Como aquele gato

Eu estava bem, estava vivo,
Havia derrotado aqueles demônios,
Que me enlouqueceram por meses,
Mas estava cansado, dividido entre a alegria da liberdade,
E a tristeza de não ter nada melhor o que fazer,
Onde estavam as festas, os incêndios, as pessoas interessantes?
Tinha essa sensação de estar cheio de combustível,
Como um posto recém abastecido, mas nenhuma faísca,
Como uma criança, pulava os muros, desmontava coisas e fazia
outras melhores,
E novamente guardava os tesouros no bau de brinquedos,
Tinha esse estranho sentimento de ter chegado tarde demais,
Ou cedo,
Constantemente tendo sido cercado por essa escrita desconhecida,
Uma língua morta,
Ídolos pagãos em ruínas, 
Mal reconhecível de suas antigas formas,
Bárbaras, esdruxulas, semi-remanescentes,
Os corpos de antigos deuses sepultados, incógnitos de seu
antigo propósito de adoração,
Homens altos corrompidos, mulheres gordas mutiladas,
Não entendia nada disso, ou talvez,
Entendesse bem demais para que me furtasse de enxergar mais a fundo,
Tudo quebrado tal como, a gente, sem querer, tende a completar com um pedaço de si,
Percepção similiforme dos atos e atrasos,
Seja como for, sempre dava um jeito de sair fora,
 
Estava bem, estava vivo,
Não havia esquecido, não devia nada a ninguém,
Mais ainda, lembrava de coisas fantásticas que distribuía por aí como doces,
Em dia de São Cosme e Damião,
Não estava perdido, mas parecia não haver direção,
O que sobrava em experiencia, parecia faltar em sorte,
Encontrar um norte, mas em que estojo de bussola estava escondida minha chave?
Me sentia descostumado, parecia que fazia anos que não dançava,
E girei um tempo, sozinho no vasto e esvaziado salão antes de encontrá-la,
No enigma daqueles olhos verdes,
Mas a encontrei?
Como essa palavra que fica metamorfoseada em paradoxo,
Tesa entre a duplicidade de sentidos, na ausência de um contexto,
E assim como, através da penumbra, cantar o fogo vasto?
Vai como a brisa calma que uiva nos jardins a beira do abismo,
Deitado sobre a relva e as flores,
Olhava para o azul celestial, e fazia novas promessas,
Velado, por algum desinteresse, pela queda e a escuridão,
Assim, a encontrava com essa eterna ameaça abissal,
Assim, era a sua beleza, e quando por vezes estive bem e vivo lá,
Diante dela,
Encontrei seus olhos admirados da minha força, 
Obscurecido pelo seu medo na fraqueza,
E quantas vezes vi, nesses olhos espelhados os meus próprios medos e fraquezas?
 
Estava bem, estava vivo,
Pensava, criava, me mantinha aceso,
Mas a morte parecia farejar meu rastro,
Com uma constante pretensão a desiludir,
Como uma máscara que se veste muitas vezes, e por final veste ela a ti,
Quando é de hábito de todo pensador mais profundo testar a si, 
E duvidar cruamente de suas crenças como um meio de alçar voo,
E sair de seus laços e amarras, em busca de horizontes mais distantes,
Por vezes, invertia-se de papeis, e a dúvida me consumia em seu pleito,
Punha-me em seu vazio,
Enquanto eu balançava as pernas, tentando me agarrar a algo, sem chão,
Por esse e outros motivos, a gente aprendia a lutar contra a escuridão,
Conservando um pedaço de terra segura,
Um pouco de fogo dentro de si,
Duvidava menos, se arriscava menos,
Enganava a morte,
Mas também, a par disso, aprendia a gostar mais de si,
Com alguma habilidade adquirida nessas idas e vindas,
 
Eu estava bem, estava vivo,
A solidão não me impunha nenhuma dificuldade,
Mas eu impunha a ela, as minhas contrariedades,
Meu coração,
Querer ir além,
Algo mais,
E por mais duro que fosse o verniz e a pedra,
Os muros, 
Espiava por entre as frestas e fendas,
Como se olhasse através de um periscópio,
Sempre pronto a pular sobre o momento certo,
Fantasiava comigo mesmo,
Que tocaria fogo em alguma Roma,
E pintaria isso em uns versos,
Já não o fiz?
E assim me falam tantas vezes,
Esses que se asseguram mais do que tudo,
Que querem libertar e viver suas paixões,
Mas para mim sempre foi um grande movimento,
Essa intuição voltada a atitude,
Esse misto de sonhos, planos, autoconhecimento, tensão, desejo, calma,
Tudo como o longo movimento
de uma sinfonia sublime,
Esse encontro de forças ruidosas, silenciosas, por vezes, quase inexistentes,
E  que, em seu conjunto, faziam-se soar como a mais bela das músicas,
Isso quando havia música,
Ficava assim exposto o que mais desejo das pessoas, grandes músicas assim,
O mais difícil,
Enquanto o conflito, sempre existe
 
Eu estava bem, estava vivo,
Desfrutando da maturidade,
Guardava em mim, as lembranças das tempestades,
De tempos melhores e piores,
De cada amor, de cada ódio,
Não devia nada,
Estava vivo, selvagem e redentor,
Como aquele gato, que descansa com os olhos abertos…
 
*Homenagem a música Como o Machado de Lô Borges.
 

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