catedral. Na falta deste chão, acomodado ao absurdo como que hospede da casa do inconformismo, era visível as paredes nuas de dobras de eras na mesma estação, divisara mais uma vez o solo de tantos outonos acumulados… o longo outono a longa garganta do tempo erodia sua voz e qualquer algo mais escuro e mais denso que a noite. E de que outras coisas falariam as flores secas derramadas ao chão de todo aqui e agora, as Fúrias, essas abelhas que invadem o quarto pelas abertura na janela e outros equívocos e falhas a cada manhã; questionavam sobre as flores e ele a elas sobre o mel, e apenas esse encontro polinizaria a circunstância de estar assistindo em silêncio a aurora quebra-se em mil pedaços. De que falavam essas abelhas, no ruído estático de seu zunido se não do que percorre lento as ranhuras da garganta do tempo, e o vento que sopra torna-se a voz tortuosa, obsoleta e arenosa. Estava a sentir os efeitos da erosão do tempo sobre a sua alma, enquanto outra parte reclamaria violentamente, e ainda que sem jeito, também algo desta voz própria se levanta, ousando revirar as tempestuosas inconstâncias esquecidas, ao poucos espantando o raso animal da rotina, de patas mansas, fome dócil, olhos que adiam. E alguns meses depois seria quase inacreditável que ainda houvesse música, quando encontrou aquele beijo macio que soube ir sem dizer adeus e foi o manto de zelo de que cobriu as vergonhas mais exaustas.

Enquanto descobrindo que encontrado o fundo do poço, encontrou ao seu estômago…

Mas nada era tão estranho quanto despertar nesta atmosfera rarefeita, de nenhum outro modo entendia o sentido do ecológico, lutar pelos escombros de sentidos remanescentes da história, mas primeiro tinha de levantar do costume de estar acamado na inercia longitudinal de saber precisamente o significado de desistir de tudo, em cada porção macia ou áspera da perda, e eis que então, dês de os minutos iniciais as horas urgiam frias como cadáveres estirados sobre o leito das mais viscerais expectativas, lentamente as reencontrava, em toda parte choques térmicos, retraimento, dilatação, o labor silencioso do luto já elaborava o direito de pronunciar-se a respeito das singelas alegrias, decodificando a indiscrição de cada apego, como o astrônomo sobre o brilho distante das estrelas, tentando e testando continuamente conformar o inconformável, reparar o irreparável, quantos deuses e diabos estavam latentes ao que nascia desta ação, cisão e conquista, e que coragem terrível a acompanhava!

Tão breve quanto intensa, ela beijou aquele sopro de vida em seu rosto e foi embora, ou ele teria ido embora, já não sabia, já não importava. Esteve por tanto tempo cuidando dos silêncios como as flores que brotam na escuridão, que os silêncios pareciam ter-lhe enraizado a alma; quando fora por muito inclusive o inimigo, aquele a mostrar o campo de batalha, a levantar a bandeira da vida sobre o pacifico ócio, e a anunciar “todo o tempo do mundo, meu amigo” e não menos que isso: pareciam memórias tão antigas agora.

Estávamos continuamente indo de volta para casa, sentindo a indiferença das mudanças ao redor, o amparo das co-incidências e das ruínas das fundações, e no entanto, perecendo, multiplicando e seduzindo novos sentidos.

Voltava a por-se diante do papel, mas o primeiro texto era insuportável, mais do que tudo ao reconhecer o clichê das coisas deixadas como estavam, insólitas, não havia como mensurar a solidão de vislumbrar todos os ossos assim expostos, tão miseravelmente expostos, e nada, nada poderia ser feito, sobre a poeira da vertigem, sobre as teias frouxas a balançar como se a fome invisível da aranha dos sonhos brincasse com o sarcasmo das impossibilidades e mais do que tudo alimentava-se do tédio, como cupim na madeira apodrecida, e a luz deste olhar de agora a tudo reluz com o sangue ainda molhado das feridas abertas…

Depois…

O “outro”, longínquo, é sempre suposto. Supostos espasmos que unem-se em multidões febris, multiplicando in-cômodos. Os silenciosos não-lugares de todas as partes. Em algum deles ainda existia a possibilidade: mas a sensibilidade rejeita acostumar-se outra vez a lentidão, retirando-se para sombras ainda mais densas que as anteriores.

Aqui e ali, clarões dispersos irrompem os véus, rompem os lastros, compelem as medidas, despertam as dormências, no entanto, o primeiro texto é inalcançável, bem onde deveria haver o branco do papel, encontravam-se apenas vísceras.

E algo ali se apequenava diante dos olhos supostos…

O primeiro texto é o impossível, grito de saudade que morreu na boca…

O primeiro texto era a si mesmo, engasgado, testando as chances de errar a cada alvo,

O primeiro texto era por fim o imprescindível retorno ao que há de mais próprio, e intimidade com esse interior,

A cortina cai sobre o palco, as luzes se apagam, mas a música continua. Espantoso fremir em cair desacordado. Pertencido a lugar algum e viandante de lugares em lugares, sentado depois de tanto tempo para escrever como ao piano, rolava pela estrada passando os dedos suavemente pelas teclas na escuridão, tateando as palavras ao ressentir-se por tudo que jaz desfeito, por longos e solitários silêncios. Seu ossos côncavos portam, num negrume espelhado, as cordas de suas vísceras. Largando o corpo para trás e a cabeça sobre a base dos ombros, dados ao importunado e curvados sobre o infortúnio. E a seu modo, como um jeito de sentar-se a mesa, inclinado… para dentro do espírito. O angulo se fecha sobre as notas. Agora, a música ressoa. Dalguma nuvem negra pairada sobre o túmulo e berço a que este momento encerra, chovia?

Em prantos…

"Constrangido do choro que escapa,
Fingir a poça de uns olhos transbordando imagens,
Não fui a mim mesmo esganado pela pergunta,
Latejando nas têmporas,
"Quanto tempo faz?", indefinidamente,
Firmando pulsos suspiros suspensos,
Sutilmente pervertendo a questão,
E se fosse verdade...?
O que abandonou?
O que adiou?
Que hora tão tarde,
Que lugar mais vil,
A dar-se conta da imobilidade,
Que perverso demônio calado
Pesa-me sobre o corpo,
Proclamando a eternidade,
Mas ainda que o fosse,
Não trai a mim mesmo,
Tão imensa é a inconformidade,
Deixando a carne atravessada de ânsias
E algo sempre por dizer,
Mas basta que o tente,
Para que as comportas se abram,
Febre e enxurrada arrastam,
Rompendo as medidas,
Lutando contras as misérias do cotidiano,
Quebrando os cristais de tempo que até então,
Enfeitaram o corolário do instante,
Lançar a mão da insistência, do esforço,
Puxando um a um os fios dos sentidos,
Através de um feixe de ecos,
Tremeluzir contra o Sol, crânio do momento inerte –,
Desfez-se o que de miserável suportou este ano,
É miserável tudo o que suporta,
Debruçado sobre as vergas e ossos,
Talhados e sobreposto nisto,
Por tudo que o será,
Diante de tudo que não foi."

Restando apenas esses tímidos flocos em brasas, vestígios de estouros e explosões que desfizeram com tantas faíscas coloridas observara o ano que se passou; e foi involuntariamente aquela resistência invisível que parecia deitar piedosamente as gotas de lágrimas incandescente do adeus no mar, após o barulhento e festivo sacrifício público. E perpetrando algo que deixou queimada a retina antes da ultima fuligem extinguir-se, incendiou uma coisa sombria, donde ergueu um Sol que raiou claridade por toda parte, no horizonte um bando de Fúrias despertadas de seus leitos de colmeias em grutas nuas, a exigência solar seguiam saíram em revoada, irradiando a pista sem-alvo do caçador de sombras, cobrando o valor atrasado de toda forma perdida.

Pode ouvir ressoarem pequenas entidades de todas as partes ascendendo a hora mais escura feito vaga-lumes da meia noite, transcendendo as reflexões e a metáfora situada sobre o palco, sendo apenas belo observa-las ao redor, a labareda a amar o silencio com os seus estalos crepusculares ao jubilo enluarado desta clareira, e enfim soubera estava mais uma vez lá, e quantas juras foram refeitas sobre essas madeixas enquanto juntava-as uma a uma em torno da fogueira donde os poemas brotavam sussurrantes como preces da convalescença do espírito, e as enterrava sobre as cinzas ao amanhecer em segredo…

Como sempre o fizera,

E as contaria mais uma vez, uma flor na mão do ilusionista,

Re-encontrando naqueles olhos perdidos de antes, a sombra oculta de oceano sem fim,

Mesmo que ao lado do augusto ferir de seu riso, a rua estivesse vazia,

Era um velho homem, durante toda sua vida lutou a favor de tudo o que fosse belo e corajoso. Tantas vezes confundido com qualquer um, e tão pouco consigo mesmo. Tantas vezes cansado de reconhecer em si o engano tornar-se expectativa, como um intenso frio que lhe percorresse a chama viva em seu peito, como quando recostava a cabeça no vidro durante a viagem e sentia o forte frio cortante, ceifar um punhado de vida de seu olhar. E pouco importava se teria de se reerguer mais uma vez, se falara hoje a linguagem antiga dos sonhos, prenhe de sentidos, e que quase sempre sentido fosse qualquer coisa barata demais, para valer a permuta da comunhão de espíritos, e que bem onde a honestidade era uma lamina, não fugisse ao suicídio. Bastava que houvesse, ao menos as vezes, esses homens e mulheres que fosse como os filhos tardios de tempos vindouros, onde quer que fosse e quando quer que fosse, e que insistissem nisso, na fé em seus corações, e amassem, e morressem, temerosamente, fastigialmente, dificilmente, loucamente, porque apenas através deles, era possível manter a fé… no humano.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s