Devaneios por um pouco de paz

Impaciência, ah impaciência! Me tens frequentemente num bolso, junto a tantos outros trocados.  De repente agora, dá-se um fim a toda emergência. E que fazer? Que fazer? Me meto mais uma vez a procurar problemas? Ou me permito usufruir um pouco da calmaria? “A lentidão do olhar, que raramente olha para cima, que raramente admira, que raramente ama…”, mas não existe disposição de ânimo mais metafísica do que a serenidade, quem sabe o que é isso hoje em dia? Alguns velhinhos jogando dominó na praça no domingo a tarde, o sabem certamente, e já me vejo começando a vestir calças na cintura e suspensórios, antes de ir embora, e ficar tão perdido como quando se põe ao ritmo da juventude, falta alguma coisa, curiosidade talvez? Minhas calmarias são um mar de solidão insoldável próximo aos 30, sedenta de companhia para explorar as profundidades do que quer que seja. Não sei o que fazer. Ainda talvez, um tanto magoado naquele ímpeto pedagógico de um educador, para dar inicio a um diálogo com principiantes, e que não me entendam mal, não falo assim com desdém ou arrogância, quem de vocês, novatos, entendem a alegria na lentidão e suavidade tão afundo assim? Que perdoem-me a piada, mas é um tanto tragicômica do ponto de vista de quem saiu de um solidão de quase 3 anos, e pela primeira vez realmente sai a busca gente interessante. Esse olhar mais a fundo em tudo quanto é miudeza, esse refinamento, mesmo de questionar-se, desconfiar-se e, mesmo, porque não, enamorar-se de tudo que a gente bate o olho até mais obvias delas, encontrar algum bom estranhamento. Não que se venha a carregar por antecipação a pesada e gloriosa bandeira da inteligencia com as estrelas erudição, mas basta que a gente comece a expor contradições e mesmo questionamento sobre os detalhes de tais e tais assuntos, mesmo que com alguma boa simpatia, logo um clima malogrado paira no ar. Sinto que cada vez mais perco um pouco da finnesse social a isto que se limita, e, de certo, fujo, ainda que tente discutir sobre o assunto tanto quanto possível. E disso vale-se também o aquele riso doido de bicho fugido da jaula, que a gente dá quando se anima, esse povo que vive por muito tempo sobre o sol e o calor do grupos de pessoas, é meio dormente, meio morto, meio o débil em relação e essas e tantas outras, penso, tanto quanto qualquer pessoa se torna em relação ao que lhe é mais comum e também cômodo. Talvez, aconteça o mesmo em relação aqueles que, como eu, silenciam demais.

Falando a sério, não penso que comecei esse blog para ser entendido. Talvez mais como um pescador, tenha lançado meus estranhos anzóis, na esperança de que algum dia alguém iria ser fisgado, quer dizer, entendê-lo. Mas se me atrevo a escrever, não falta um pouco desta esperança de vir a inspirar alguém, mesmo este seduzir/fisgar. Existem as “armadilhas”, nas quais eu sou o primeiro a ser pego. Quase toda poesia e arte, falam um pouco desta sedução, falam um pouco deste “de como fui pego”. Alguns mais profundos do que outros, é possível sempre encontrar neles diversas pontes, que ligam e fundam sentidos, ao menos, os melhores poemas são assim, e digo isso sem nenhuma auto-referência, por ser um péssimo poeta, e geralmente essa fundação se dá, no caso da escrita, obviamente, por intermédio da linguagem, mas a maior dessa “pontes” talvez seja essa entre escritor e o leitor.  Digo, há sempre um leitor ideal, mesmo que inconscientemente, é a ele que nos referimos. Se, esta ligação, fica, por algum motivo, por alguma falta de esperança talvez, vazia, e perca-se o sentido, provavelmente o escritor sinta-se desinteressado de continuar. A musa, como é em geral referido este “leitor ideal”, desvaece num torvelinho de obscuridade. Acho que me faça entendido agora sobre o assunto ao qual me dirigi desde o inicio desse texto,  e para onde eu me dirijo agora. Depois desta ponte.

De fato, nunca deixei de acreditar que cada pessoa possui suas qualidades. Mesmo me colocando sempre contra todo e qualquer humanismo, coisas do tipo “somos humanos”, “errar é humano”, “todo ser humano…”, nada me deixa mais triste e desacreditado na humanidade em geral do que isso. Não vou me aprofundar muito neste tema, e, políticas a parte, a questão gira em torno das generalidades, em relação a alguém que se posta diante da cada ser humano como um individuo único, não existe nada pior do que generalizações (todos os homens…, todas as mulheres… — por deus, as estatísticas, tirem isso da minha frente!), mas apesar disso, se percebe que as pessoas se creem generalizadas, e, com isso, se fecham para suas independências, individualidades, e autenticidades. E não há o que se fazer em relação a isso, ser independente, individual, autentico, não é uma necessidade básica, apesar de todos os existencialistas que pulam como verdadeiros heróis ou semi-deuses do ser humano, propondo educações e qualquer grande demagogia, seres humanos são livres, inclusive para abdicar de sua liberdade. Não é assim com o masoquista? Todos somos um pouco, afinal.

Mas a questão que quero tratar aqui é, ainda que uma generalização, num sentido muito particular, e que talvez corresponde a essa falta de tempo que a gente escuta em todo lugar e sente na pele diariamente. Sempre me feriu de um modo estranho escutar que alguém não tem tempo, não em relação ao obvio, quer dizer, que tal pessoa tenha deixado de fazer algo em conjunto com a minha pessoa, mas porque isso me remete a um sentido mais profundo da expressão “não tenho tempo”, quase posso escutá-lo no ultimo suspiro de um moribundo em seu sofrido leito de morte, ou da boca de um obsessivo que encontra-se inteiramente comprometido no investimento que fez sobre o objeto de desejo, ou seja, onde não espaço para qualquer outra coisa, como num ambiente hermeticamente fechado. O tempo é, alias, o fundamento da própria ideia de movimento, sendo ele inseparável da ideia de espaço, o movimento que se dá num espaço é o próprio tempo. Se não o for na física, creia-me falando sobre a esfera psíquica. Em todo caso, quando alguém diz, que não tem tempo, apesar da sua pressa, e da rapidez com que tem que “resolver tudo”, parece mais que está está dizendo “estou parado”, “não posso me mover”. E ao final de tudo, a gente, com todo esse “sem tempo”, sente-se realmente exausto, como se toda energia de algum lugar fosse consumida, sem ter reposta (Acho que agora eu deveria fazer um comercial de algum revigorante, ou complexo vitamínico rs rs rs…). Tempo tem alias, num outro simbolismo, digamos mais referente ao ponto de vista psicanalítico, que liga-se duplamente a frustração/angustia e a superação/sublimação, com o que a própria consciência tem o seu movimento de aprofundamento através de desdobramentos, alicerçando os pensamentos ditos abstratos como parte constitutiva da vida psíquica concreta, em outras palavras, a relação entre sentimentos e emoções com pensamentos e linguagem.

Por fim, o “ser”, no sentido existencialista, talvez pudêssemos dizer, como aquele verbo que traduz a reflexividade do estado de coisas a quem um “eu” se situa no movimento da própria vida e diz “eu sou”, exige tempo, conhecer-se, no sentido de reconhecer em si, no pensar-se a si mesmo, requer isso a que temos tão pouco hoje em dia.  E ainda mais quando aliado aquela generalização tão típica que se faz em relação a parte emotiva/sentimental da vida psíquica com o qual se parece dizer, “aqui não, pelo menos aqui, não há burocracia”, como se os rodeios que a linguagem dá só servisse de modo negativo. Isso é para mim o mais estranho, esta oposição entre o emocional e o intelectual, que sempre tive por boas contas de um equilíbrio. Em geral, me parece, as pessoas são bastante platônicas nesse sentido, quer dizer, diferem radicalmente o corpo e a alma. No fundo, a quem afirma que desconhece a si mesmo escuto um pouco daquele “não tenho tempo para isso”, mas que se diga que é falta de vontade, porque esse tempo existe ou então é possível fazê-lo existir. E falar sobre o que se sente, descrever os próprios sentimentos não é nenhuma grande moléstia, não pelo fato em si, mas sem dúvidas que quanto mais se sabe, mais aumenta o tempo e a solidão presentes. Essa é a minha questão, ter talvez este conhecimento de um imenso mundo interior e ninguém com quem compartilhar e dividir experiencias. Sim, é solitário. Uma longa viagem de autodescoberta, e que nunca chega ao fim. Onde, as vezes, aqui e ali, a gente aprende a dizer “não”, e deixa que seja assim. Talvez como algo a retomar algum dia.

Faz bastante tempo alias, que não pensava e nem escrevia sobre isto. E me deixa um sabor amargo lembrar das angustias que deixei para trás e daquelas que me fizeram separar de grandes amizades. Não sei dizer se fui o mais forte ou o mais fraco entre aqueles com quem compartilhei esses momentos de angustia, mas sem dúvida um dos poucos que continua seguindo por esse caminho. Hoje muito bem comigo mesmo, e inclusive quando triste, desajuizado, doido, perdido.

Resistente de tanta luta ham, meu velho? E agora? Um pouco de paz talvez? É quem sabe pode sem bom.

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