Especulações psico-filosóficas sobre um ato falho vital

Essas confusões não deixam de ser engraçadas, para mostrar com um ato falho o que de fato a gente espera e deseja que aconteça. Como um acerto de contas ou talvez, um simples caso de amor. Por um instante estava lá mais um vez, resolvendo os dilemas insolúveis de ontem, por um sinal encontrado nos versos perdidos que nada tinham haver comigo. Mas é bom rir, hoje em dia o riso deixa mais leve, hoje em dia é possível se pegar nessa estranha postura de perder o equilíbrio e quase cair. Rir alto, riso em alto e bom som. Aquele riso entrecortado de um tênue fio de silêncio, como um folha tão verde e nova, orvalhada de tristeza. O olho, no fundo do poço insone enxerga o ruido opaco do absurdo, engoli a mim mesmo nesse olhar, reverberando dentro do osso oco da garganta, limitado a erguer deuses e astros com a falha do desespero e desamparo. Tão grande ela era na palma da minha mão com estranhos gritos e grunhidos que esticavam as mãos de seu pedido por piedade, até o meu rosto. E era, com venerável justiça que ela, possuída de sua tristeza, retirava-se ao seu apequenamento. Nunca soube ser outra, vivendo entre os grandes e impossíveis que ainda agora a cercam. E seu corpo, de certo em algum princípio remoto, misturou-se a essa dor, mas com que improbidade de não voltar nunca, não, nem nunca “voltar atrás”. Tudo é, espelho e a constante ameaça da imagem desfocada de si mesma, com que proporções é possível tangê-la? Pintá-la com um tom preponderante de domínio. E eu fui, por um tempo, naquele tempo, a vértebra de coragem inserida bem no meio de sua casca espelhada de besouro, inspirando a inversão, sem nem saber, não de medos em desafios, mas em poder, em vitória,  duma casca ainda mais forte e colorida. Eu não permanecia ali por muito tempo, sensivelmente dobrado pelo peso de sentir -me e ser feito de rebento. Ela, vindo em mim, surgindo em mim, no olhar delicado de suas miudezas, de lastros impenetráveis, e vastos campos abertos, tornando-se o viscoso tumulo dentro de mim, que ela mesma negava, e contudo, afirmava a todo instante nela. Tal como é, sempre a violência dos desejos mais fortes e íntimos negados e incompreendidos. A sutileza, é terrível e esmagadora. Homem eu, homens todos os homens, depositam alguma fé na paz daquela pele suave e sublime da beleza. Exatamente onde corria o leite do seu veneno mais cruel. Exatamente onde, por uma multiplicidade de impulsos controversos de meu ser, com outra pessoal haveria uma luta natural de resistência e sobrevivência, mas eu, eu tentaria entender, e jogar abertamente com minhas próprias vísceras, tornando por tanto o risco derradeiro. E mesmo hoje, não espero que ela entenda, nem que me perdoe por perdoar apenas a sua distância, e, por final, mesmo como nesta minha romântica descrição dos fatos, a favor de mim mesmo, faça contra uma a vida de uma forte paixão que ainda existe estrangulada de tantas desconfianças. O “pecado” nunca foi que tenha acontecido como aconteceu, mas que eu tenha que me jogar de coração onde ela precisou de uma cabeça. Minha profundidade é e sempre foi natural, como se ar que infla meus pulmões corressem sempre o risco de enlouquecerem meu sangue, por isso a emergência cardíaca desesperada que infiltra e encontra suas veias mesmo nas estruturas laboriosamente duras, frias e apáticas duma linguagem. Digo o que digo, mas estou aqui. Forte e queixoso, como se houvesse experiencia o bastante para despejar maliciosas encruzilhadas e despertar faíscas mesmos nos mais inóspitos corpos celestiais. Mas algo ainda me afronta o juízo em suas maquinarias temperadas de incestos sentimentais, ainda agora esta engrenagem estrangeira, impede de marcar meu tempo certo. Não como se faltasse algo, mas como se sobrasse algo. Talvez mesmo, um certo desperdício que não me contento em ter. Não a típica “ranzinzice”, mas um humor malogrado talvez a respeito de como contar essa história. Algum enigma que ainda não consegui decifrar, ou alguma mentira inventada ou verdade não contada sobre o que acabei de dizer ao respeito dela. Deixo que o rumor dos indícios ainda exista sem sair do lugar, a fim de tentar alcançar alguma pista. E é precisamente aí, o lugar que mora o tal ato falho, o desconcerto o rir de mim mesmo caído. Essa queda… é mesmo uma queda? Não ela mesma uma fuga? Mas uma fuga como presença. Como ela, ela… ela naquele sonho. Em que não a reconheci, sem o drama ridículo da sua impotência. Presente em sua timidez, presente em seu cansaço, de olhar oblíquo e sincero, presente em sua fuga como tivesse medo de assumir suas fraquezas,  brutal era a tristeza com que acordei aquele dia, com se houvesse sido travada uma guerra em meu peito e a ferida estivesse lá, ainda está. Ela estava tão linda, tão mulher, tão profundamente mulher. Não sei dizer como, não sei… não havia nenhuma menina ou ideal de pureza, algo se atrevia e se precipitava  na respiração dela, com tamanha sutileza no declive e curvas de todas as suas obscuressências e luminosidades, como se não houvesse ninguém tão vívido e autêntico. Como se um corte houvesse desbainhado a espada da minha alma e incitado todo meu ser ao despertar de um nova e deliciosa manhã, tanto quanto nenhuma outra. E um sonho, um estranho sonho. Penso no quão pode ser risível que minha heroína, seja humana, demasiado humana. Mas fico, enamorado deste estado risível de mim, desvaecendo minha solidão, amornando o olhar, correndo campos verdejantes ao corcéis dos sonhos e vicissitudes.  Quão grande, quão tocante pode ser o brilho sereno desta lembrança-esperança dela para mim. E mais, que desencontro ainda paira em mim. Entre os adeuses e boas vindas, pairam essas preces ao luar. E sinto-me arrebatado agora. Vencido talvez, de uma guerra que eu deveria ter sido mesmo derrotado. Tão longo é o alcance desse olhar, desse ouvir. Que fala terrível sai desta boca, capaz de atravessar os mares sem quilha, escalando o breve cume do alto de suas marolas infinitas, que marca gravou-se aí para disfarçar-se em lamúrias singelas sem jamais ser percebido. E o temor que também seja apenas um despertar provisório de um sono longo e lento, esse longo piscar de olhos ? Acredito que devo encerrar agora, e cito mais um vez este trecho da Genealogia da Moral, com que o “Bigode” me perturbou tão profundamente a não me referir a ele como Filósofo ou Mestre nas tantas artes do seu grande conhecimento, mas como amigo, algo mais importante:

“(…) No fundo podemos com todo o resto, nascidos que somos para uma existência subterrânea e combativa: sempre voltamos mais uma vez à luz, sempre vivemos mais uma vez nossa hora áurea de vitória – e então ai estamos, como nascemos, inquebrantáveis, tensos, prontos para algo novo, ainda mais difícil, mais distante, como um arco que a miséria torna ainda mais tenso. – Mas de quando em quando me concedam – supondo que existam protetoras celestes, além do bem e do mal – uma visão, concedam-me apenas uma visão, de algo perfeito, inteiramente logrado, feliz, potente, triunfante, no qual ainda haja o que temer! De um homem que justifique o homem, de um acaso feliz do homem, complementar e redentor, em virtude do qual possamos manter a fé no homem! (…)”

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