Solstícios

Naqueles dias em que ela pintava as unhas de preto
arranhando o teto da noite, reviscerando a lua das entranhas,
Descascando uma a uma as pétalas de bem-me-queres para florescer a flor da solidão,
Neste tempo, ela costumava a lembrar de certo moço de antigamente,
De tão poucos risos, e tristeza perene, mas que como ninguém sabia encontrar o Sol,
Quando todas as outras chances falharam, sobre os dias nublados,
Costumava vir a lembrança do lento aprendizado sobre ser forte,
Feito reencontrar as partes dispersas na fina camada de poeira que encobre o cotidiano,
Subindo do criado-mudo a fumaça espiral incenso,
A Serpente azul-turmalina de cristais de cheiros tão áridos e penetrantes, 
Cobrindo-lhe a réstia nua com pele de animal errante,
E seus olhos fechados enchiam-se de um clarão que brilhava docemente
Bordando a cortina de todo tarde-demais de estrelas diurnas,
naquele macio segredo encerrado entre os lábios do beijo cinza e minguante,
E nesta hora, ela abria os olhos, ajeitando-se as curvas e dobras do lençol,
E sentia-se abraçada do infinito-que-podia.

2 comentários sobre “Solstícios

    1. Na verdade foi algo antigo que estava por aqui nos rascunhos, e na hora fez sentido postar. Ainda não posso dizer que voltei, por enquanto.

      Mas obrigado moça, se te alcançou com graciosidade, que lhe seja com graça então.

      Curtir

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