Excertos sobre a liberdade

Quanto tempo faz? Alguns meses? Alguns anos? Quando li aquele sorriso, que tão logo, passada a lisonjeira hospitalidade de suas chances e tentativas aparentes, pairou a mais inócua desconfiança no vasto silêncio que foi aberto por essa porta, a porta espelhada dos medos exultantes, e os segredos contados a revelia em cada recuo, em cada soluço. De repente, o grande salto para trás: tudo menos isso! Em meio do território das intimidades. Que estranhamento punindo a nudez circunscrita no rubor das faces, e os perdões cheios de licenciosidades esculpindo na boca o adeus com as unhas e os dentes de todos os tardes demais. Quanto tempo faz, que esse astucioso pudor se interpôs entre tudo e depois imputando a pele toda a responsabilidade, para salvar as vísceras do desastroso acaso.   Que navalha mais fria e nobre a desse cinismo. Como o mensageiro profeta de corpo alegre e alado as custas dos pés de chumbo. Reconheço seu voo astral ziguezagueando para cima e para baixo

Férias mais uma vez, e não quero fazer outra coisa que não filosofar, poetizar, ler e escrever. Recuperar o tempo que parece que me foi — e acaba sempre sendo — roubado de mim, e no inicio dessa época roubada tenho frequentemente a impressão de que é um grande tédio que domina a maior parte, ao inicio de cada semestre ainda persiste alguma valentia, mas depois de muitas tentativas fracassadas, vêm a morbidez devastadora da inercia, me puxando pelas orelhas até um sarcasmo cruel ou pelos pés até a sonolência nublada e abafada de não ter o que fazer. Não vou citar o que eu penso sobre o povo em geral, eu que desde berço já era tão antissocial. Mas sempre tive o mais caro apreço pelas amizades, ao ponto de fazer tudo ao meu alcance por elas. Enfim, não é meu desejo falar sobre isso. Tenho apenas, esta constante desconfiança de que algumas paixões acabam sempre me afastando de outras ao ponto de me ver impelido a escolher desistir de que algum dia venha chegar a concretizar aqueles sonhos pelos quais sempre terei o maior carinho.

Quando é que não existe a casuística dos fatos contra o nosso bom senso cotidiano, a dizer como aquela garota que respondendo francamente sobre mim declarou “até que sim, mas ele sempre vem com essas conversas de filosofia”, e eu que intuitivamente repliquei para mim mesmo “mas é tudo que eu posso ser”. Depois disso, paira um grande silencio-de-mãos-no-bolso e a tétrica do vento no rosto. Conheci até hoje gente simples ou gente que quer parecer complicada, como se isso fosse um estilo, sabe… um tipo complexo, que imita aquilo de quem fica fora dessa classificação tem por grande infortúnio, sendo que higienicamente, cheio de polidez, esse povo põe a mãos na testa com jeito, sem suar. Nisso quase posso sentir os dentes pontiagudos do escárnio com a língua da consciência, e prefiro me abster de maiores definições. “Tudo quase sempre um desperdício”, me vem constantemente essa frase a mente, e depois a cuspo fora como um caroço. A coisa toda se desenrola na formulação do problema, nada tem haver comigo quando se organiza de modo adequado. Mas sofro disso, por muito, como todo mundo. Tem sempre o tempo em que nossa hospitalidade, que nossa receptividade aflora e a gente quer receber bem antes de qualquer julgamento, nisso também a compreensão do outro.

Fluidez. Intensidade. Me dizem, mas fico imóvel como que entre a nuvem e o aço. Do mergulho nesse meu movimento de filosofar, até a rigidez de onde ainda ou nunca poderei ir. Ficam tantas dúvidas, vindas do além de qualquer-outro. Na atenção em relação ao alvo que dispersa o entorno que nos envolve, constantemente muito fica como que perdido num labirinto além de onde o eu e a possibilidade do eu atingir o alvo supra-existe. O quanto é irresistível o magnetismo do espelho, ao ponto de que distração seja submetido aos princípios da traição. Longe de mim, negar o principio fundamental do narcisismo desta relação privilegiada consigo mesmo. Mas o pôr-em-perspectiva inerente ao enriquecimento do aprendizado e que de todo modo reflui mais uma vez para si mesmo, surge muito pouco ou nem dá sinal de existência nessa nossa vida, conquanto não seja gratuita pela carga negativa de decepção que possui. Quando penso nisso me vem a imagem das referência feitas a esmo em relação as forças inconscientes, e que, de outro modo, com suas guelras e nadadeiras, aparecerem enfeitadas e desvisceradas sobre a mesa dos conceitos. O que vive submerso nessas condições sobrevivem assim devido a sua natureza, esquiva. E creio que acabamos por manifestar mais um desejo de controle ou mesmo de vir a mudar as condições em que vivemos, do que propriamente fazer um trabalho de auto-analise.

A liberdade, diante disso, me soa mais como uma parte do processo, do que como um direito. Gozar desse poder, parece ser inexorável tanto quanto limitado. Que escravo, que passividade, que submissão em algum tempo não perverteu sua condição adquirindo poder sobre o senhor, a atividade, o dominador? Adquirindo, por tanto, liberdade. E  vice versa. Me pergunto se a tal intensidade não é frequentemente um o grotesco e aterrador nada, vazio ou fundo abissal, do qual riscamos uns fósforos as vezes e nos comprazemos da alegria de quando a chama dura. Evocamos o nome de grandes coisas ou qualidades positivas sem nos darmos conta de seu par negativo. Mas dificilmente costumo a dizer isso me voz alta, sei que em meu caminho reconheci muitos desses pequenos auto-enganos não sem grandes quedas. E o bicho humano me tem parecido cada vez mais como um animal alado e cego.

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