Tragicamente

Aí coração, onde estiveste até agora? Não soube que estivera fora, até agora, quando assustado fui jogado para trás, para dentro, para o alto, ao mesmo tempo. E meu rosto contorceu-se, não como se quisesse chorar, mas já estava chorando. Me envergonhei, mas tens esse direito. Todo ele. Que seja, então que seja. Te maltratei sem saber. Por um tempo, cansei de tua imensa piedade e compaixão. Tu perdoas demais, eu quase nunca. Tu, meu coração, imensidão. Por vezes, te transformas em nuvem. E habitas a chuva.  Eu, definho em minha pequenez, estreitando o que penso e acho sobre tudo. Alguns dias, anos talvez, te chamei por outros nomes, como quando criança e acreditava ser deus. Depositando dentro de ti, minhas orações. Como sementes, que floresceram ou não, como algum amor, alguma paixão. Te chamei com nome de mulher, ó grande coração de homem. Com o nome daquela mulheres que amei. Te atropelei neste asfalto palco pele, em que te dava a um outro ser, como se fosse eu o teu dono. Mas coração, também me deixaste louco neste tempo. E agora, vai me enlouquecer novamente. Mas estais mudado, como eu. Parece que tens asas agora, ou sempre as teve? Demasiado jovem era o pássaro em ti, e agora sabes voar. Mas voas, agora que também sabes me amar.  Um pouco, o bastante. E essa é a cor da tua plumagem. Azul. Dizes algo? Aí coração, acalma tuas batidas agora. Não, vai, continua. Assim, isso. E não te esqueces de mim no curto silêncio entre cada pulo. Aí coração, vai, me leva. Todas as desventuras. Eu te sigo a pouca distância, sou teu navio. Vai! Rufa. Rufa. Rufa teus tambores. E ruge tua coragem. Vai, segue, isso, longe. Mais. Não desvias, te protejo te sirvo te defendo. Não faz mal, agora é teu direito. Todo ele. Aí coração, te darei tudo que sou, exceto algo. Um único não. Sim, sem ver. Não aos olhos. Tragicamente.

Sou teu navio, tua embarcação. E tu és o comandante, e a vela que a ventania do meu sangue impulsiona adiantem no mar de tudo. Mas a tua louca obsessão que divisa o longo porto. O raio que estronda na tempestade de meu juízo. És o deus polimorfo de minha mais tenra infância, e o pesado vozeirão insculpido em minha alma. O aprendizado árduo de quebrar pedras em silêncio. O fervor que seduz na calma mão de homem. O que entende e rejeita impiedosamente todo tosco teatro da crueldade. Aí coração, eu vou contigo. Ainda que até o fim estejamos sozinhos, e quando chegar a hora venhamos a perecer no ruidoso silêncio que durante toda uma infinidade de vida estivermos a combater. E quem soube até hoje o que era isso? Dos encontros e desencontros travados em alto-mar. Que força terrível me impeliu a ver e percorrer, sobretudo os vazios, bem tu, coração compassivo, não me deixou pensar duas vezes, e avançou desmedidamente nisso.

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