Vento Bravo

 

Por uma janela de encantamentos, o dia se abre. E que estranha substância encontra-se misturada ao ar. Quando em toda parte a brisa suave parece fundir-se ao raio de sol, as calmas do meio dia, ao grão de poeira que o laço do tempo desfeito polinizou a circunstância de estar, do aqui e agora, em seus vazios, como se fosse possível vê-las caírem do alto das árvores de ontem,  raiando agora ainda mais que a luz, soltas como as folhas de uns versos. Um belo dia, como pode ter sido? Não foi, ainda está aqui. Mas não posso alcança-lo agora, e como uma criança apenas acontece que frua intensamente nas insinuações que cantam ao meu quase-fascinado olhar, e o vento da Sorte parece soprar em todas as direções, espevitando a levantar o vestido da Dona Destino que  cruzava elegantemente esta rua tão cheia da tétrica de seu orgulho.

O vento sopra…

E então, ensaiando que tudo fosse movido através desse êxtase invisível que balança e transborda sem alvo, descortinando as coxas nuas e acanhadas da mulher longamente o horizonte a paisagem, e vê-la acudir-se por entre as mãos do que se agarra como pode, descortinando mais do que as musas, sobre um palco de existência ensimesmada, como se despíssemos um ao outro,  como recém-casados e hospedes da casa do infinito. E ela se envolve agora, no fogo do arrepio que arde em sua pele, e desfolha sua alma, nas ondas infindáveis que se quebram e espumam num torvelino de incertezas insaciáveis próximas ao rebento, na dança da vida, que surgira mais um vez mudada, e não deixou de ser bela,  e mesmo a sensualidade de sua beleza, ainda que inteiramente constrangidos pelo corpo obsceno da sua nudez, logrou-se inteiramente , evidente, autêntica, desmistificadamente mística de um apelo a meia-luz, enredada em sua profundidade mais própria, acusando e assumindo a si mesmo de louca, a cada passo, a cada sinal e rastro. E é tão raro, não o sei dizer mais, vida e fantasia parecem-se tanto.

E a brisa torna-se então, ventania…

Aqui e ali, sombras divagam e murmuram, agradecimentos, conversas, comentários, velhos novos amigos, pela tensão dos olhares que em silenciosa suspensão, despertam a cumplicidade de um sorriso macio, mas onde estou agora? Não estive, lentamente perdendo a mim mesmo? E assim perdido, de repente todas as flores do dia, tomadas para dançar sobre os holofotes das entrelinhas e a escuridão do olvidar, meu cão negro pulguento que me viu, e correu tão alegre desfazendo-se na sombra que foi meu caminho, mas o quê disso há de tão cheia quanto a lua sobre a noite mais densa, e que fosse a estranheza como aquela dançarina do acaso a dançar com a lua de seu embaraço, tão mais equilibrista do costume de dançar a meia-noite com seus próprios diabos, como se fosse dançar na chuva e seu sem-número de pingos soltos., de quando há devastação do longínquo sentido das partes, e, além,  fundirem-se as interseções casuais num único passo.

E a ventania é então tempestade.

E pelo vasculhante da porta tudo me escapa, como se faltasse o tato o sentir a alma. A visão se afasta, como se deslizasse através dos anos, sempre o que não há, o que não é tão raso para quebrar o mergulho pela espinha? Mas que fazer se cansei de convence-los de mim. Visto o pé esquerdo pela culatra da vida, trago o fumo do ânimo que já fumaça tão logo se esvai. Os velhos moinhos voltaram a rodar… O giro preso, a roda solta… Voltaram a rodar… O olho ileso, assiste tudo despedaçar-se em rastros. Eu-cão a farejar estrelas, que tudo é estrelas, e a luz de tudo-imagem, escapou-me eternamente entre os dedos da existência.

2 comentários sobre “Vento Bravo

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